abril 15, 2006
QUEM AMA A VIDA NÃO ENTENDE NADA
Aquele personagem do Georges Perec, "Um Homem que Dorme", desesperadamente indiferente, lendo mecanicamente cada linha, cada palavra da edição do Le Monde do dia anterior. Adoro esse livrinho. Escrito na segunda pessoa, ganhou para mim um tom acusatório que, obediente, logo aceitei.
“É, eu sou assim mesmo, sem húbris, joie de vivre, pathos... E a vida, sem nem mesmo o itálico que serviu de distintivo a estes termos importados, a vida toda é não esta vírgula, cujo anúncio estragou sua discrição e neutralidade, mas uma outra que eu nem cheguei a mencionar, insignificante.”
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Você pensa assim também, eu sei.
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Perec escreveu este livro porque passou por um período de apatia total em sua vida, tentando engolir o universo com um bocejo enquanto coça a barba por fazer. É preciso reconhecer a importância da baba, a que escorre enquanto você dorme no sofá e que, depois de acordar, tenta limpar da almofada. O tédio é uma emoção cardeal. Só quem submerge no seu visgo vive.
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Quem diz que ama a vida não entende nada, absolutamente nada. Ora, o que é a vida senão o que se nos apresenta nas horas mortas em que, deitados, observando a brancura do teto, a teia de aranha em um dos cantos, o pontinho preto, resíduo de uma perna de mosquito morto no ano anterior, sentimos o coração pulsando para nada, em sincronicidade com a barra de inserção do editor de textos?
Eles acham que amam a vida, mas amam a outra coisa: o que colocam no lugar dela,
o movimento, as ocupações, o ruído e as ações,
para esquecer da profunda repulsa que sentem por ela.
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Observe o sorriso do Perec. Exatamente o de quem ama a vida. Não depois de tê-la quase perdido para uma doença ou acidente, nada de draminhas, mas depois do tédio. Porque só depois dele é possível amá-la realmente.
abril 4, 2006
1. PROJETOS DE VIDA
É ótimo quando se consegue elaborar e executar um que a ultrapasse. Ter filhos, escrever livros, fundar empresas são todos projetos assim - que vão além da, ou ao menos têm a intenção de ir além da expectativa de vida de quem os elabora. Ou você não tem o interesse de que seus filhos, seus livros, sua empresa sobrevivam-lhe? Estes planos são todos afirmativos da vida.
Porém, nem sempre é assim. Alguns têm o desejo de que a sua vida não vá além dos limites do espaço-tempo a que foram circunscritos de um lado pelo berço, de outro, pelo túmulo, que se, aliás, não tiver lápide nem qualquer outro tipo de símbolo ou ornamento, mas só gramíneas, melhor ainda. Pois a opção aqui é pelo não-ser.
2.
Georges Perec morreu cedo e não teve tempo de concluir integralmente seus projetos. Sua ambição era a de percorrer toda a literatura do seu tempo sem jamais ter a sensação de estar retornando sobre seus próprios passos, e escrever tudo o que é possível para um pessoa dos dias de hoje escrever: livros extensos, livros curtos, romances e poemas, dramas, libretti, romances policiais, romances de aventura, romances de ficção-científica, folhetins, livros para crianças... (v. Perec, “Notes sur que je cherche” in Penser/Classer).
3.
O psicanalista diz que o ser humano tem desejo para quinhentos anos, vida para bem menos, porém este cálculo é impreciso. Descartes, que a vontade é infinita. Justamente. E acrescento o seguinte: os meios de que a vontade se serve para seus fins são, além de finitos, miseráveis. Ficam mais ainda quando confrontados com o infinito da própria vontade.
4.
Aos quarenta e poucos Perec morreu, apesar de ainda ter vontade e perícia para muitos livros. Em um dos que teve tempo de acabar, talvez o melhor deles, “A Vida modo de usar”, deixou Bartlebooth, autor de um dos projetos de vida mais interessantes de todos os tempos. Veja:
5. NA TRADUÇÃO DE IVO BARROSO (CIA DAS LETRAS) E...
Imaginemos uma pessoa cuja fortuna seja comparável apenas à indiferença por tudo quanto a fortuna em geral propicia, e cujo desejo fosse, de maneira muito mais arrogante, apreender, descrever, esgotar não a totalidade do mundo – projeto cujo simples enunciado já acarretaria sua ruína – mas determinado fragmento deste; diante da inextricável incoerência do mundo, tratar-se-ia então de cumprir até o fim do programa, restrito, sem dúvida, mas inteiro, intacto, irredutível.
