novembro 24, 2005
O MUNDO É MEU CAMPO VISUAL
Primeiro, um maço
ou "carteira", alguns usam esta palavra
... um maço de cigarro com o verso virado para cima. Mostra dois cadáveres: o de um camundongo e o de uma barata. Alguém deveria ter avisado às criaturas que não se deve fumar. E, baratas, logo as baratas, que, segundo o mito, resistiriam aos efeitos da radiação de uma explosão nuclear.
O segundo e nem os próximos não descrevo pois são de caráter extremamente pessoal.
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Seis e dez da manhã. Neste momento penso em como dormir. Só consigo, entretanto, pensar em frases de efeito mongolizante. Sobre o sono:
que ele e a alba -
conhece a Alba, também conhecida como Aurora?
Pois então: o meu sono é amante da Alba, espera a sua chegada para só então entrar em ação.
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Uma metáfora tortuosa é como despertar após duas horas de sono com o telefone tocando: parece que é alguém fazendo telemarketing; depois você, entre as névoas da modorra, conclui que é a sua mãe dizendo que está grávida. Não era nada disso na verdade. Desconecta o telefone e dorme novamente. Sonha que tudo não passou de um sonho.
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Meu projeto depois de concluir este post é o de ter um sonho lúcido. Aquele em que, semi-conscientes, temos controle parcial da peça. Ao acordar, tomarei notas.
outubro 18, 2005
PROPAGANDA DE CIGARRO
Não vou fumar mais nenhum cigarro, este aqui vai ser o último, pensou. Achando que não seria suficiente apenas pensar, repetiu em voz alta:
-- Não vou fumar mais nenhum cigarro, este aqui vai ser o último.
A fumaça se acomodou às estreitas faixas de luz solar que entravam pela persiana. O quarto ficou listrado de fumo dourado. Observou a ponta incandescente do cigarro, o anel de fogo que consumia em uma espiral descendente o papel branco. Estava inspirado e inspirou mais uma vez. Ficou olhando para a torre de cinza enquanto girava o cigarro entre os dedos. Viu uma pareidolia nas cinzas da torre, outra nas espalhadas pelo cinzeiro e a terceira, a efígie de Napoleão na fumaça. Expirou, apagou o cigarro e achou aquilo tudo bonito demais para ser a última vez.
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Dois soldados alemães em Stalingrado. Um deles aproxima o cigarro dos lábios do outro, que está com a cabeça enfaixada e uma perna e meia. Mas ele expirou, dizendo “mamãe”, antes da chegada do cigarro. O amigo fumou o resto pensando na própria mãe.
julho 25, 2005
RUFINO E CAROL
Certa vez o blobeiro Rufino, assim chamado em homenagem à poetisa Cora Coralina, cujo último sobrenome, e o único que não dá eco, é "Rufino", ainda que poucos saibam disso -
Certa vez Rufino escreveu um conto intitulado "O Professor". O professor era de física e gostava de contar piadas aos alunos. O tema mais freqüente das piadas, depois daquelas sobre professores e físicos, era o dos suicidas. Em uma das aulas disse aos alunos que, caso fossem degolar-se, por favor antes envolvessem a cabeça em um saco plástico fechado com hermetismo. "Se não fizerem isso, vai ficar a maior lambança", acrescentou. Todos riram.
No dia seguinte ao chegarem para a aula os alunos souberam. E a gente que leu o conto do Rufino soube antes dos alunos. Alguns, mais velozes, ao final do parágrafo anterior, outros, lentinhos, na primeira frase deste. Era previsível o dénouement surpreendente, apesar do próprio Rufino achá-lo apenas surpreendente.
É pobre o escritor que tenta surpreender seus leitores com um final previsível. Foi por ter afinal descoberto isso através do comentário deixado sobre o post "O Professor" por Carol, outra bobeira, que Rufino ensacou a cabeça e passou a navalha, tal como o professor de física do seu conto.
A notícia de Rufino escorreu por jornais e bobosfera. Carol escreveu no seu bode que achou tudo muito previsível. Carol, aliás, tem um namorado a quem sempre irrita com este comentário. "Previsível", diz sempre que ele tenta lhe causar algum divertimento, como na ocasião em que disse "Cara Carolina linda carolíngea". E ele se sente como se recebesse uma baforada do cigarro de Carol nos olhos e narinas, ainda que ela sempre sopre a fumaça para cima, os olhinhos fechados, educada e entediada.
abril 9, 2005
A MINHA PROPAGANDA DE CIGARRO
Eu fumo como um soldado francês, Primeira Guerra, da frente de Somme sob chuva, peraí
A chuva jamais pode ser torrencial. Mais uma daquelas duplas de palavras magnéticas, atraídas pelo uso.
O soldado francês, cujas botas tirou de um cadáver alemão, caminha através da trincheira enlameada. Então pára e tenta acender o cigarro em uma lamparina. Tenta de novo. Na terceira vez consegue. Zooming out a gente vê, envoltos em capas de chuva amarelas, muitos outros soldadinhos. Noite, o soldado olha para a esquerda, olha para a direita e vê fileiras de pontos de brasa. Uns aspiram tão forte que o vermelho da ponta do cigarro chega a ser suficiente para iluminar seus narizes.
É por isso que eu fumo.
agosto 13, 2004
PARA QUEM TINHA CURIOSIDADE...

ou seja, ninguém, aí estão minhas mãos, meus cigarros, meu teclado, enfim, minha querida mesa de trabalho.