abril 27, 2006
AS MIDINETTES DO RIO SUL
A elas recorro para aplacar meu
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palavra merecedora de uma linha exclusiva, mas tímida como uma lacuna. Mas então: saio de casa e, poucos passos depois, já estou no shopping Rio Sul, carregando o meu ar indolente, a tristeza no fundo das minhas pupilas. Logo aparece a primeira midinette, vestidinho cor-de-rosa que, com uma autoridade policial, coloca-se diante de mim e desfere o golpe que explode no meu rosto. Em seguida, já formaram uma fila maior do que a do caixa-eletrônico de onde as observo e, uma após outra, até aquela com pele de magnólia
o que é estranho, pois estamos no verão do Rio de Janeiro,
projeta o punho, onde resplandece uma pulseirinha com o seu nome gravado, contra o meu nariz. Uma variedade torvelinhante de midinettes, axilas raspadas, perfume, pernas, incontáveis seios, todos aos pares, todos com mamilos no centro, todas me estapeando.
O suficiente para que eu retorne para casa feliz.
abril 26, 2006
DER TOD UND DAS MÄDCHEN
A Ruiva e o Daltônico. Este é um mote tão interessante para uma obra de arte, seja um conto, um filme, um romance ou um quarteto de cordas, e, no entanto, tão pouco explorado. Ao contrário de "A Morte e A Donzela", tema clássico e já praticado exausticamente por artistas das mais diversas disciplinas.
Digo isso porque tenho esta teoria, a de que as ruivas não casam. E isto pela simples razão de que, ocupados em fetichizá-las e em descobrir-lhes a flamejante correspondência cromática, os homens não têm o tempo e a disposição mental para amá-las. Mas aí é que entra a conjunção adversativa:
Mas o daltônico...
abril 24, 2006
HOMEM COM A MÃO LEVANTADA
Fiquei sabendo que na Índia um sujeito mantém a mão direita erguida há dez anos.
É uma maneira interessante, não de passar o tempo, de pará-lo. Desde que o indiano real seja como o que imagino: parado numa esquina de Calcutá, Bombaim ou Nova Deli, como se tivesse sido congelado no momento em que fazia sinal para um ônibus, ou em que apontava para uma vaca observada, durante uma experiência mística, entre duas nuvens, dez anos atrás. Sim, há problemas logísticos, como o da ingestão e posterior excreção. Talvez exista um auxiliar que a cada dois dias lhe dê o input e recolha o output. Não sei. De qualquer modo, esta foi apenas a versão estática do Homem com a Mão Levantada.
Na dinâmica, contudo, ele é livre para levar uma vida normal, comer em restaurantes, andar de trem e trabalhar, seja em Calcutá, Bombaim ou Nova Deli, numa sofware house, onde seus companheiros nem notam mais a mão perpetuamente erguida.
abril 18, 2006
SLAKJDASLKDJASFGLKJGFKLJDKLJ
Esta pessoa ama a vida e goza todos os seus átomos, sem exceção. Anda e quer aproveitar cada uma das passadas. E ele as dá curtas para que tenha mais delas entre a origem e o destino. Enquanto está indo não pensa na chegada, na próxima atividade que terá que desempenhar, talvez a do trabalho na linha de montagem. Mas, quando chega, é algo que ele faz com lenta fruição. Entretanto, ele é rápido e funcionário dos mais eficientes, lento é só o prazer do trabalho. Quase não nota, mas já é hora de ir para casa: aprazível o trajeto de volta. Se chove, as gotas sobre o seu rosto tem o mesmo valor de raios solares em um dia frio, e, se faz calor... Sim, exatamente.
Tudo o que ele faz é erótico, a vida é um jardim, esteja ele em um ou não. É suave, justo, preciso, confortável e belo o seu sono. A felicidade de despertar e começar novamente o ciclo do dia é, como todo o resto, prosperidade, apesar de ele ser pobre.