Em outros termos, Bartlebooth resolvera um dia organizar a sua vida em torno de um projeto único, cuja necessidade arbitrária não teria outro fim a não ser ela mesma.
Essa idéia surgiu quando tinha vinte anos. A princípio, era uma idéia vaga, uma pergunta que nascia - que fazer? -, uma resposta que se esboçava - nada . O dinheiro, o poder, a arte, as mulheres, nada interessava a Bartlebooth. Nem a ciência, nem sequer o jogo. Quando muito, gravatas e cavalos ou, se se prefere, imprecisa mas palpitante sob essas ilustrações fúteis (embora alguns milhares de pessoas ordenem suas vidas eficazmente em torno de gravatas e um número ainda maior o façam em torno de cavalos de corrida), certa idéia de perfeição.
Desenvolveu-se nos meses, nos anos que se seguiram, articulando-se em torno de três princípios diretivos:
O primeiro foi de ordem moral: não trataria de um feito, de um recorde, de um pico a escalar, de uma profundidade a atingir. O que Bartlebooth faria não devia ser nem espetacular nem heróico; seria simplesmente, discretamente, a realização de um projeto, difícil, é verdade, mas nada irrealizável, controlado de um extremo ao outro, que, como recompensa, governaria, em todos os seus detalhes, a vida de quem a ele se consagrasse.
O segundo foi de ordem lógica: porque excluía qualquer recorrência ao acaso, a empresa faria o tempo e o espaço funcionar como coordenadas abstratas nas quais se viriam inscrever, com recorrência inelutável, os eventos idênticos que se produzissem inexoravelmente em seu próprio lugar, em sua data certa.
O terceiro, enfim, foi de ordem estética: sendo inútil, sua gratuidade constituindo a garantia única de seu rigor, o projeto destruiria a si próprio à medida que se concretizasse; sua perfeição seria circular: uma sucessão de eventos que, encadeando-se, se anulariam; partindo do nada, Bartlebooth retornaria ao nada, mediante transformações precisas de objetos finitos.
Dessa forma, organizou-se concretamente um programa que poderia, em termos sucintos, ser enunciado assim:
Durante dez anos, de 1925 a 1935, Bartlebooth se iniciaria na arte da aquarela.
Durante vinte anos, de 1935 a 1955, percorreria o mundo, pitando, à razão de uma aquarela a cada quinze dias, quinhentas marinhas do mesmo formato (65 X 50, ou real), as quais representariam portos marítimos. Ao terminar cada uma dessas marinhas, ela seria enviada a um artista especializado (Gaspard Winckler), que a colaria sobre finíssima placa de madeira e a recortaria num puzzle de setecentas e cinqüenta peças.
Durante vinte anos, de 1955 a 1975, Bartlebooth, de volta à França, reconstituiria, na mesma ordem, os puzzles assim preparados, à razão, novamente, de um a cada quinze dias. À medida que os puzzles fossem reorganizados, as marinhas seriam “retexturadas”, de modo que se pudesse descolá-las de seus suportes, transportá-las para os próprios locais onde – vinte anos antes – haviam sido pintadas e ali mergulhá-las numa solução detergente da qual saísse apenas uma folha de papel Whatman, intacta e virgem.
Nenhum traço, assim, haveria de restar dessa operação que, durante cinqüenta anos, mobilizaria inteiramente seu autor.
6. ...NO ORIGINAL
Imaginons un homme dont la fortune n'aurait d'égale que l'indifférence à ce que la fortune permet généralement, et dont le désir serait, beaucoup plus orgueilleusement, de saisir, de décrire, d'épuiser, non la totalité du monde - projet que le seul énoncé suffit à ruiner - mais un fragment constitué de celui-ci : face à l'inextricable incohérence du monde, il s'agirait alors d accomplir jusqu'au bout un programme, restreint sans doute, mais entier, intact, irréductible.
