setembro 4, 2007
"A MELHOR DESCRIÇÃO LITERÁRIA DE PEITINHOS" COMO O POST DA RETOMADA
Vamos ver se consigo voltar a postar com alguma regularidade. Só não sei por onde começar. Tenho blogueio, como já comentei e todos sabem. Vou citar então A Melhor Descrição Literária de Peitinhos:
Shinji made no answer and a surprised look came over his face. He had caught sight of a black streak that ran across the front of her red sweater.Hatsue followed his gaze and saw the dirty smudge, just in the spot where she had been leaning her breast against the concrete parapet. Bending her head, she started slapping her breast with her open hands. Beneath her sweater, which all but seemed to be concealing some firm supports, two gently swelling mounds were set to trembling ever so slightly by the brisk brushing of her hands.
Shinji stared in wonder. Struck by her hands, the breasts seemed more like two small, playful animals. The boy was deeply stirred by the resilient softness of their movement.
(From "The Sound of Waves" by Yukio Mishima - translated from the Japanese by Meredith Weatherby)
abril 27, 2006
AS MIDINETTES DO RIO SUL
A elas recorro para aplacar meu
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palavra merecedora de uma linha exclusiva, mas tímida como uma lacuna. Mas então: saio de casa e, poucos passos depois, já estou no shopping Rio Sul, carregando o meu ar indolente, a tristeza no fundo das minhas pupilas. Logo aparece a primeira midinette, vestidinho cor-de-rosa que, com uma autoridade policial, coloca-se diante de mim e desfere o golpe que explode no meu rosto. Em seguida, já formaram uma fila maior do que a do caixa-eletrônico de onde as observo e, uma após outra, até aquela com pele de magnólia
o que é estranho, pois estamos no verão do Rio de Janeiro,
projeta o punho, onde resplandece uma pulseirinha com o seu nome gravado, contra o meu nariz. Uma variedade torvelinhante de midinettes, axilas raspadas, perfume, pernas, incontáveis seios, todos aos pares, todos com mamilos no centro, todas me estapeando.
O suficiente para que eu retorne para casa feliz.
abril 4, 2006
ERLERGEVKV
Lejos quedaron los tiempos en que un amante como Napoleón podía escribirle a Josefina: "Estaré allí en tres días, por favor no te laves.....". Para las odorófobas sociedades contemporáneas los efluvios estimulantes de la vida amorosa ya no provienen del cuerpo sino de los laboratorios de las empresas multinacionales de cosméticos. Durante el siglo XX una de las esferas más reveladoras del proceso de civilización fue la obsesión por suprimir los olores corporales asociados a la animalidad. En esta empresa el desodorante desempeñó un rol fundamental: fabricado por primera vez a fines del siglo pasado en los Estados Unidos en base a una mezcla de sulfato de potasio y aluminio, tras la segunda guerra mundial su uso se general)zó prácticamente en todos los países occidentales hasta abarcar una gama de variedades que parece no tener fin: desodorantes para las axilas, para los pies, para la higiene íntima, para el aliento, para desinfectar y aromatizar el aire, para la ropa, para el cabello, para borrar los efluvios del cigarrillo y del animal doméstico.
Imagino as pioneiras na arte das axilas imberbes. E os homens que primeiro viram esta nova nudez. Minha ignorância histórica deste fenômeno é total. Mas será que foi algum nobre do século XIX? Imagine o seu encantamento diante da Primeira Depilada. É para lamber?, perguntou. Mais tarde contaria aos amigos. E a nova técnica difundiu-se com rapidez por todo o mundo civilizado.
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A Lucélia Santos, uma mulher do medievo. Além daquelas axilas, acredita em duendes.
fevereiro 2, 2006
CRUZ E SOUZA É ASSIM, NAO É?
Vivian
viu a velha vulva da vil viúva
(que era ruiva)
e vomitou viscosas vísceras,
alvas volúpias venais.
janeiro 23, 2006
Eis o gênio e a graça do capitalismo: dizer que tem a quem não tem.
