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abril 28, 2006

GOOD MORGUE

Kathy:
Good morgue,
Cosmo:
Good morgue!
Don:
We've fucked the whole night through,
Kathy:
Good morgue
Kathy, Don & Cosmo:
Good morgue to you.
Good morgue, good morgue!
Your head looks great on a plate!
Good morgue, good morgue to you.
Cosmo:
When the pipe organ began to play
The son was killin' his dad with a shining blade.
Don:
Now the grim reaper's on his way,
It's too late to say good mornin'.

Postado por Marcelo Rota em 2:35 PM | não há nada além | Comentários (2)

abril 27, 2006

02. I DON'T BELIEVE IN THE SUN

Lembro do Steve Buscemi em Cães de Aluguel ao declarar "I don't believe in tipping". Mas eu também não acreditava. Até me apaixonar por uma garçonete do Outback. Casado, a gente se encontrava, adivinha?, em uma garçonnière. Ali na Urca.

Também achava estranho não acreditar no sol. Na verdade nunca tinha me ocorrido que o sol poderia não existir. Até Ptolomeu acreditava, ainda que tenha errado na posição relativa à Terra. Elaborou para os planetas uma coreografia de epiciclos, dancinha bem louca. Ptolomeu era o Busby Berkeley da Astronomia.

A garçonete me abandonou. A esposa foi embora também. Descobriu a garçonete e a garçonnière. Vendi a garçonnière e passei a acreditar na chuva. Só a chuva existe, uma ontologia feita de gotas. A meteorologia precisa -

Não, nada disso. A verdade é que agora passo o meu tempo assassinando meteorologistas no verão do Rio de Janeiro. Até não restar mais nenhum.

Postado por Marcelo Rota em 10:16 AM | 69LS | Comentários (0)

AS MIDINETTES DO RIO SUL

A elas recorro para aplacar meu

_________


palavra merecedora de uma linha exclusiva, mas tímida como uma lacuna. Mas então: saio de casa e, poucos passos depois, já estou no shopping Rio Sul, carregando o meu ar indolente, a tristeza no fundo das minhas pupilas. Logo aparece a primeira midinette, vestidinho cor-de-rosa que, com uma autoridade policial, coloca-se diante de mim e desfere o golpe que explode no meu rosto. Em seguida, já formaram uma fila maior do que a do caixa-eletrônico de onde as observo e, uma após outra, até aquela com pele de magnólia

o que é estranho, pois estamos no verão do Rio de Janeiro,

projeta o punho, onde resplandece uma pulseirinha com o seu nome gravado, contra o meu nariz. Uma variedade torvelinhante de midinettes, axilas raspadas, perfume, pernas, incontáveis seios, todos aos pares, todos com mamilos no centro, todas me estapeando.

O suficiente para que eu retorne para casa feliz.

Postado por Marcelo Rota em 5:47 AM | antigo blogauti | concupiscíveis | Comentários (0)

abril 26, 2006

DER TOD UND DAS MÄDCHEN

A Ruiva e o Daltônico. Este é um mote tão interessante para uma obra de arte, seja um conto, um filme, um romance ou um quarteto de cordas, e, no entanto, tão pouco explorado. Ao contrário de "A Morte e A Donzela", tema clássico e já praticado exausticamente por artistas das mais diversas disciplinas.

Digo isso porque tenho esta teoria, a de que as ruivas não casam. E isto pela simples razão de que, ocupados em fetichizá-las e em descobrir-lhes a flamejante correspondência cromática, os homens não têm o tempo e a disposição mental para amá-las. Mas aí é que entra a conjunção adversativa:

Mas o daltônico...

Postado por Marcelo Rota em 12:30 PM | antigo blogauti | Comentários (0)

1. ABSOLUTELY CUCKOO / 3. ALL MY LITTLE WORDS

Ás vezes fico com medo de te assustar com all my cuckooness. And then you'll fly away, you, my butterflyaway. Like some clumsy Nabokov I'd run after you trying to catch you with my butterfly net. And I'd stumble over a tree root and plunge into the precipice of my coeur noir. Or, on the best scenario, I catch you. I catch you and pin your beautiful wings, one in each atrium of my cuckoo heart.

Postado por Marcelo Rota em 2:35 AM | 69LS | Comentários (2)

abril 24, 2006

HOMEM COM A MÃO LEVANTADA

Fiquei sabendo que na Índia um sujeito mantém a mão direita erguida há dez anos.

É uma maneira interessante, não de passar o tempo, de pará-lo. Desde que o indiano real seja como o que imagino: parado numa esquina de Calcutá, Bombaim ou Nova Deli, como se tivesse sido congelado no momento em que fazia sinal para um ônibus, ou em que apontava para uma vaca observada, durante uma experiência mística, entre duas nuvens, dez anos atrás. Sim, há problemas logísticos, como o da ingestão e posterior excreção. Talvez exista um auxiliar que a cada dois dias lhe dê o input e recolha o output. Não sei. De qualquer modo, esta foi apenas a versão estática do Homem com a Mão Levantada.

Na dinâmica, contudo, ele é livre para levar uma vida normal, comer em restaurantes, andar de trem e trabalhar, seja em Calcutá, Bombaim ou Nova Deli, numa sofware house, onde seus companheiros nem notam mais a mão perpetuamente erguida.

Postado por Marcelo Rota em 8:00 PM | antigo blogauti | Comentários (0)

CHATO CHATO (E CHATO)

Acho que vou citar alguma coisa. Que tal isso?

I do not care for anything. I do not care to ride, for the exercise is too violent. I do not care to walk, walking is too strenous. I do not care to lie down, for I should either have to remain lying, and I do not care to do that, or I should have to get up again, and I do not care to do that either. Summa summarum: I do not care at all.

Quer dizer, o cara é um chato.


E "chato" é uma palavra que deu a volta semântica ao mundo. Chato primeiro foi achatado como uma panqueca. Chato depois virou os bichinhos da doença venérea, certamente porque eles são achatados. E depois chato virou chato, a pessoa insistente, reclamona, porque ela incomoda como chatos nas zonas pubianas. O chato, me dizem, é um inseto cosmopolita, exatamente como os chatos.