Algo estranho, entretanto, acontecerá no último dia da sua vida, aos oitenta anos, câncer no esôfago, no leito hospitalar. Suas lembranças, não importa se as mais remotas, da infância, ou do dia anterior, o enfermeiro e o banho de pano úmido, todas estas memórias lhe aparecerão igualmente vivas e nítidas na mente.
A vida inteira, oitenta anos, oitenta anos como se tivessem sido um dia. A mosca que viveu vinte e quatro horas teria vivido mais do que eu, caso tivesse tido o pouco de sofrimento que não tive
...não será seu último pensamento apenas porque ele morrerá um pouco antes de formulá-lo e ter o tempo de sofrer com ele. Ah, mas se tiver um minuto, um minuto apenas para doer e latejar com esta idéia, será espetacular. Os auxiliares de enfermagem e os médicos presentes na UTI morrerão por causa da explosão de cogumelo nuclear do seu crânio. Uma bomba de dor.
abril 17, 2006
EM ARNSTADT
Como todos sabemos, J. S. Bach uma vez caminhou quase duzentos quilômetros, de Arnstadt a Lübeck, apenas para ouvir Buxtehude. E quase perdeu o emprego por conta disso. Reputação é o que falam sobre alguém quando ele não está presente. Elogio é exatamente o contrário, o que falam na presença, exatamente o contrário do que falam na ausência. A maior ausência de todas é a póstuma.
Fôssemos julgar pela reputação que cada um deles possui hoje em dia, Bach deveria ter ficado em casa esperando pela chegada do seu admirador, o organista e compositor Buxtehude. Se a *Posteridade*, encarnada, por exemplo em mim, pudesse telecronotransportar-se para a Arnstadt de então, eu diria a Bach que poupasse a caminhada, melhor o senhor ficar em casa compondo. Mas foi impossível. Não a viagem, mas ter falado com Bach.
Logo que me materializei em Arnstadt senti o corpo pesado. Passei a mão no meu rosto e senti a barba. Arranquei um fio, doeu, era branco e não acordei. Não conseguia andar direito e vai ver foi por isso que percebi na minha mão esquerda um cajado. A primeira coisa que ouvi foi o som maravilhoso do órgão e, apoiando-me no cajado, tentei caminhar até sua origem, a igrejinha que via lá na frente. Um menino ruivo e sardento, dez anos mais ou menos, apareceu e arrancou-me da mão o meu apoio. Caído no chão, recebi os golpes impiedosos da criança que, a cada cajadada que desferiu, gritou: “Anachronismus!”.
abril 15, 2006
QUEM AMA A VIDA NÃO ENTENDE NADA
Aquele personagem do Georges Perec, "Um Homem que Dorme", desesperadamente indiferente, lendo mecanicamente cada linha, cada palavra da edição do Le Monde do dia anterior. Adoro esse livrinho. Escrito na segunda pessoa, ganhou para mim um tom acusatório que, obediente, logo aceitei.
“É, eu sou assim mesmo, sem húbris, joie de vivre, pathos... E a vida, sem nem mesmo o itálico que serviu de distintivo a estes termos importados, a vida toda é não esta vírgula, cujo anúncio estragou sua discrição e neutralidade, mas uma outra que eu nem cheguei a mencionar, insignificante.”
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Você pensa assim também, eu sei.
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Perec escreveu este livro porque passou por um período de apatia total em sua vida, tentando engolir o universo com um bocejo enquanto coça a barba por fazer. É preciso reconhecer a importância da baba, a que escorre enquanto você dorme no sofá e que, depois de acordar, tenta limpar da almofada. O tédio é uma emoção cardeal. Só quem submerge no seu visgo vive.
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Quem diz que ama a vida não entende nada, absolutamente nada. Ora, o que é a vida senão o que se nos apresenta nas horas mortas em que, deitados, observando a brancura do teto, a teia de aranha em um dos cantos, o pontinho preto, resíduo de uma perna de mosquito morto no ano anterior, sentimos o coração pulsando para nada, em sincronicidade com a barra de inserção do editor de textos?