A minha biblioteca foi feita em Copacabana, princesinha dos sebos. Saudades de Copacabana, canta João Gilberto.
Em Florianópolis ninguém lê. Sou vizinho de uma Academia, aqui todos são vizinhos de uma. É só corpo corpo corpo. Em Copacabana o Slacker tinha os sebos e tinha Ipanema. Ainda hoje me lembro da marca na perna de uma midinette. Ela estava em um restaurante e, quando levantou, ficou com a marquinha da cadeira um pouco abaixo do final da mini-saia. Elton estava comigo. "Olha lá, Elton, a marquinha, a marquinha!" Desde aquele dia sei que marquinhas de cadeira são melhores que marquinhas de biquini.
Em Florianópolis o Slacker só tem Ipanema.
Note: "quasars calling", IMUO (in my unassailable opinion) the best of Elton's songs, is entirely rooted in that experience.
janeiro 21, 2006
MORREREI SEM ORGIA ÀS MARGENS DO VOLGA
Primeiro tenho que contar que Mojo morreu e, no submundo, foi recebido por -
ô.
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Internet is for pr0n. Nenhum computador, nem de desembargador (principalmente), resiste a uma busca por XXX e outras kws. Nenhum.
"Você", digo como um sargento ao destacar da fila um soldado para flexões, "você, dê-me o seu agadê para ser periciado!"
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Sou um ingênuo, um ingênuo e, mesmo se num engenho tivesse nascido e sido criado e lá passado toda a minha vida, não teria aprendido nada observando os animais. E veja que até Felicité, alma simples, un coeur simple, talvez o mais simples da história da literatura foi uma observadora atenta. Felicité, que bebia água dos charcos, assimilou a sabedoria sexual do gado.
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Eu sou aluno da Net. Um amigo meu, geekizão, borrifa a estátua de Onã com ascii. Eu não.
Não vou linkar para vocês o que aprendi com os russos. Um grupo de estudantes da Universidade Estadual de Novgorod, três de cada sexo, elas, ruivas, ruivas em flor.
"Vou morrer sem uma orgia às margens do Volga", repito isso todos os dias duas vezes por dia e, assim, cada vez mais, sossego a minha fúria contra a finitude radical do ser.
dezembro 22, 2005
MOTEL, GOOGLE. MOTEL MOTEL, ENTENDEU?
O paradoxo do motel é que a sua discrição é anunciada com neon, luminosos, uma barroquice infernal. A mensagem superliminar é ENTREM AQUI, FODAM QUEM E COMO QUISEREM E NINGUÉM FICARÁ SABENDO.
Mas aí a amiga da mulher de Pedro vê o marido da amiga entrando (ou saindo, tanto faz) do (no) MOTEL e conta para ela. A pessoa pode até sair (ou entrar) discretamente do MOTEL, mas o MOTEL não é discreto. Se alguém vê você saindo (ou entrando) ela sabe de onde (para onde) você está saindo entrando saindo entrando saindo entrando.
Igrejas também não são discretas. Cruzes furando o céu e um decorador com preferência pelo dourado. Mas ninguém sai (ou entra) de óculos escuros da (na) Igreja, suspirando culpa e uma sensação de ter sido espiado. A pessoa sai valente e, expiada, dá uma esmola ao ceguinho como se estivesse em um reality show.
O confessionarium, entretanto, é discreto. Ao contrário do MOTEL não tem espelho no teto para neguinho se espiar.
outubro 3, 2005
NO AVIÃO
Os dois passageiros sentados ao meu lado começaram a tricotar a conversa mais estranha que já tive a oportunidade de entreouvir. Falavam de um lugar, de uma cidadezinha, onde ninguém trabalhava. Ao menos foi isso o que entendi. Seus habitantes, gente de todas as idades, ficavam o dia inteiro, todos os dias, sem fazer nada a não ser o que lhes interessasse. Conversavam uns com os outros, davam festas, bebiam, riam, divertiam-se, iam a praia, comiam e dormiam. Aí o outro comentou que o experimento do 'fulano' (não consegui entender direito o nome) só havia fracassado até agora por causa do problema da ereção. O problema era que os homens do lugar tinham ereções involuntárias. Normal, pensei, afinal esta é uma das partes do corpo sobre a qual se tem menos controle. É o membro autônomo. Não é como o dedo médio que a gente encolhe e estende quando a gente quer e que jamais levanta espontaneamente. Sei lá, mas na tal cidade, o objetivo do seu mentor e fundador (acho que um milionário que selecionou umas mil pessoas para irem passar o resto de suas vidas neste lugar paradisíaco, tudo às suas custas) só seria concretizado caso conseguisse eliminar da cidade, não as ereções em geral, mas apenas as invóluntárias.