Lamento o arredondado e gravitacional e sinto falta do mundo chato, quando os chatos e loucos de então, atraídos por um magnetismo suicida em direção às bordas da panqueca, caminhavam autômatos rumo ao horizonte. E encontravam o final do mundo chato, o abismo; e aí era só cair. O mundo chato era legal.

Postado por Marcelo Rota em 6:03 AM | não há nada além | Comentários (1)

abril 23, 2006

SDFLSDFGLYH

Hoje sonhei com dois neologismos e um mundo polarizado pelos dois gêneros de pessoa que cada um deles designa. Quando acordei vi que os neologismos eram muito ruins e o sonho, péssima ficção, como, aliás, os sonhos costumam ser. Por isso as histórias nas quais a pessoa abre a janela e observa com ar indiferente uma revoada de orangotangos sem asas, para que não sejam ruins, precisam ser muito, muito boas. O esforço para quem ultrapassa a realidade é maior do que para quem deseja descrevê-la. Ainda que aquele durma e sonhe mais.

Postado por Marcelo Rota em 5:39 AM | notinhas para mimself | Comentários (1)

abril 22, 2006

NIHLO

Certa vez seu pai, a quem não amava por considerar prosaico e sem nenhum espírito, convidou-lhe para a missa dominical. Respondeu que só se fosse segunda-feira, mas segunda ele iria a em si menor de Bach. Em outra, o seu pai morreu e a mãe perguntou se iria ao enterro.

Quando papai estava doente, fiz a promessa de que só iria a um, e somente um, enterro. Como sempre gostei mais de você, mamãe, resolvi economizar.

A mãe também era simples demais e não tinha espírito. Mas, quando chegou a sua vez e a irmã lhe perguntou se iria, disse: “Prometi a papai que só iria a um enterro. Contei isso a mamãe e sugeri com certa ambiguidade que seria o dela. Agora sem nenhuma ambiguidade afirmo que o único será o meu próprio. Como sei que faço tudo para ser detestado, não espero nenhum amigo ou familiar e, desta forma, vou pagar cem mil a cada atriz de Malhação que segurar uma alça do meu caixão. Será o meu Baile da Morte Debutante.”

E assim conduzia a sua vida, sarcástico e cínico. Ganhou muito dinheiro especulando na bolsa e dizia só ter se dado ao trabalho de estudar o assunto porque, infelizmente, precisava de mulheres e estas de dinheiro. Até que um dia conheceu uma mulher por quem se apaixonou -

Brincadeira, nunca conheceu ninguém que lhe despertasse amor ou compaixão. O sujeito era cínico mesmo. E não era do tipo que recebia lições da vida, esta é que freqüentava os seus seminários, como poderia ter dito uma vez. O final verdadeiro é esse aqui:

Até que um dia, depois de ter ficado muito doente, já desenganado pelos médicos, a Vida apareceu em seus delírios febris. Disse que lhe daria uma segunda chance, caso prometesse dedicar o restante dos seus anos a aprender a amar. Respondeu-lhe que não, pois não tinha o hábito de crer em imagens que surgiam em sonhos e delírios, ainda que de vez em quando conversasse com elas. E então Nihlo

não morreu. Viveu ainda mais trinta e sete anos. Suas últimas palavras foram: “minhas últimas palavras são, dois pontos:”.

Postado por Marcelo Rota em 12:01 PM | não há nada além | Comentários (1)

abril 20, 2006

SDFLKSVARGTIDFLSDLMMEN

Eu me sinto tão fora desse mundo que tenho medo de perdê-lo.

Vargtimmen, A Hora do Lobo, que, a acreditar no filme do Bergman, é aquela em que mais pessoas morrem e nascem. Estranho isso, que exista tal hora. Óbvio que não. Não sei. Na verdade nem sei se foi exatamente isso que Max von Sida disse. Só sei que o nome dele não é esse e eu não gostei (muito) do filme e que tudo pouco importa. Mas o que quero dizer é que essas minhas observações mais sombrias são só da Vargtimmen, seja lá o que isso for. Depois passa e a sombra passa.

(Tudo mentira. Desculpa para escrever um post com uma palavra sueca, já que não posso ter uma.

Uma sueca. Sueca. Sueca. Sueca.)

Postado por Marcelo Rota em 4:27 AM | notinhas para mimself | Comentários (2)

abril 18, 2006

SLAKJDASLKDJASFGLKJGFKLJDKLJ

Esta pessoa ama a vida e goza todos os seus átomos, sem exceção. Anda e quer aproveitar cada uma das passadas. E ele as dá curtas para que tenha mais delas entre a origem e o destino. Enquanto está indo não pensa na chegada, na próxima atividade que terá que desempenhar, talvez a do trabalho na linha de montagem. Mas, quando chega, é algo que ele faz com lenta fruição. Entretanto, ele é rápido e funcionário dos mais eficientes, lento é só o prazer do trabalho. Quase não nota, mas já é hora de ir para casa: aprazível o trajeto de volta. Se chove, as gotas sobre o seu rosto tem o mesmo valor de raios solares em um dia frio, e, se faz calor... Sim, exatamente.

Tudo o que ele faz é erótico, a vida é um jardim, esteja ele em um ou não. É suave, justo, preciso, confortável e belo o seu sono. A felicidade de despertar e começar novamente o ciclo do dia é, como todo o resto, prosperidade, apesar de ele ser pobre.

Algo estranho, entretanto, acontecerá no último dia da sua vida, aos oitenta anos, câncer no esôfago, no leito hospitalar. Suas lembranças, não importa se as mais remotas, da infância, ou do dia anterior, o enfermeiro e o banho de pano úmido, todas estas memórias lhe aparecerão igualmente vivas e nítidas na mente.

A vida inteira, oitenta anos, oitenta anos como se tivessem sido um dia. A mosca que viveu vinte e quatro horas teria vivido mais do que eu, caso tivesse tido o pouco de sofrimento que não tive

...não será seu último pensamento apenas porque ele morrerá um pouco antes de formulá-lo e ter o tempo de sofrer com ele. Ah, mas se tiver um minuto, um minuto apenas para doer e latejar com esta idéia, será espetacular. Os auxiliares de enfermagem e os médicos presentes na UTI morrerão por causa da explosão de cogumelo nuclear do seu crânio. Uma bomba de dor.