Bartlebooth, en d'autres termes, décida un jour que sa vie toute entière serait organisée autour d un projet unique dont la nécessité arbitraire n'aurait d autre fin qu'elle même.
Cette idée lui vint alors qu il avait vingt ans. Ce fut d abord une idée vague, une question qui se posait - que faire ? -, une réponse qui s esquissait : rien. L'argent, le pouvoir, l'art, les femmes, n'intéressaient pas Bartlebooth. Ni la science, ni même le jeu. Tout au plus les cravates et les chevaux ou, si l'on préfère, imprécise mais palpitante sous ces illustrations futiles (encore que des milliers de personnes ordonnent efficacement leur vie autours de leur cravates et un nombre bien plus grand encore autour de leurs chevaux du dimanche), une certaine idée de la perfection.
Elle se développa dans les mois, dans les années qui suivirent, s'articulant autour de trois principes directeurs :
Le premier fut d'ordre moral : il ne s agirait pas d'un exploit ou d un record, ni d'un pic à gravir, ni d'un fond à atteindre. Ce que ferait Bartlebooth ne serait ni spectaculaire ni héroïque; ce serait simplement, discrètement, un projet, difficile certes, mais non irréalisable, maîtrisé d'un bout à l autre et qui en retour, gouvernerait, dans tous ces détails, la vie de celui qui s'y consacrerait.
Le second fut d'ordre logique : excluant tout recours au hasard, l'entreprise ferait fonctionner le temps et l espace comme des coordonnées abstraites où viendrait s'inscrire avec une récurrence inéluctable des événements identiques se produisant inexorablement dans leur lieu, à leur date.
Le troisième, enfin, fut d'ordre esthétique : inutile, sa gratuité étant l'unique garantie de sa rigueur, le projet se détruirait lui-même au fur et à mesure qu'il s accomplirait ; sa perfection serait circulaire : une succession d'événements qui, s'enchaînant, s'annuleraient : parti de rien, Bartlebooth reviendrait au rien, à travers des transformations précises d objets finis.
Ainsi s'organisa concrètement un programme que l'on peut énoncer succinctement ainsi :
Pendant dix ans, de 1925 à 1935, Bartlebooth s'initierait à l'art de l'aquarelle.
Pendant vingt ans, de 1935 à 1955, il parcourrait le monde, peignant, à raison d'une aquarelle tous les quinze jours, cinq cents marines de même format (65 x 50, ou raisin) représentant des ports de mer. Chaque fois qu'une de ces marines serait achevée, elle serait envoyée à un artisan spécialisé (Gaspard Winckler) qui la collerait sur une mince plaque de bois et la découperait en un puzzle de sept cent cinquante pièces.
Pendant vingt ans, de 1955 à 1975, Bartlebooth, revenu en France, reconstituerait, dans l'ordre, les puzzles ainsi préparés, à raison, de nouveau, d'un puzzle tous les quinze jours. A mesure que les puzzles seraient réassemblés, les marines seraient « retexturées » de manière à ce qu'on puisse les décoller de leur support, transportées à l endroit même où - vingt ans auparavant - elles avaient été peintes, et plongées dans une solution détersive d'où ne ressortirait qu'une feuille de papier Whatman, intacte et vierge.
Aucune trace, ainsi, ne resterait de cette opération qui aurait, pendant cinquante ans, entièrement mobilisé son auteur.
7.
Perec morreu em 1982, quando eu tinha nove anos. Nove anos mais tarde eu leria pela primeira vez “A vida modo de usar”, ficando siderado pelo Programa de Bartlebooth. A minha fantasia idiota é que os grandes escritores mortos ainda estão vivos o suficiente em algum lugar, em algum tempo, para, com poderes se não de oni-, ao menos de superciência, observar as reações de alguns leitores póstumos. Sim, talvez passem a eternidade a ler rostos de pessoas enquanto elas lêem seus livros. O Paraíso, se existisse, deveria reservar um lugar para o exercício da mais radical das vaidades, a autoral.
8.
O ser humano tem desejo não para os setenta ou oitenta anos que espera viver, tampouco para os quatro séculos seguintes ao da sua morte. Há suficiente para a eternidade. Mas não há paraíso e nenhum escritor francês invisível e imortal olha para mim neste momento.