Depois que o procedimento de decolagem terminou, as turbinas ficaram mais silenciosas e pude ouvi-los melhor. Eis um resumo do que consegui entender:
Segundo santo Agostinho, existem três libidos: a dos sentidos, a do poder e a do conhecimento. Estas são as três pulsões egoístas das quais o homem fica dependente depois do pecado original. A finalidade do milionário é a de provar a possibilidade de recuperarmos mundanamente o paraíso perdido lá atrás por Adão. Quando puro e perfeito, recém-saído das mãos do Senhor, Adão não estava sob o jugo de nenhuma das três horríveis libidos. Não estar sob o seu domínio é o que define o homem inocente, nosso ancestral originário. E sofrê-las é então a marca do homem corrupto, da prole adâmica, nós.
O mentor do projeto “Paraíso Reconquistado”, mistura de parque temático soteriológico e reality show bíblico, tem em vista mostrar que não é preciso esperar pela vida eterna, que ele pode ser recuperado hic et nunc. Ou melhor, poderia. Já que há um grave problema com a libido dos sentidos. Homens e mulheres do Éden Artificial vêm se comportando muito bem com respeito às outras duas, porém continuam tão eróticos quanto o mais corrupto dos filhos de Adão. A corrupção evidencia-se pela turgidez inesperada que ocorre nos habitantes do sexo masculino. O que preocupa é que, segundo as descrições do paraíso natural, o Adão pre-lapsário, por estar fora do alcance da libido sentiendi (a dos sentidos), tinha controle absoluto sobre o próprio pênis. Controle que só foi perdido quando foi perdido o paraíso. Assim, enquanto existirem ereções involuntárias em ‘Éden II’, este continuará sendo um arremedo de paraíso, e a tese do seu criador seguirá sem qualquer crédito.
setembro 2, 2005
UMA AXILA EXPOSTA É O EMBLEMA DA
Talvez fique ainda mais tempo sem postar. Talvez o intervalo de tempo entre os posts seja encolhido. Não sei, tudo vai depender.
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Montaigne tinha uma medalha, de um lado o emblema de uma balança, de outro a inscrição "Que sais-je?". "Porra nenhuma" não seria uma resposta porque já seria alguma sapiência. Se tivesse um motto desses de cético uranista seria "tudo depende".
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Dizem que Deus não depende e é incondicionado. Outros discordam: "Deus é o cafetão da nossa credulidade". Mas eu não digo nada: "que sais-je?". E nem fui eu quem disse isso.
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"Deus para mim é a axila exposta da Sharapova, o braço erguido, punho cerrado." Também não fui. Por isso está entre aspas. Digo apenas que
uma axila exposta é o emblema da buceta.
junho 21, 2005
LIBIDO DOMINANDI
Entendi melhor a doutrina agostiniana das três libidos e, mais especificamente, a libido sciendi no que ela tem em comum com a sentiendi quando a que viria ser a minha primeira namorada dos tempos de faculdade aproximou-se de mim para ver o que estava fazendo com o guardanapo. Era a Fita de Möbius, exemplo de superfície com um lado só, expliquei-lhe, enquanto ela, com carinha de perplexa, seguia com o indicador o contorno da fita. Mais tarde descobriríamos, entre um gestalt switch e outro, a figura L-P de Wittgenstein, o Cubo de Necker e a Escada de Drury, e ainda o maravilhoso mundo do Triângulo de Sierpinski, da Curva de Peano e dos Sólidos Rotatórios de Schleiermacher. Como era o tipo do conhecimento inesperado no cenário de um curso de ciências sociais, o efeito que resultava de exibi-lo era muito útil ao seu portador. Em todos os contextos sociais são sempre os símbolos de status que conferem poder de sedução. Em alguns deles é um carro importado que dá direito à fruição. O carro importado dos intelectuais é a erudição.