Postado por Marcelo Rota em 9:24 PM | antigo blogauti | Comentários (0)

abril 17, 2006

EM ARNSTADT

Como todos sabemos, J. S. Bach uma vez caminhou quase duzentos quilômetros, de Arnstadt a Lübeck, apenas para ouvir Buxtehude. E quase perdeu o emprego por conta disso. Reputação é o que falam sobre alguém quando ele não está presente. Elogio é exatamente o contrário, o que falam na presença, exatamente o contrário do que falam na ausência. A maior ausência de todas é a póstuma.

Fôssemos julgar pela reputação que cada um deles possui hoje em dia, Bach deveria ter ficado em casa esperando pela chegada do seu admirador, o organista e compositor Buxtehude. Se a *Posteridade*, encarnada, por exemplo em mim, pudesse telecronotransportar-se para a Arnstadt de então, eu diria a Bach que poupasse a caminhada, melhor o senhor ficar em casa compondo. Mas foi impossível. Não a viagem, mas ter falado com Bach.

Logo que me materializei em Arnstadt senti o corpo pesado. Passei a mão no meu rosto e senti a barba. Arranquei um fio, doeu, era branco e não acordei. Não conseguia andar direito e vai ver foi por isso que percebi na minha mão esquerda um cajado. A primeira coisa que ouvi foi o som maravilhoso do órgão e, apoiando-me no cajado, tentei caminhar até sua origem, a igrejinha que via lá na frente. Um menino ruivo e sardento, dez anos mais ou menos, apareceu e arrancou-me da mão o meu apoio. Caído no chão, recebi os golpes impiedosos da criança que, a cada cajadada que desferiu, gritou: “Anachronismus!”.

Postado por Marcelo Rota em 9:59 AM | antigo blogauti | Comentários (0)

abril 16, 2006

DEDÃO DO MAL

Lobo Mau pega as criancinhas para cantar coisas que elas mal entendem. Creepy clip, Serge.

Postado por Marcelo Rota em 9:25 AM | o colecionador | Comentários (2)

abril 15, 2006

QUEM AMA A VIDA NÃO ENTENDE NADA

Aquele personagem do Georges Perec, "Um Homem que Dorme", desesperadamente indiferente, lendo mecanicamente cada linha, cada palavra da edição do Le Monde do dia anterior. Adoro esse livrinho. Escrito na segunda pessoa, ganhou para mim um tom acusatório que, obediente, logo aceitei.

“É, eu sou assim mesmo, sem húbris, joie de vivre, pathos... E a vida, sem nem mesmo o itálico que serviu de distintivo a estes termos importados, a vida toda é não esta vírgula, cujo anúncio estragou sua discrição e neutralidade, mas uma outra que eu nem cheguei a mencionar, insignificante.”

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Você pensa assim também, eu sei.

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Perec escreveu este livro porque passou por um período de apatia total em sua vida, tentando engolir o universo com um bocejo enquanto coça a barba por fazer. É preciso reconhecer a importância da baba, a que escorre enquanto você dorme no sofá e que, depois de acordar, tenta limpar da almofada. O tédio é uma emoção cardeal. Só quem submerge no seu visgo vive.

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Quem diz que ama a vida não entende nada, absolutamente nada. Ora, o que é a vida senão o que se nos apresenta nas horas mortas em que, deitados, observando a brancura do teto, a teia de aranha em um dos cantos, o pontinho preto, resíduo de uma perna de mosquito morto no ano anterior, sentimos o coração pulsando para nada, em sincronicidade com a barra de inserção do editor de textos?

Eles acham que amam a vida, mas amam a outra coisa: o que colocam no lugar dela,

o movimento, as ocupações, o ruído e as ações,

para esquecer da profunda repulsa que sentem por ela.


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Observe o sorriso do Perec. Exatamente o de quem ama a vida. Não depois de tê-la quase perdido para uma doença ou acidente, nada de draminhas, mas depois do tédio. Porque só depois dele é possível amá-la realmente.

Postado por Marcelo Rota em 5:00 PM | antigo blogauti | pirou no perec | Comentários (4)

abril 14, 2006

4. A CHICKEN WITH ITS HEAD CUT OFF

A gente escreve diferente porque a gente é. Você narra eventos. Eu não consigo falar do que acontece. Em parte porque não acontece nada; também porque, ce sabe, tenho a mania terrível de ficar tão concentrado no que eu penso e sinto que não sobra força para olhar para fora e aí não acontece nada ou, se acontece, não noto ou, se noto, apenas me interessam as marcas e as engrenagens que o acontecimento produziu em mim. É mais ou menos a diferença entre Flaubert e Proust.

***

Os borbotões de sangue de "A Decapitação de São João Batista" por van der Weyden, pintor da escola flamenca. A cabeça do Santo caída no chão, enquanto do pescoço o sangue é esguichado como de uma mangueira do corpo de bombeiros. Galináceos são recordistas em corridas decapitadas. Nós não damos nem um passo. Quem amaria uma pessoa assim, quando nem uma pessoa com vitiligo a gente ama?

Postado por Marcelo Rota em 5:44 PM | 69LS | Comentários (6)

A PSICOLOGIA DA ELEIÇÃO DE ASSENTOS NO TRANSPORTE PÚBLICO

Sou o tipo de pessoa (o tipo mais comum) que fica feliz se, num ônibus com vários lugares disponíveis, a moça resolve sentar ao meu lado. E então fica se perguntando o porquê: qual teria sido o preciso estímulo que a levou a tomar esta decisão? Além disso, o tipo que evita, em um ônibus com diversas opções de bancos, o ao lado da moça mais bonita do ambiente, por achar óbvio demais e que todos certamente pensariam "o espertinho sentou-se com a ruivinha", e a própria ruivinha, consciente do lugar privilegiado que ocupa na scala paradisi:

"Coitado..."