Eles acham que amam a vida, mas amam a outra coisa: o que colocam no lugar dela,
o movimento, as ocupações, o ruído e as ações,
para esquecer da profunda repulsa que sentem por ela.
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Observe o sorriso do Perec. Exatamente o de quem ama a vida. Não depois de tê-la quase perdido para uma doença ou acidente, nada de draminhas, mas depois do tédio. Porque só depois dele é possível amá-la realmente.
abril 14, 2006
A PSICOLOGIA DA ELEIÇÃO DE ASSENTOS NO TRANSPORTE PÚBLICO
Sou o tipo de pessoa (o tipo mais comum) que fica feliz se, num ônibus com vários lugares disponíveis, a moça resolve sentar ao meu lado. E então fica se perguntando o porquê: qual teria sido o preciso estímulo que a levou a tomar esta decisão? Além disso, o tipo que evita, em um ônibus com diversas opções de bancos, o ao lado da moça mais bonita do ambiente, por achar óbvio demais e que todos certamente pensariam "o espertinho sentou-se com a ruivinha", e a própria ruivinha, consciente do lugar privilegiado que ocupa na scala paradisi:
"Coitado..."
E ainda aquele tipo que não se sente bem escrevendo em qualquer outra que não a primeira pessoa. Talvez por medo de que isto agrave os processos dissociativos de que vem sofrendo.
O ponto de vista narrativo fundamental, ao qual os outros todos podem ser reduzidos, é este. Pois mesmo quando escrevo na terceira sou *eu* que o faço, ou *você* se, no caso, for *você* quem estiver escrevendo. Mas, ora bolas, "você" é só um modo da primeira referir-se a uma segunda pessoa, o que só corrobora a idéia de que esta é a perspectiva originária do discurso.
Ele era o tipo de pessoa que imediatamente sofre um sopro de autoconfiança se a moça que entrou no ônibus escolhe, em detrimento de tantos outros disponíveis, o banco ao seu lado. Ela, também tipicamente, evitava o lugar que mais a atraía do ônibus, ao lado da pessoa mais atraente, a fim de não, pensava, "deixar esse cara metido demais, mais do que já deve ser". Daí ter sentado ao lado dele, figura que julgou mais neutra. E eu tive que me contentar com a visão da sua nuca, que os cabelos amarrados deixavam entrever quando o ônibus sacolejava.
Ou ao menos foi isso o que ele pensou, ao justificar a rejeição de modo a salvaguardar a vaidade.
DLFGKTKDLASLA
Bem em frente à janela do quarto há um caminhão de mudanças. “Mudanças Raílton - estaduais e interestaduais” e, embaixo, em vermelho esmaecido pelo tempo, o telefone 225-9876. Do tempo em que os números de telefone tinham somente sete algarismos. Um caminhão de mudanças sem rodas, fixo, abandonado. Prova de que até mudanças podem estagnar. Como se o rio do filósofo grego tivesse secado.
abril 13, 2006
BIOGRAFIA
Às vezes acho, pretensiosamente, que a minha vida mental é como a História, só que numa escala menor. Assim, recém-nascido, devo ter sido um pouco como os hominídeos de quatro milhões de anos atrás. Criança, fui cenário de conflitos sanguinários e sei que alguma parte de mim deixou seu lugar original, em algum recanto da consciência e, como Alexandre Magno saiu da Macedônia para conquistar o Oriente, saiu para descobrir e tomar posse do resto de mim. Morta a criança quando voltava para Babilônia, tornei-me adolescente já no Império Romano, só que, como as analogias são imperfeitas, não tive nem um segundo de Pax Romana e, ao contrário de Roma, não precisei passar por um apo- antes de ter meu hipogeu e ser sitiado por bárbaros. Envelheci durante a Idade Média e, quando Constantinopla caiu, não acreditava mais em Deus, mas ainda cria no Amor. Depois disso, o equivalente às Grandes Descobertas ultra-marítimas dos séculos XV e XVI foram as minhas Grandes Decepções e precisei tentar circunavegar a Terra para entender que nem o Amor existia, ao menos não da maneira como acreditava, redondinho, mas que era achatado feito um panqueca. Eu sei, mas é como disse: as analogias são imperfeitas. E o resto eu conto depois.