Ou erosdição, como disse mais tarde à que, convencida pelo trocadilho e pelo name-dropping, se tornaria a segunda enquanto contava-lhe como havia conhecido a primeira. Não lhe escondi nada, nem o meu latim. Kierkegaard fala da ‘sinceridade dos mentirosos’, que é aquela franqueza estratégica que adotamos a fim de ostentar para o outro uma lisura de caráter que o convença a gostar de nós. Falei-lhe inclusive da sinceridade dos mentirosos, noção kierkegaardiana, e ainda que o “carro importado dos intelectuais é a erudição”.
abril 2, 2005
AMOR
Pequenos estímulos, discretas excitações nervosas provocam reações inesperadas, efeitos devastadores. No caso de Barbosa foi a analogia gustativa e olfativa encontrada em Vera. A misteriosa simetria gerou nele uma obstinação amorosa.
O cabelo dela tinha cheiro de capim. Um capim agreste, agridoce. Formidável tosão de ouro, admirável cabeleira chapinhada.
Quantos graus de intimidade precisam ser conquistados para sermos rebaixados até a nobreza da cunnilingus? Barbosa obteve o brasão após dois encontros. Eufemista machista, não gostava da palavra "buceta". Usava "ranhura lanígera".
Pois a ranhura lanígera cheirava e sabia a capim agreste. Só não sabia o porquê da correspondência. Esta ignorância espicaçava a libido e fez com que estendesse a relação amorosa com Vera. Uma felação que, não existisse o símile maravilhoso, ele já teria encerrado há muito.
Não gostava nem da bunda dela. Precisava libertar-se daquela obsessão. Perguntou-lhe qual xampu usava. E se a aplicação era repetida na ranhura lanígera. Não, ela riu, mostrando o aparelho. Seu sorriso sempre o irritava.
Acabou casando com ela. Só depois de cinco anos, dois filhos, resolveria o enigma. Ela lavava suas calcinhas com Higi Calcinha, "o jeito certo e seguro de lavar calcinhas, indicado por dermatologistas e ginecologistas". Assim como o xampu usado por Vera, Higi Calcinha é feito de substâncias extraídas da Aloe vera, planta popularmente conhecida como babosa.
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“Até hoje lavo minhas calcinhas no banho, como minha mãe me ensinou."
Gisele Bündchen
janeiro 8, 2005
ASSDLASDLAD
Perdi a vontade de escrever depois de ter publicado um post no qual fundia Brooke Shields e Nastassja Kinky. Mnemosyne é arqueóloga incompetente, principalmente quando escava sítios da minha adolescência etrusca.
Quem teve a virgindade leiloada em bordel e viveu na lagoa azul com um tenista foi a Brooke Shields. Já o restante dos fatos estão corretamente vinculados à filha de Klaus Kinky.
Os créditos da separação, das lindas gêmeas da minha memória, vão para o Mercuccio.
janeiro 5, 2005
EU ME PERDI EM ALGUM PONTO DA SAGA DOS KINSKI

Estranho só hoje ter descoberto que a filha do Klaus Kinski, aquele malucão, tinha uma filha.
Klaus --> Nastassja --> Sonja
Outro dia revi "Aguirre, a Cólera dos Deuses" e achei muito ruim, como da primeira vez. A partir dos trinta é comum rever, reler, retc porque a gente tem a esperança de mudar de opinião e assim se descobrir diferente de há quinze anos. E também porque a gente esquece.
O Klaus Kinski consegue ser a cólera dos deuses sem fazer nenhum esforço. Como um anão fazendo um papel de um anão, ou uma pedra representando uma pedra. La physique et la psyché du rolê.