E ainda aquele tipo que não se sente bem escrevendo em qualquer outra que não a primeira pessoa. Talvez por medo de que isto agrave os processos dissociativos de que vem sofrendo.

O ponto de vista narrativo fundamental, ao qual os outros todos podem ser reduzidos, é este. Pois mesmo quando escrevo na terceira sou *eu* que o faço, ou *você* se, no caso, for *você* quem estiver escrevendo. Mas, ora bolas, "você" é só um modo da primeira referir-se a uma segunda pessoa, o que só corrobora a idéia de que esta é a perspectiva originária do discurso.

Ele era o tipo de pessoa que imediatamente sofre um sopro de autoconfiança se a moça que entrou no ônibus escolhe, em detrimento de tantos outros disponíveis, o banco ao seu lado. Ela, também tipicamente, evitava o lugar que mais a atraía do ônibus, ao lado da pessoa mais atraente, a fim de não, pensava, "deixar esse cara metido demais, mais do que já deve ser". Daí ter sentado ao lado dele, figura que julgou mais neutra. E eu tive que me contentar com a visão da sua nuca, que os cabelos amarrados deixavam entrever quando o ônibus sacolejava.

Ou ao menos foi isso o que ele pensou, ao justificar a rejeição de modo a salvaguardar a vaidade.

Postado por Marcelo Rota em 10:12 AM | antigo blogauti | Comentários (1)

DLFGKTKDLASLA

Bem em frente à janela do quarto há um caminhão de mudanças. “Mudanças Raílton - estaduais e interestaduais” e, embaixo, em vermelho esmaecido pelo tempo, o telefone 225-9876. Do tempo em que os números de telefone tinham somente sete algarismos. Um caminhão de mudanças sem rodas, fixo, abandonado. Prova de que até mudanças podem estagnar. Como se o rio do filósofo grego tivesse secado.

Postado por Marcelo Rota em 6:16 AM | antigo blogauti | Comentários (1)

abril 13, 2006

BIOGRAFIA

Às vezes acho, pretensiosamente, que a minha vida mental é como a História, só que numa escala menor. Assim, recém-nascido, devo ter sido um pouco como os hominídeos de quatro milhões de anos atrás. Criança, fui cenário de conflitos sanguinários e sei que alguma parte de mim deixou seu lugar original, em algum recanto da consciência e, como Alexandre Magno saiu da Macedônia para conquistar o Oriente, saiu para descobrir e tomar posse do resto de mim. Morta a criança quando voltava para Babilônia, tornei-me adolescente já no Império Romano, só que, como as analogias são imperfeitas, não tive nem um segundo de Pax Romana e, ao contrário de Roma, não precisei passar por um apo- antes de ter meu hipogeu e ser sitiado por bárbaros. Envelheci durante a Idade Média e, quando Constantinopla caiu, não acreditava mais em Deus, mas ainda cria no Amor. Depois disso, o equivalente às Grandes Descobertas ultra-marítimas dos séculos XV e XVI foram as minhas Grandes Decepções e precisei tentar circunavegar a Terra para entender que nem o Amor existia, ao menos não da maneira como acreditava, redondinho, mas que era achatado feito um panqueca. Eu sei, mas é como disse: as analogias são imperfeitas. E o resto eu conto depois.

Postado por Marcelo Rota em 2:58 AM | antigo blogauti | Comentários (2)

abril 12, 2006

CONCURSO

Não serão admitidas, para entrevista, pessoas com os seguintes problemas:

a) Que se apresentarem com orelhas mal dirigidas (acabanadas) ou com prejuízo da conformação;
b) Que possuam prejuízo da visão uni ou bilateral, cegueira, com opacidade da córnea em qualquer grau (olho branco); perfuração do globo ocular e assimetria (tamanho diferente) dos olhos; albinóide;
c) Cujo lábio inferior seja flácido, grosseiro e pendulado, quando em repouso, ou que se balance, estando em movimento, lábio superior torcido para um dos lados da face ou lábio acentuadamente rasgado nas suas comissuras (cantos);
d) Cujas arcadas dentárias incisivas sejam mal ajustadas (prognatismo). Em qualquer idade, e com qualquer grau de prognatismo mandibular, serão recusadas;
e) Com assimetria da garupa, quer observável na largura, bem como na altura das ancas. Só serão admitidas as pessoas que apresentarem assimetrias muito discretas (sutis), que não cheguem a prejudicar a estética. Elas serão passíveis de prejuízo no julgamento;
f) Com alterações nos órgãos genitais masculinos, ausência de testículos na bolsa escrotal e assimetria (tamanhos diferentes) testicular acentuada;
g)Emboletadas, com edemas e quartelas verticalizadas (fincadas) com assimetrias acentuadas das articulações, interferindo ou não na função, com ferimentos (feridas) crônicos ativos prejudicando a estética;
h) Com unhas pintadas de qualquer cor ou por qualquer material, ou de tamanhos acentuadamente diferentes.

Em caso de dúvida, procure um técnico da ABBPM.

***

Ele foi, mesmo assim, para a entrevista. Depois da recusa, amplificou a voz, reclamou, protestou, fez passeata sozinho, escreveu cartas para os jornais, pediu uma audiência com um deputado, ligou para o jornalismo da Rede Globo e, como todos esses esforços resultassem em vão, iniciou uma greve de fome em frente a sede da ABBPM. Depois de dez dias sem comer, fraco, já com um olhar que refletia a morte, vivendo apenas das últimas reservas de gordura que o intestino processava e expelia em fezes branco-amareladas, liquefeitas, que ele então usava parte para untar o próprio corpo, parte para escrever suas palavras de desespero no vidro da porta da ABBPM,

descobriu que era o *homem invisível*.

Por mais que se expusesse ninguém o notava, absolutamente ninguém, por mais absurdos e ostensivos que fossem seus atos. Tinha carne, sangue, osso, precisava comer e excretar como qualquer ser humano normal, se cortasse os pulsos sangraria até a morte, como qualquer ser humano normal e, no entanto, era um espectro a arrastar ruidosamente pela cidade sua dor que,

entretanto,

ninguém ouvia. Era imperceptível, a não ser para ele próprio. Antes fosse um abantesma também para si mesmo, mas era apenas para os outros, enquanto ele mesmo sentia, vivia e sofria como qualquer outro ser humano normal. Sentiu-se um Crusoé na cidade de vinte e cinco milhões de habitantes.