abril 12, 2006
CONCURSO
Não serão admitidas, para entrevista, pessoas com os seguintes problemas:
a) Que se apresentarem com orelhas mal dirigidas (acabanadas) ou com prejuízo da conformação;
b) Que possuam prejuízo da visão uni ou bilateral, cegueira, com opacidade da córnea em qualquer grau (olho branco); perfuração do globo ocular e assimetria (tamanho diferente) dos olhos; albinóide;
c) Cujo lábio inferior seja flácido, grosseiro e pendulado, quando em repouso, ou que se balance, estando em movimento, lábio superior torcido para um dos lados da face ou lábio acentuadamente rasgado nas suas comissuras (cantos);
d) Cujas arcadas dentárias incisivas sejam mal ajustadas (prognatismo). Em qualquer idade, e com qualquer grau de prognatismo mandibular, serão recusadas;
e) Com assimetria da garupa, quer observável na largura, bem como na altura das ancas. Só serão admitidas as pessoas que apresentarem assimetrias muito discretas (sutis), que não cheguem a prejudicar a estética. Elas serão passíveis de prejuízo no julgamento;
f) Com alterações nos órgãos genitais masculinos, ausência de testículos na bolsa escrotal e assimetria (tamanhos diferentes) testicular acentuada;
g)Emboletadas, com edemas e quartelas verticalizadas (fincadas) com assimetrias acentuadas das articulações, interferindo ou não na função, com ferimentos (feridas) crônicos ativos prejudicando a estética;
h) Com unhas pintadas de qualquer cor ou por qualquer material, ou de tamanhos acentuadamente diferentes.
Em caso de dúvida, procure um técnico da ABBPM.
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Ele foi, mesmo assim, para a entrevista. Depois da recusa, amplificou a voz, reclamou, protestou, fez passeata sozinho, escreveu cartas para os jornais, pediu uma audiência com um deputado, ligou para o jornalismo da Rede Globo e, como todos esses esforços resultassem em vão, iniciou uma greve de fome em frente a sede da ABBPM. Depois de dez dias sem comer, fraco, já com um olhar que refletia a morte, vivendo apenas das últimas reservas de gordura que o intestino processava e expelia em fezes branco-amareladas, liquefeitas, que ele então usava parte para untar o próprio corpo, parte para escrever suas palavras de desespero no vidro da porta da ABBPM,
descobriu que era o *homem invisível*.
Por mais que se expusesse ninguém o notava, absolutamente ninguém, por mais absurdos e ostensivos que fossem seus atos. Tinha carne, sangue, osso, precisava comer e excretar como qualquer ser humano normal, se cortasse os pulsos sangraria até a morte, como qualquer ser humano normal e, no entanto, era um espectro a arrastar ruidosamente pela cidade sua dor que,
entretanto,
ninguém ouvia. Era imperceptível, a não ser para ele próprio. Antes fosse um abantesma também para si mesmo, mas era apenas para os outros, enquanto ele mesmo sentia, vivia e sofria como qualquer outro ser humano normal. Sentiu-se um Crusoé na cidade de vinte e cinco milhões de habitantes.
SENHA
O complemento cósmico desta letra 'o', deste caractere aí entre aspas, é tudo o que não é ele, tendeu? Você, por exemplo, que está me lendo e tudo ao seu redor, que não tenho a menor idéia do que seja, mas pode ser até um orangotango de estimação, pois bem, você e o seu entorno, os objetos que o cercam, participam do complemento cósmico do caractere. Eu também.