Eu me sinto discreto, quase invisível, escrevendo entre estas duas fotos.

Mulher nua com cobra é tão velho e ridículo quanto é viadão na Lagoa Azul. Mas é a Sonja, neta do Klaus, pai da Nastassja, aquela família mais desestruturada do que o futebol brasileiro, incesto total.
A Nastassja teve a virgindade leiloada em bordel mas foi devolvida à caftina porque o comprador, ao não encontrar hímen nenhum, que já estava há muito com Klaus, quis o dinheiro de volta. Depois ela foi redeflorada em Tess pelo Polanski. O Polanski, violador de meninas impúberes e víuvo de Sharon Tate, imolada pelo culto de Charles Manson. Casou com Agassi e, enquanto o casamento durou, o ranking da ATP foi o único em que ele não subiu, mas foi só separar que voltou a subir. Case com uma Kinski e fique impotente no tênis. No tênis. Da Sonja Kinski, contudo, não sei nada: em algum ponto eu me perdi na saga dos Kinski. Ela é filha da Lagoa Azul ou do Malcolm McDowell? Não, seria mais velha. Do Agassi, então.
novembro 17, 2004
VI UVAS LINDAS NOS VINHEDOS
Tenho pensado em viúvas. Nas jovens e nas velhas. Mas menos nestas.
As velhas têm todo o tempo do mundo, o pouco que lhes resta, para cultivar a fidelidade ao morto. As outras, quanto tempo deve durar o seu luto? Quanto se acumula no reservatório de libido durante este período. (Deveria ter terminado a última frase com uma exclamação, mas a verdade é que não sei exclamar. Sinto-me falso toda vez que fecho sentenças com! Minhas frases são todas declarativas.)
Mas quanto!
Uma viuvez jovem, linda e, além do mais, rica pelo legado do marido. Ele morreu súbito, sem tempo de fazer-lhe os filhos que sonhava. Talvez ela o amasse justamente por causa disso: da vida que poderia ter sido. Pode ser também que não, a oportunista. E que mantenha a tristeza do luto apenas com muito esforço, a fim de não perder a aparência de honestidade.
Mas quanto!
Desta aqui, por exemplo, jovem viúva linda, em cuja porta se formou imensa fila de pretendentes, você não gostaria de ser o primeiro?
Uma outra, também do grupo das jovens, que é o único que nos interessa, gostou tanto deste estado civil que o transformou em condição erótica. Nunca mais casou, apesar de ter tido muitos homens. Morreu viúva velha.
E, finalmente, há uma terceira, a que não existe, mas que levava flores ao túmulo do que a enviuvou analiticamente, ou seja, a cada ano, no seu aniversário de morte. Manteve-se rigorosamente fiel durante os quarenta anos que se seguiram ao defunto. Uma necrofilia espiritual, não concorda? O que a faz a mais depravada e degenerada de todas.
julho 12, 2004
CONTO PORNÔ COM FOG
Eu trabalhava como salva-vidas na Praia das Meninas Nudistas de XXX. Espécie de resort íntimo de XXX, manda-chuva da República de Costaguana, só entrava nos domínios da Praia quem ele permitisse, ou seja, quase ninguém. Eu, com efeito, era, além de XXX em suas visitas ocasionais, o único homem da Praia. Localizada num recôndito da Península de Sulaco, a expressão que a descreve com mais precisão é “O Auschwitz Edênico”. O oximoro é justificado quando consideramos, de um lado, os muros, o arame farpado, as guaritas e soldados ao seu redor, e, de outro, a beleza de suas banhistas e suas águas transparentes. Transparentes. É importante repetir porque normalmente este qualificativo é empregado retoricamente para descrever águas que, a rigor, são translúcidas. As da Praia, contudo, são exatamente como o céu, um céu com peixes, algas e anêmonas ornamentais. Portanto, a frase “as meninas nudistas nadam no céu” é verdadeira.