Postado por Marcelo Rota em 2:46 PM | antigo blogauti | Comentários (1)

DOIS HAMLETS RUSSOS:

Ivanov, da peça homônima de Chekhov, e Oblomov, do romance idem de Goncharov. Mas, como são russos, a sua indecisão é bem mais determinada: dizem NÃO ao ser ou não e pronto. Um com um tiro suicida, o outro com a preguiça.

E a preguiça não é menos trágica, só é mais lenta. Mire no horizonte, dispare em direção ao oeste e espere. Um dia a bala te encontra. Enquanto você está de costas vendo o ocaso do sol no oeste, ela, toda Cristovão Colombo, chega do leste. E Oblomov!

Postado por Marcelo Rota em 9:36 AM | notinhas para mimself | Comentários (0)

SCREENCAP FROM BERGMAN'S MAGIC FLUTE

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NOTINHA PARA MIMSELF:

Se a fisiognomonia fosse uma ciência Bergman seria Lombroso.

Postado por Marcelo Rota em 5:49 AM | o colecionador | Comentários (0)

SENHA

O complemento cósmico desta letra 'o', deste caractere aí entre aspas, é tudo o que não é ele, tendeu? Você, por exemplo, que está me lendo e tudo ao seu redor, que não tenho a menor idéia do que seja, mas pode ser até um orangotango de estimação, pois bem, você e o seu entorno, os objetos que o cercam, participam do complemento cósmico do caractere. Eu também.

Eu, aliás, muito tempo atrás, quanto contava muitos menos anos do que conto hoje, talvez uns dez ou quinze a menos, descobri -

...na verdade eu simplesmente disse a palavra assim por acaso, mais uma de tantas que gostava de inventar nos meus momentos de trabalho, nos de ócio eu fazia coisas mais produtivas. Então: essa palavra era a senha de congelamento do meu complemento cósmico. Tendeu? Ficava tudo parado, menos eu, que andava livremente. Era só proferi-la.

Infelizmente, contudo, só consegui usá-la duas vezes. Na primeira que, como já disse, foi por acaso, fiquei em estado de choque vendo o universo parado e eu girando ao seu redor, enlouqueci e, após uns cinco minutos, desesperado, pronunciei-a novamente e então sem querer desliguei o congelamento do meu complemento cósmico. Ah tá, a gente fala uma e liga, fala de novo e desliga, havia aprendido o mecanismo.

Naquela noite, de insônia vermelha, enquanto me recuperava da perplexidade inicial, já tinha espaço na mente para, com meus novos poderes secretos, maquinar planos de adolescente.

E foi na escola, hora do recreio, que usei o Verbo pela segunda e última vez. Meu interesse era pela Joana, aquela ruiva alta e linda da minha sala. O objetivo, o de verificar certa correspondência cromática. E quando, trêmulo, me abaixava para confirmá-la, o mundo voltou a girar. Na altura dos joelhos de Joana era onde estava o meu nariz que agora sangrava por causa da joanada da própria Joelha, menina pudica e violenta, que fez minha cabeça girar logo depois que o mundo recomeçou. Nunca mais a senha voltaria a funcionar.

Postado por Marcelo Rota em 3:49 AM | antigo blogauti | Comentários (2)

abril 11, 2006

O OLHAR DA MALÍCIA

Do mundo animal, do qual me excluo e a todos os que me sejam similares, como o chimpanzé, mas, como dizia, do mundo animal o olhar mais interessante é o do crocodiliano. O que a barbatana é para os que observam o tubarão, os olhos são para quem vê o crocodiliano. Isto é: Se tiver a sorte de ver antes de ser visto, o que certos antílopes sedentos não têm.

Não é magnífico manter apenas o órgão da visão à flor d´água, enquanto todo o resto fica submerso? Penso logo no periscópio do submarino. E também no olhar do Alex de Laranja Mecânica, aquele de baixo para cima, irisado de loucura. Um perfeito crocolhar, se tivessem me autorizado o neologismo. Como não, é lindamente crocodiliano, ainda que psicótico, o que talvez todos aqueles répteis sejam. Basta inquirir os gnus e eles confirmarão. Pois então: o Kubrick internou o Malcom McDowell em sua mansão durante meses apenas para ensaiar este olhar, o de baixo para cima. Os modelos utilizados para este fim foram, além do dos meus amigos crocodilianos, o de anões arrogantes e o das mulheres enquanto praticam a felação.

Postado por Marcelo Rota em 7:43 PM | antigo blogauti | Comentários (0)

[PIGARRO]

As pessoas hoje gostam muito do “natural”. Abraçam árvores. No entanto, abraçar pilastras seria um pouco menos ridículo. E muito mais humano. Colunas neolíticas, colunas gregas, colunas góticas, enfim, o Princípio da Coluna é um marco na história da arquitetura e símbolo do nosso afastamento da natureza. O humano é artifício e quanto mais humano menos natural. Na garagem ou no pilotis do seu prédio existem pilastras. Vá lá.

***

No livro escolar da minha filha, de história, um elogio aos índios, que “viviam em perfeita harmonia com a natureza”. Por isso que não descobriram a Europa, digo a ela. E você só existe hoje porque os portugueses não viviam em harmonia com a natureza. Eram inquietos e ambiciosos.

***

Eu dependo do meu estado de humor vigente. Eu não, o mundo. O mundo todo é visto através dele. Psicologia é demiurgia. Agora estou me sentindo bem e o mundo, sorridente e convidativo como a mais linda prostituta. Mas ontem eu olhava para ele como a prostituta que se deu conta de ter envelhecido olha para ele.