Eu, aliás, muito tempo atrás, quanto contava muitos menos anos do que conto hoje, talvez uns dez ou quinze a menos, descobri -
...na verdade eu simplesmente disse a palavra assim por acaso, mais uma de tantas que gostava de inventar nos meus momentos de trabalho, nos de ócio eu fazia coisas mais produtivas. Então: essa palavra era a senha de congelamento do meu complemento cósmico. Tendeu? Ficava tudo parado, menos eu, que andava livremente. Era só proferi-la.
Infelizmente, contudo, só consegui usá-la duas vezes. Na primeira que, como já disse, foi por acaso, fiquei em estado de choque vendo o universo parado e eu girando ao seu redor, enlouqueci e, após uns cinco minutos, desesperado, pronunciei-a novamente e então sem querer desliguei o congelamento do meu complemento cósmico. Ah tá, a gente fala uma e liga, fala de novo e desliga, havia aprendido o mecanismo.
Naquela noite, de insônia vermelha, enquanto me recuperava da perplexidade inicial, já tinha espaço na mente para, com meus novos poderes secretos, maquinar planos de adolescente.
E foi na escola, hora do recreio, que usei o Verbo pela segunda e última vez. Meu interesse era pela Joana, aquela ruiva alta e linda da minha sala. O objetivo, o de verificar certa correspondência cromática. E quando, trêmulo, me abaixava para confirmá-la, o mundo voltou a girar. Na altura dos joelhos de Joana era onde estava o meu nariz que agora sangrava por causa da joanada da própria Joelha, menina pudica e violenta, que fez minha cabeça girar logo depois que o mundo recomeçou. Nunca mais a senha voltaria a funcionar.
abril 11, 2006
O OLHAR DA MALÍCIA
Do mundo animal, do qual me excluo e a todos os que me sejam similares, como o chimpanzé, mas, como dizia, do mundo animal o olhar mais interessante é o do crocodiliano. O que a barbatana é para os que observam o tubarão, os olhos são para quem vê o crocodiliano. Isto é: Se tiver a sorte de ver antes de ser visto, o que certos antílopes sedentos não têm.
Não é magnífico manter apenas o órgão da visão à flor d´água, enquanto todo o resto fica submerso? Penso logo no periscópio do submarino. E também no olhar do Alex de Laranja Mecânica, aquele de baixo para cima, irisado de loucura. Um perfeito crocolhar, se tivessem me autorizado o neologismo. Como não, é lindamente crocodiliano, ainda que psicótico, o que talvez todos aqueles répteis sejam. Basta inquirir os gnus e eles confirmarão. Pois então: o Kubrick internou o Malcom McDowell em sua mansão durante meses apenas para ensaiar este olhar, o de baixo para cima. Os modelos utilizados para este fim foram, além do dos meus amigos crocodilianos, o de anões arrogantes e o das mulheres enquanto praticam a felação.
[PIGARRO]
As pessoas hoje gostam muito do “natural”. Abraçam árvores. No entanto, abraçar pilastras seria um pouco menos ridículo. E muito mais humano. Colunas neolíticas, colunas gregas, colunas góticas, enfim, o Princípio da Coluna é um marco na história da arquitetura e símbolo do nosso afastamento da natureza. O humano é artifício e quanto mais humano menos natural. Na garagem ou no pilotis do seu prédio existem pilastras. Vá lá.
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No livro escolar da minha filha, de história, um elogio aos índios, que “viviam em perfeita harmonia com a natureza”. Por isso que não descobriram a Europa, digo a ela. E você só existe hoje porque os portugueses não viviam em harmonia com a natureza. Eram inquietos e ambiciosos.
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Eu dependo do meu estado de humor vigente. Eu não, o mundo. O mundo todo é visto através dele. Psicologia é demiurgia. Agora estou me sentindo bem e o mundo, sorridente e convidativo como a mais linda prostituta. Mas ontem eu olhava para ele como a prostituta que se deu conta de ter envelhecido olha para ele.