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Sylvia Saint, Zhang Ziyi e Amanda Langlet, estes os nomes das náiades d´El Presidente. Eu, bonito, delicado e prestimoso, era querido por cada uma delas. Ainda que tivesse esta função inconveniente e difícil, a saber, de evitar que surgisse entre elas qualquer traço de gomorrismo. XXX tinha princípios morais estranhos. E inflexíveis: notasse durante os seus contatos com as garotas qualquer indício de que estavam desenvolvendo uma natureza gomorriana, seriam mortas. Eu também, mas antes ainda vivenciaria castigos pavorosos.
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O verdadeiro inferno é viver no paraíso e, por falta de meios, não poder desfrutar de suas benesses infinitas. Como um Borges, cego na biblioteca, assim era o martírio de Eu.
Falam dos jejuadores que, depois de um certo período de privação, deixam de sentir fome. Não funcionava assim com ele: Eu nunca deixava de sentir desejo.
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Em um caixote de areia envidraçado coloque uma formiga inquieta. É possível que em vinte e quatro horas o trajeto das suas pegadas na areia corresponda ao traçado de um dos caprichos de Goya. Há os conhecidos chimpanzés shakespearianos que, com suas máquinas de escrever e datilografia randômica, são possíveis dramaturgos. O vento uivante, um possível compositor. E talvez o vidro da janela não seja estilhaçado pela pedra que o atinge, que, então, atravessar-lhe-ia como se fosse uma cortina d´água.
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Então veio o câncer. Ou seja, as células de Eu iniciaram um processo de replicação desordenada. No primeiro mês apareceu como uma discreta disfunção anatômica. No seguinte, como uma intumescência com tendência a verticalização. E ia ficando cada vez mais indiscreta. Eu realmente deveria chamar o médico. Era o que ia fazer quando teve o insight e desistiu, maravilhado.
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Dois anos mais tarde um médico de Costaguana descreverá o fenômeno de Eu em um artigo publicado em Archivos de Oncología como um “caso jamais visto de regeneração casual através de um exo-teratoma”. Miraculoso exo-teratoma. Mais ainda porque era funcional, perfeitamente funcional e, como o que existia antes do terrível recrutamento como salva-vidas da Praia, tinha a conveniência de ser retrátil.
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Brilhante, úmida, cálida, elétrica, túrgida e ácida, estas foram algumas das palavras que Eu usou em um poema dedicado a Zhang Ziyi, sua preferida agora que era livre, finalmente livre para qualquer coisa na Praia das Meninas Nudistas de XXX. Preferência que logo foi causa de inveja das outras duas, Amanda Langlet e Sylvia Saint. Pior, aproximou-as daquele modo que XXX jamais permitiria.
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Não é necessário contar o final da história: que XXX descobriu tudo, que as meninas foram guilhotinadas e Eu também, só que duas vezes.
junho 25, 2004
OSICRÃ ROMÃ
Assim como na dimensão estritamente biológica todos buscam o estado de satisfação, por exemplo, da fome, da libido, da excreção, do sono, etc, ele, na moral, busca o estado de amor. Não, não ´amor´, palavra constrangedora que me dá ânsias de escrevê-la ao contrário e com til: ´romã´, só para não ter de vômito ao dati dati lografá-la escorreitamente.
Não de ´amor´, mas de ´romance´, esta insatisfação satisfeita, esta [série de oximoros camonianos]. Ele não ama veridicamente. Apenas ama a sensação de estar apaixonado e vai substituindo um objeto por outro, arte que requer grande astúcia psicológica, posto que chama, ou melhor, posto que produzida artificialmente e o coração condena tudo o que não seja espontâneo. Mas o seu artifício é espontâneo, outro oximoro camoniano.
Ele não ama. Ele apaixona-se apenas pelo apaixonar-se dela por ele. Gosta de caminhar pelas ruas na ausência dela e sentir que ela gostaria de vê-lo agora. Então, o seu andar modifica-se imperceptivelmente, perceptível apenas para ele próprio. Sente-se meio gay. Corrige, de modo igualmente subliminar, as passadas. Pigarreia. Sorri de si para si: "Como ela gostaria de me ver agora, de estar comigo!"