Postado por Marcelo Rota em 5:09 PM | antigo blogauti | Comentários (3)

RISK FACTORS FOR DENTAL FLUOROSIS IN PEDIATRIC DENTAL PATIENTS

1.
Era a época das cáries, e dos dentifrícios fluoríticos para combatê-las. Tive algumas. Talvez porque comia muita bala juquinha. Foi então que conheci Sheila, a dentista, que tanto me fazia sofrer. Ela tinha uns trinta anos e, como ainda não havia aquelas luvas higiênicas, podia sentir a sua pele na minha boca.

2.
No pátio da escola, jogando futebol, driblei um adversário que então, vencido, deixou o pé na minha frente. Na minha frente eu deveria ter colocado as mãos quando ia caindo, mas nem. Fui de boca no chão. Coloquei o dente no bolso e fui para a enfermaria do colégio. A primeira coisa que perdi na vida, o meu sorriso.

3.
Hoje em dia, o declínio da incidência de cáries na população coincide com o aumento da fluorose dentária. O flúor, herói da Sheila, minha primeira dentista, pode ser perigoso, segundo o Doutor Salgado, que cuida da dentição da minha filha. Ela ainda não sabe disso, mas, quando estiver levando os seus ao dentista, daqui a uns quinze anos, vai descobrir, como eu, a lei que poderia ser formulada assim: o futuro, sobre o qual somos tão ignorantes, tem sempre mais ciência que o presente, que tão bem conhecemos. Mas, se quisermos fazer a inversão, assim: o presente, que a gente conhece tão bem, é sempre mais ignorante que o futuro, que a gente tanto ignora. Ou, de modo mais econômico: o tempo passa. Última variação: refrescância, hálito puro, máxima proteção anticáries e dentes brancos? A vida é mais complicada do que colgate.

Postado por Marcelo Rota em 11:41 AM | antigo blogauti | Comentários (0)

CAROS SIMPARANECROMENOI,

conhecem o Asno de Buridan que, diante de dois montes de feno eqüidistantes e idênticos sob todos os aspectos, morreu de fome. Quero apresentar-lhes, então, a versão contemporânea desta hesitação mórbida: o Hiperasno de Buridan. Ao invés de oscilar diante da identidade, este outro famélico titubeia na diversidade.

Queremos o melhor, mas o cardápio do século XXI desdobra-se, por exemplo, nas n bilhões de páginas que o Google indexa. A Biblioteca do Congresso abriga quarenta milhões de livros, a Terra, seis bilhões de pessoas, cujas crenças são disputadas por mais de dez mil religiões. Sob estas condições, amigos simparanecromenoi, o melhor que possamos conseguir ainda é ruim o bastante para que achemos a fome melhor. Nossa religião é a da Fome, nossa escolha, nenhuma, entre o ser e o nada, ficamos com o tertium non datur. Fome.

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abril 10, 2006

A FELICIDADE ODEIA O TÍMIDO

O tímido ama superfícies polidas, aquelas que refletem a luz que sobre elas incide, permitindo assim que ele, ao olhar para a direita, veja o que esta à esquerda. Não precisa nem ser um espelho tradicional. Melhor mesmo que não seja, pois espelhos refletem demais e têm, portanto, pouca discrição.

Os vidros de janelas no transporte público são ideais. Como os do metrô. No banco da frente, duas mulheres feias lixavam as unhas enquanto falavam sem parar. Coloque-me amarrado a uma cadeira, com pinças repuxando as pálpebras e, diante de mim, uma fileira de mulheres dentuças esculpindo suas unhas, que então eu confessarei tudo. Inclusive, a minha paixão por axilas. E que no metrô, a fim de desviar o olhar das teratoqueratinosas, olhei para a direita e vi, à esquerda, a linda midinette, camiseta preta e sem mangas, que levava as duas mãos atrás da cabeça para ajeitar os cabelos. Foi o que me salvou.

Postado por Marcelo Rota em 6:01 PM | antigo blogauti | Comentários (2)

POST MISÓGINO

Estamos, sei lá, talvez no paleolítico superior e na nossa espécie existe este dimorfismo fundamental, uma assimetria entre os sexos, que faz com que o homem seja em média mais alto, mais forte do que a mulher, fisicamente. Outra diferença importante é que a mulher não aumenta sua capacidade de reprodução com o aumento do número de parceiros. O homem, ao contrário, quanto mais parceiras reprodutivas tiver, maior será a difusão de seus genes mundo afora. O homem foi feito para inocular o maior número possível de fêmeas com seu líquido seminal. Há muita violência, então.

Agora estamos, sei lá, já na história, talvez no mundo hodierno, e o Nietzsche fala que a mulher é este enigma cujo rumo, cuja solução é a prenhez e que para ela o homem é um meio, apenas um instrumento, cujo fim é o filho. E para o homem, o guerreiro para cujo prazer elas foram feitas, a mulher é o brinquedo, um brinquedo perigoso. E há este homem específico de terno e gravata e, onde estariam a boca e os lábios, um espesso bigode. Ele está correndo sofregamente, atrás dele uma horda de mulheres desnudas, todas gostosas. Há este dimorfismo fundamental e as mulheres não foram feitas para a corrida. Ele olha para trás e vê os grandes peitos balançando, grande potencialidade láctea, mas são também o handicap negativo delas para o atletismo. Consegue ampliar a distância. Ele não é gay e, entretanto, foge. É um jovem executivo bem-sucedido. Vê que mais adiante, a uns 100 metros, há um precipício. Continua a correr enquanto vai afrouxando a gravava. Deixa cair a sua pastinha de executivo, tira o paletó. Elas pisam com seus lindos pés afoitos sobre a papelada. De repente, freiam, os peitos, grande potencialidade láctea, ficam imóveis, desolados: ele, o super-homem, voa sobre o abismo.

Postado por Marcelo Rota em 12:53 AM | antigo blogauti | Comentários (2)

abril 8, 2006

NO MAY BEETLES CAN BE HEARD IN THE LIME GROVE

"É só ver as expressões faciais: ainda que sejam em certa medida dependentes do seu suporte físico (tamanho e forma do nariz, dos lábios, cor dos olhos e traços faciais em geral), possuem um espaço de criação que é bem mais amplo do que aquele efetivamente usado pela pessoa no decurso da sua existência. Usamos um estoque de, por exemplo, olhares e sorrisos bem restrito. Você que está me lendo certamente possui uma maneira de sorrir a qual sempre recorre em determinadas situações.