RISK FACTORS FOR DENTAL FLUOROSIS IN PEDIATRIC DENTAL PATIENTS
1.
Era a época das cáries, e dos dentifrícios fluoríticos para combatê-las. Tive algumas. Talvez porque comia muita bala juquinha. Foi então que conheci Sheila, a dentista, que tanto me fazia sofrer. Ela tinha uns trinta anos e, como ainda não havia aquelas luvas higiênicas, podia sentir a sua pele na minha boca.
2.
No pátio da escola, jogando futebol, driblei um adversário que então, vencido, deixou o pé na minha frente. Na minha frente eu deveria ter colocado as mãos quando ia caindo, mas nem. Fui de boca no chão. Coloquei o dente no bolso e fui para a enfermaria do colégio. A primeira coisa que perdi na vida, o meu sorriso.
3.
Hoje em dia, o declínio da incidência de cáries na população coincide com o aumento da fluorose dentária. O flúor, herói da Sheila, minha primeira dentista, pode ser perigoso, segundo o Doutor Salgado, que cuida da dentição da minha filha. Ela ainda não sabe disso, mas, quando estiver levando os seus ao dentista, daqui a uns quinze anos, vai descobrir, como eu, a lei que poderia ser formulada assim: o futuro, sobre o qual somos tão ignorantes, tem sempre mais ciência que o presente, que tão bem conhecemos. Mas, se quisermos fazer a inversão, assim: o presente, que a gente conhece tão bem, é sempre mais ignorante que o futuro, que a gente tanto ignora. Ou, de modo mais econômico: o tempo passa. Última variação: refrescância, hálito puro, máxima proteção anticáries e dentes brancos? A vida é mais complicada do que colgate.
CAROS SIMPARANECROMENOI,
conhecem o Asno de Buridan que, diante de dois montes de feno eqüidistantes e idênticos sob todos os aspectos, morreu de fome. Quero apresentar-lhes, então, a versão contemporânea desta hesitação mórbida: o Hiperasno de Buridan. Ao invés de oscilar diante da identidade, este outro famélico titubeia na diversidade.
Queremos o melhor, mas o cardápio do século XXI desdobra-se, por exemplo, nas n bilhões de páginas que o Google indexa. A Biblioteca do Congresso abriga quarenta milhões de livros, a Terra, seis bilhões de pessoas, cujas crenças são disputadas por mais de dez mil religiões. Sob estas condições, amigos simparanecromenoi, o melhor que possamos conseguir ainda é ruim o bastante para que achemos a fome melhor. Nossa religião é a da Fome, nossa escolha, nenhuma, entre o ser e o nada, ficamos com o tertium non datur. Fome.
abril 10, 2006
A FELICIDADE ODEIA O TÍMIDO
O tímido ama superfícies polidas, aquelas que refletem a luz que sobre elas incide, permitindo assim que ele, ao olhar para a direita, veja o que esta à esquerda. Não precisa nem ser um espelho tradicional. Melhor mesmo que não seja, pois espelhos refletem demais e têm, portanto, pouca discrição.
Os vidros de janelas no transporte público são ideais. Como os do metrô. No banco da frente, duas mulheres feias lixavam as unhas enquanto falavam sem parar. Coloque-me amarrado a uma cadeira, com pinças repuxando as pálpebras e, diante de mim, uma fileira de mulheres dentuças esculpindo suas unhas, que então eu confessarei tudo. Inclusive, a minha paixão por axilas. E que no metrô, a fim de desviar o olhar das teratoqueratinosas, olhei para a direita e vi, à esquerda, a linda midinette, camiseta preta e sem mangas, que levava as duas mãos atrás da cabeça para ajeitar os cabelos. Foi o que me salvou.
