novembro 24, 2005

O MUNDO É MEU CAMPO VISUAL

Primeiro, um maço

ou "carteira", alguns usam esta palavra

... um maço de cigarro com o verso virado para cima. Mostra dois cadáveres: o de um camundongo e o de uma barata. Alguém deveria ter avisado às criaturas que não se deve fumar. E, baratas, logo as baratas, que, segundo o mito, resistiriam aos efeitos da radiação de uma explosão nuclear.

O segundo e nem os próximos não descrevo pois são de caráter extremamente pessoal.

***

Seis e dez da manhã. Neste momento penso em como dormir. Só consigo, entretanto, pensar em frases de efeito mongolizante. Sobre o sono:

que ele e a alba -

conhece a Alba, também conhecida como Aurora?


Pois então: o meu sono é amante da Alba, espera a sua chegada para só então entrar em ação.

***

Uma metáfora tortuosa é como despertar após duas horas de sono com o telefone tocando: parece que é alguém fazendo telemarketing; depois você, entre as névoas da modorra, conclui que é a sua mãe dizendo que está grávida. Não era nada disso na verdade. Desconecta o telefone e dorme novamente. Sonha que tudo não passou de um sonho.

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Meu projeto depois de concluir este post é o de ter um sonho lúcido. Aquele em que, semi-conscientes, temos controle parcial da peça. Ao acordar, tomarei notas.

Postado por Marcelo Rota em 3:54 AM | Comentários (0)

outubro 18, 2005

PROPAGANDA DE CIGARRO

Não vou fumar mais nenhum cigarro, este aqui vai ser o último, pensou. Achando que não seria suficiente apenas pensar, repetiu em voz alta:

-- Não vou fumar mais nenhum cigarro, este aqui vai ser o último.

A fumaça se acomodou às estreitas faixas de luz solar que entravam pela persiana. O quarto ficou listrado de fumo dourado. Observou a ponta incandescente do cigarro, o anel de fogo que consumia em uma espiral descendente o papel branco. Estava inspirado e inspirou mais uma vez. Ficou olhando para a torre de cinza enquanto girava o cigarro entre os dedos. Viu uma pareidolia nas cinzas da torre, outra nas espalhadas pelo cinzeiro e a terceira, a efígie de Napoleão na fumaça. Expirou, apagou o cigarro e achou aquilo tudo bonito demais para ser a última vez.

***

Dois soldados alemães em Stalingrado. Um deles aproxima o cigarro dos lábios do outro, que está com a cabeça enfaixada e uma perna e meia. Mas ele expirou, dizendo “mamãe”, antes da chegada do cigarro. O amigo fumou o resto pensando na própria mãe.

Postado por Marcelo Rota em 3:19 PM | Comentários (0)

julho 25, 2005

RUFINO E CAROL

Certa vez o blobeiro Rufino, assim chamado em homenagem à poetisa Cora Coralina, cujo último sobrenome, e o único que não dá eco, é "Rufino", ainda que poucos saibam disso -

Certa vez Rufino escreveu um conto intitulado "O Professor". O professor era de física e gostava de contar piadas aos alunos. O tema mais freqüente das piadas, depois daquelas sobre professores e físicos, era o dos suicidas. Em uma das aulas disse aos alunos que, caso fossem degolar-se, por favor antes envolvessem a cabeça em um saco plástico fechado com hermetismo. "Se não fizerem isso, vai ficar a maior lambança", acrescentou. Todos riram.

No dia seguinte ao chegarem para a aula os alunos souberam. E a gente que leu o conto do Rufino soube antes dos alunos. Alguns, mais velozes, ao final do parágrafo anterior, outros, lentinhos, na primeira frase deste. Era previsível o dénouement surpreendente, apesar do próprio Rufino achá-lo apenas surpreendente.

É pobre o escritor que tenta surpreender seus leitores com um final previsível. Foi por ter afinal descoberto isso através do comentário deixado sobre o post "O Professor" por Carol, outra bobeira, que Rufino ensacou a cabeça e passou a navalha, tal como o professor de física do seu conto.

A notícia de Rufino escorreu por jornais e bobosfera. Carol escreveu no seu bode que achou tudo muito previsível. Carol, aliás, tem um namorado a quem sempre irrita com este comentário. "Previsível", diz sempre que ele tenta lhe causar algum divertimento, como na ocasião em que disse "Cara Carolina linda carolíngea". E ele se sente como se recebesse uma baforada do cigarro de Carol nos olhos e narinas, ainda que ela sempre sopre a fumaça para cima, os olhinhos fechados, educada e entediada.

Postado por Marcelo Rota em 9:09 AM | Comentários (1)

abril 9, 2005

A MINHA PROPAGANDA DE CIGARRO

Eu fumo como um soldado francês, Primeira Guerra, da frente de Somme sob chuva, peraí

A chuva jamais pode ser torrencial. Mais uma daquelas duplas de palavras magnéticas, atraídas pelo uso.

O soldado francês, cujas botas tirou de um cadáver alemão, caminha através da trincheira enlameada. Então pára e tenta acender o cigarro em uma lamparina. Tenta de novo. Na terceira vez consegue. Zooming out a gente vê, envoltos em capas de chuva amarelas, muitos outros soldadinhos. Noite, o soldado olha para a esquerda, olha para a direita e vê fileiras de pontos de brasa. Uns aspiram tão forte que o vermelho da ponta do cigarro chega a ser suficiente para iluminar seus narizes.

É por isso que eu fumo.

Postado por Marcelo Rota em 11:41 PM | Comentários (0)

agosto 13, 2004

PARA QUEM TINHA CURIOSIDADE...

mesadetrabalho.jpg

ou seja, ninguém, aí estão minhas mãos, meus cigarros, meu teclado, enfim, minha querida mesa de trabalho.

Postado por Marcelo Rota em 7:40 PM | Comentários (9)