O ator, porém, é um tipo especial de pessoa, aquele que busca explorar todo o espaço da dinâmica muscular da face. Ao contrário do homem comum, que reage automaticamente e sempre com o mesmo modelo de expressão a cada situação, o ator é dono dos seus músculos faciais e é capaz de orientá-los de acordo com a expressão que tenciona produzir. O homem comum tem no seu rosto uma orquestra que é regida pelas situações que lhe são apresentadas na vida; o ator é o maestro, seus músculos faciais a sua orquestra, e para ele não há situações reais, mas apenas as criadas por ele próprio.”

(Julian Drom – “Cantor and Diderot: the mathematics of drama theory”)

Postado por Marcelo Rota em 3:20 PM | antigo blogauti | Comentários (0)

MAR VERMELHO

Já tive a oportunidade de ser carona de ambulância duas vezes. Quem estava atrás nas duas ocasiões era o meu pai. Da segunda delas lembro muito bem: noite de sexta-feira, sob uma chuva caudalosa. E de ter pensado, ao olhar para a expressão do sujeito com cara de mexicano que a pilotava, que dirigir ambulância deve dar uma sensação de poder. Pois, como Moisés no Mar Vermelho, o mexicano abria uma fissura no tráfego da cidade, através da qual passava soberano, Senhor das Leis do Trânsito. Mas depois me senti culpado por ter desviado a atenção do objetivo que havia me colocado naquela situação. E olhei para trás, para o meu pai.

Hoje, entretanto, sei que é difícil controlar o que se pensa. A mente flui, mas não como um rio, pois este tem margens e leito.

Postado por Marcelo Rota em 11:36 AM | antigo blogauti | Comentários (0)

GAVIOTA

I'm a seagull. No, that's wrong.

***

Amo mamãe, sou um jovem escritor, meu pai morreu e ela casou-se com um escritor famoso. Amo mamãe. A plot for a short story. Ela nunca lê o que escrevo. E chupa o pau da Literatura Russa, do Grande Escritor. "Você é a maior esperança da Rússia", ela diz para ele sempre que ameaça abandoná-la. Então ele desiste. Mamãe é uma grande atriz.

***

Nas festinhas literárias lá de casa ninguém me nota. Estou escrevendo um conto sobre isso: meu amor por mamãe e a inveja que sinto do Grande Escritor. No, that's wrong. It's a play. Só eu entendo por que "filho da puta", a ofensa exemplar, é sempre auto-referente. O amante de mamãe é um filho da puta, já lhe disse várias vezes. Mas quem come a minha mãe é ele e o filho, o filho sou eu.

***

"Filho da puta", aprendam, é sempre auto-referente. Dirigir essa ofensa ao inimigo/competidor/objeto de inveja é projetar a raiva de um filho incestuoso contra um padrasto que ele sabe superior. O filho da puta é sempre quem xinga.

Postado por Marcelo Rota em 12:01 AM | notinhas para mimself | Comentários (1)

abril 4, 2006

1. PROJETOS DE VIDA

É ótimo quando se consegue elaborar e executar um que a ultrapasse. Ter filhos, escrever livros, fundar empresas são todos projetos assim - que vão além da, ou ao menos têm a intenção de ir além da expectativa de vida de quem os elabora. Ou você não tem o interesse de que seus filhos, seus livros, sua empresa sobrevivam-lhe? Estes planos são todos afirmativos da vida.

Porém, nem sempre é assim. Alguns têm o desejo de que a sua vida não vá além dos limites do espaço-tempo a que foram circunscritos de um lado pelo berço, de outro, pelo túmulo, que se, aliás, não tiver lápide nem qualquer outro tipo de símbolo ou ornamento, mas só gramíneas, melhor ainda. Pois a opção aqui é pelo não-ser.

Postado por Marcelo Rota em 10:36 PM | pirou no perec | Comentários (0)

2.

Georges Perec morreu cedo e não teve tempo de concluir integralmente seus projetos. Sua ambição era a de percorrer toda a literatura do seu tempo sem jamais ter a sensação de estar retornando sobre seus próprios passos, e escrever tudo o que é possível para um pessoa dos dias de hoje escrever: livros extensos, livros curtos, romances e poemas, dramas, libretti, romances policiais, romances de aventura, romances de ficção-científica, folhetins, livros para crianças... (v. Perec, “Notes sur que je cherche” in Penser/Classer).

Postado por Marcelo Rota em 10:35 PM | pirou no perec | Comentários (0)

3.

O psicanalista diz que o ser humano tem desejo para quinhentos anos, vida para bem menos, porém este cálculo é impreciso. Descartes, que a vontade é infinita. Justamente. E acrescento o seguinte: os meios de que a vontade se serve para seus fins são, além de finitos, miseráveis. Ficam mais ainda quando confrontados com o infinito da própria vontade.

Postado por Marcelo Rota em 10:33 PM | pirou no perec | Comentários (0)

4.

Aos quarenta e poucos Perec morreu, apesar de ainda ter vontade e perícia para muitos livros. Em um dos que teve tempo de acabar, talvez o melhor deles, “A Vida modo de usar”, deixou Bartlebooth, autor de um dos projetos de vida mais interessantes de todos os tempos. Veja:

Postado por Marcelo Rota em 10:32 PM | pirou no perec | Comentários (0)

5. NA TRADUÇÃO DE IVO BARROSO (CIA DAS LETRAS) E...

Imaginemos uma pessoa cuja fortuna seja comparável apenas à indiferença por tudo quanto a fortuna em geral propicia, e cujo desejo fosse, de maneira muito mais arrogante, apreender, descrever, esgotar não a totalidade do mundo – projeto cujo simples enunciado já acarretaria sua ruína – mas determinado fragmento deste; diante da inextricável incoerência do mundo, tratar-se-ia então de cumprir até o fim do programa, restrito, sem dúvida, mas inteiro, intacto, irredutível.

Em outros termos, Bartlebooth resolvera um dia organizar a sua vida em torno de um projeto único, cuja necessidade arbitrária não teria outro fim a não ser ela mesma.

