maio 29, 2005
A HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA DAS PULGAS E FORMIGAS
O gato da casa trouxe pulgas para nós. E uma delas, pretinha e gordinha, surgiu sobre a página do livro que eu tentava ler. Bem em “repinicados”, onde minha unha aterrissou na tentativa fracassada de dar conta da pretinha. Neste momento ela, sorridente, já estava em “bosque”. Desta vez fui com mais calma, queria emboscá-la como uma leopardo faria com uma gazela, mas a minha unha não é tão sorrateira como um e a pretinha é mais alerta do que uma. Lépida, saltou do livro para perder-se da minha vista no infinito do quarto.
Como vocês sabem, livros são objetos supervalorizados, na verdade, não servem lá para muita coisa. Em geral são chatos como este que continuei lendo depois do episódio da pulga. Até que, finalmente, fui outra vez interrompido por um habitante dos escalões inferiores da litosfera. Uma formiga. Fiquei então observando a beleza irregular do seu traçado sobre a página. “Maçada”, “glóbulos”, “cinzento”, “pele”, “túnel”, “troçava”, algo por aí. Mas lembro claramente que “Bexiguentos” foi por onde ela saiu do livro.
O resto da noite foi perdido na empresa de encontrar, testando diversas combinações possíveis, a sequencia das palavras da pulga e da formiga que exprimisse algum oráculo.
abril 17, 2005
PULEX IRRITANS
Pulgas, os principais agentes transmissores da Morte Negra, aquela doença epopeica que deletou um quarto das vidas do mapa da Europa; também aquele sujeito alto, capa negra cara branca sob capuz, aka Deep Black, que derrotou Kasparov von Sida em um filme do Bergman em 1350. Von Sida em seguida morreu de Aids.
Então era um mundo cheio de pulgas letais, armas de destruição em massa espontâneas. Dinossauros sobre a litosfera. Ó, os seres humanos, como são nanos!
AS GORDINHAS ERAM AS MELHORES
Morávamos com um basset hound. Tivemos que dar o cão. Como legado, ficaram suas pulgas. Enquanto estava conosco elas não nos incomodavam, mas agora, na falta do hospedeiro, resolveram migrar para nós, humanos que habitamos este apartamento. Pulex irritans.
A convivência no início era boa. Divertia-me fazendo-as estalarem sob a unha do meu indicador. As gordinhas eram as melhores: nutridas pelo meu próprio sangue, devolviam-me parte dele quando as estourava com a unha. Era quase tão divertido quanto brincar de plástico bolha. Pulex irritans: detetizei.
17/08/2001 03:28
MÚSICA (PARA ADRIAN)
A que eu e minhas pulgas adoramos é “the groove room suite” do pizzicato five. As luzes do quarto apagadas, elas se transformam em pirilampos saltitantes, não, em meteoros de borracha que, luminescentes, ricocheteiam nas paredes. Não sei. Só sei que nessas horas a gente se diverte com o pizzicato e até acha que entende as letras.
21/08/2001 16:54