POST MISÓGINO
Estamos, sei lá, talvez no paleolítico superior e na nossa espécie existe este dimorfismo fundamental, uma assimetria entre os sexos, que faz com que o homem seja em média mais alto, mais forte do que a mulher, fisicamente. Outra diferença importante é que a mulher não aumenta sua capacidade de reprodução com o aumento do número de parceiros. O homem, ao contrário, quanto mais parceiras reprodutivas tiver, maior será a difusão de seus genes mundo afora. O homem foi feito para inocular o maior número possível de fêmeas com seu líquido seminal. Há muita violência, então.
Agora estamos, sei lá, já na história, talvez no mundo hodierno, e o Nietzsche fala que a mulher é este enigma cujo rumo, cuja solução é a prenhez e que para ela o homem é um meio, apenas um instrumento, cujo fim é o filho. E para o homem, o guerreiro para cujo prazer elas foram feitas, a mulher é o brinquedo, um brinquedo perigoso. E há este homem específico de terno e gravata e, onde estariam a boca e os lábios, um espesso bigode. Ele está correndo sofregamente, atrás dele uma horda de mulheres desnudas, todas gostosas. Há este dimorfismo fundamental e as mulheres não foram feitas para a corrida. Ele olha para trás e vê os grandes peitos balançando, grande potencialidade láctea, mas são também o handicap negativo delas para o atletismo. Consegue ampliar a distância. Ele não é gay e, entretanto, foge. É um jovem executivo bem-sucedido. Vê que mais adiante, a uns 100 metros, há um precipício. Continua a correr enquanto vai afrouxando a gravava. Deixa cair a sua pastinha de executivo, tira o paletó. Elas pisam com seus lindos pés afoitos sobre a papelada. De repente, freiam, os peitos, grande potencialidade láctea, ficam imóveis, desolados: ele, o super-homem, voa sobre o abismo.
abril 8, 2006
NO MAY BEETLES CAN BE HEARD IN THE LIME GROVE
"É só ver as expressões faciais: ainda que sejam em certa medida dependentes do seu suporte físico (tamanho e forma do nariz, dos lábios, cor dos olhos e traços faciais em geral), possuem um espaço de criação que é bem mais amplo do que aquele efetivamente usado pela pessoa no decurso da sua existência. Usamos um estoque de, por exemplo, olhares e sorrisos bem restrito. Você que está me lendo certamente possui uma maneira de sorrir a qual sempre recorre em determinadas situações.
O ator, porém, é um tipo especial de pessoa, aquele que busca explorar todo o espaço da dinâmica muscular da face. Ao contrário do homem comum, que reage automaticamente e sempre com o mesmo modelo de expressão a cada situação, o ator é dono dos seus músculos faciais e é capaz de orientá-los de acordo com a expressão que tenciona produzir. O homem comum tem no seu rosto uma orquestra que é regida pelas situações que lhe são apresentadas na vida; o ator é o maestro, seus músculos faciais a sua orquestra, e para ele não há situações reais, mas apenas as criadas por ele próprio.”
(Julian Drom – “Cantor and Diderot: the mathematics of drama theory”)
MAR VERMELHO
Já tive a oportunidade de ser carona de ambulância duas vezes. Quem estava atrás nas duas ocasiões era o meu pai. Da segunda delas lembro muito bem: noite de sexta-feira, sob uma chuva caudalosa. E de ter pensado, ao olhar para a expressão do sujeito com cara de mexicano que a pilotava, que dirigir ambulância deve dar uma sensação de poder. Pois, como Moisés no Mar Vermelho, o mexicano abria uma fissura no tráfego da cidade, através da qual passava soberano, Senhor das Leis do Trânsito. Mas depois me senti culpado por ter desviado a atenção do objetivo que havia me colocado naquela situação. E olhei para trás, para o meu pai.
Hoje, entretanto, sei que é difícil controlar o que se pensa. A mente flui, mas não como um rio, pois este tem margens e leito.