Quero saber, portanto, o que faz com que as pessoas, ao invés de glorificarem o nada como a personagem de Perec, concentrem, como Perec ao criar tal personagem e as centenas de histórias que a orbitam em “La vie mode d’emploi”, os esforços de uma vida inteira para a produção de obras cujos efeitos jamais poderão observar ou vivenciar já que estão para além de si mesmos e da sua vida.
Por que o ser e não antes o nada?
9. A MA_
Pianista. Mas, além disso, um homem que carregava desde a adolescência uma obsessão. Não com a morte: com a reação dos amigos e parentes ao saberem da sua.
A oportunidade surgiu quando a sua mãe morreu. A secretária do departamento de música havia terminado de digitar o email em que era comunicado “o falecimento da mãe do pianista e professor Jonas Lesch”. O email informava a hora e do local do velório, sem mencionar contudo o nome da morta. Pensou em advertir a secretária a respeito disso, mas, enquanto esperava por ela, uma idéia mais forte tomou conta do seu espaço mental.
Com a metonímia resultante da troca do e pelo o, substituiu a morte da mãe pela sua.
julho 10, 2004
(1b) A I O U
"O Desaparecimento" é aquele romance de Perec cuja celebridade se deve em grande parte à pirotecnia, maravilhosa mas ainda assim bem piro-, de escrever uma ficção de cerca de trezentas páginas sem usar a letra ´e´, a mais comum em francês.
(2b) ASLDASDLASL
Eu detesto ser didático. Fico sempre pensando nas pessoas que já sabiam e como ficaram maçadas com a explicação dispensável e ofendidas com a suposição de que não sabiam. Pedagogos dizem que não se deve dirigir a aula nem ao melhor, nem ao pior aluno. Logo, as aulas devem ser destinadas aos medíocres.
O autodidatismo é a solução. O magistério deve ser substituído pelo google.
(3b) L´AFFAIRE DU ´E´ APPARU DANS "LA DISPARITION"
A edição mais recente do livro, da Gallimard, foi um escândalo para perequianos do mundo inteiro. Em 14 de outubro de 2003 um maluco encontrou, como quem acha vestígios de sêmen na batina papal, a primeira instância da letra maldita na página 119. No original era ´dormait´ e não o ´dorme´ da nova edição. Depois desta descoberta, a Association Georges Perec organizou um esforço coletivo de caça aos ´e´. Foram localizados mais dois antes que a Gallimard tirasse de circulação os exemplares.
(4b) HOW SMALL A THOUGHT IT TAKES TO FILL A WHOLE LIFE
Perec adora ofícios insólitos e obsessivos. Lembro de um personagem cuja função era a de extirpar palavras que haviam caído em desuso e que não precisavam figurar nas novas edições do principal dicionário da língua francesa. Era um assassino de palavras, um logicida. Trabalhava diariamente a pesquisar estas palavras hipotrofiadas e a conceber critérios que lhe permitissem selecioná-las. Os perequianos caçadores de ´e´, pessoas que passam a vida a pesquisar, escanhoar, pentear um autor, têm um ofício assim, estranho e monomaníaco.
(5b) O CLITÓRIS DE EPICURO
Há, inclusive, a hipótese de que tudo tenha sido um clinamen. Sabe o clinamen de Epicuro? Eram os desvios espontâneos dos átomos que os retiravam do movimento retilíneo vertical, garantindo, assim, o novo e o acaso a um mundo que, sem isso, seria determinístico e repetitivo. Perec escrevia segundo restrições, regras linguísticas auto-impostas, como a do lipograma em ´e´. Entretanto, dizia que às vezes, de modo arbitrário, introduzia exceções à regra apenas para evitar a sua repetição exasperante e causar um ar de espanto no leitor. É possível que tenha, em acordo sorrateiro com seus editores, determinado que em edições póstumas fossem pingados ézinhos só de sacanagem. É possível.
(6b) ASDKJADKAJDA
La Disparition foi escrito em 68. Sim, aquele ano. Perec, mestre da disciplina e da paciência, comprometeu-se consigo mesmo a trabalhar no livro oito horas por dia em um ritmo de seis linhas por hora. Outra contrainte.