Essa idéia surgiu quando tinha vinte anos. A princípio, era uma idéia vaga, uma pergunta que nascia - que fazer? -, uma resposta que se esboçava - nada . O dinheiro, o poder, a arte, as mulheres, nada interessava a Bartlebooth. Nem a ciência, nem sequer o jogo. Quando muito, gravatas e cavalos ou, se se prefere, imprecisa mas palpitante sob essas ilustrações fúteis (embora alguns milhares de pessoas ordenem suas vidas eficazmente em torno de gravatas e um número ainda maior o façam em torno de cavalos de corrida), certa idéia de perfeição.

Desenvolveu-se nos meses, nos anos que se seguiram, articulando-se em torno de três princípios diretivos:


O primeiro foi de ordem moral: não trataria de um feito, de um recorde, de um pico a escalar, de uma profundidade a atingir. O que Bartlebooth faria não devia ser nem espetacular nem heróico; seria simplesmente, discretamente, a realização de um projeto, difícil, é verdade, mas nada irrealizável, controlado de um extremo ao outro, que, como recompensa, governaria, em todos os seus detalhes, a vida de quem a ele se consagrasse.


O segundo foi de ordem lógica: porque excluía qualquer recorrência ao acaso, a empresa faria o tempo e o espaço funcionar como coordenadas abstratas nas quais se viriam inscrever, com recorrência inelutável, os eventos idênticos que se produzissem inexoravelmente em seu próprio lugar, em sua data certa.


O terceiro, enfim, foi de ordem estética: sendo inútil, sua gratuidade constituindo a garantia única de seu rigor, o projeto destruiria a si próprio à medida que se concretizasse; sua perfeição seria circular: uma sucessão de eventos que, encadeando-se, se anulariam; partindo do nada, Bartlebooth retornaria ao nada, mediante transformações precisas de objetos finitos.


Dessa forma, organizou-se concretamente um programa que poderia, em termos sucintos, ser enunciado assim:

Durante dez anos, de 1925 a 1935, Bartlebooth se iniciaria na arte da aquarela.

Durante vinte anos, de 1935 a 1955, percorreria o mundo, pitando, à razão de uma aquarela a cada quinze dias, quinhentas marinhas do mesmo formato (65 X 50, ou real), as quais representariam portos marítimos. Ao terminar cada uma dessas marinhas, ela seria enviada a um artista especializado (Gaspard Winckler), que a colaria sobre finíssima placa de madeira e a recortaria num puzzle de setecentas e cinqüenta peças.

Durante vinte anos, de 1955 a 1975, Bartlebooth, de volta à França, reconstituiria, na mesma ordem, os puzzles assim preparados, à razão, novamente, de um a cada quinze dias. À medida que os puzzles fossem reorganizados, as marinhas seriam “retexturadas”, de modo que se pudesse descolá-las de seus suportes, transportá-las para os próprios locais onde – vinte anos antes – haviam sido pintadas e ali mergulhá-las numa solução detergente da qual saísse apenas uma folha de papel Whatman, intacta e virgem.


Nenhum traço, assim, haveria de restar dessa operação que, durante cinqüenta anos, mobilizaria inteiramente seu autor.

Postado por Marcelo Rota em 10:30 PM | pirou no perec | Comentários (0)

6. ...NO ORIGINAL

Imaginons un homme dont la fortune n'aurait d'égale que l'indifférence à ce que la fortune permet généralement, et dont le désir serait, beaucoup plus orgueilleusement, de saisir, de décrire, d'épuiser, non la totalité du monde - projet que le seul énoncé suffit à ruiner - mais un fragment constitué de celui-ci : face à l'inextricable incohérence du monde, il s'agirait alors d accomplir jusqu'au bout un programme, restreint sans doute, mais entier, intact, irréductible.

Bartlebooth, en d'autres termes, décida un jour que sa vie toute entière serait organisée autour d un projet unique dont la nécessité arbitraire n'aurait d autre fin qu'elle même.

Cette idée lui vint alors qu il avait vingt ans. Ce fut d abord une idée vague, une question qui se posait - que faire ? -, une réponse qui s esquissait : rien. L'argent, le pouvoir, l'art, les femmes, n'intéressaient pas Bartlebooth. Ni la science, ni même le jeu. Tout au plus les cravates et les chevaux ou, si l'on préfère, imprécise mais palpitante sous ces illustrations futiles (encore que des milliers de personnes ordonnent efficacement leur vie autours de leur cravates et un nombre bien plus grand encore autour de leurs chevaux du dimanche), une certaine idée de la perfection.

Elle se développa dans les mois, dans les années qui suivirent, s'articulant autour de trois principes directeurs :

Le premier fut d'ordre moral : il ne s agirait pas d'un exploit ou d un record, ni d'un pic à gravir, ni d'un fond à atteindre. Ce que ferait Bartlebooth ne serait ni spectaculaire ni héroïque; ce serait simplement, discrètement, un projet, difficile certes, mais non irréalisable, maîtrisé d'un bout à l autre et qui en retour, gouvernerait, dans tous ces détails, la vie de celui qui s'y consacrerait.

Le second fut d'ordre logique : excluant tout recours au hasard, l'entreprise ferait fonctionner le temps et l espace comme des coordonnées abstraites où viendrait s'inscrire avec une récurrence inéluctable des événements identiques se produisant inexorablement dans leur lieu, à leur date.

Le troisième, enfin, fut d'ordre esthétique : inutile, sa gratuité étant l'unique garantie de sa rigueur, le projet se détruirait lui-même au fur et à mesure qu'il s accomplirait ; sa perfection serait circulaire : une succession d'événements qui, s'enchaînant, s'annuleraient : parti de rien, Bartlebooth reviendrait au rien, à travers des transformations précises d objets finis.

Ainsi s'organisa concrètement un programme que l'on peut énoncer succinctement ainsi :

Pendant dix ans, de 1925 à 1935, Bartlebooth s'initierait à l'art de l'aquarelle.

Pendant vingt ans, de 1935 à 1955, il parcourrait le monde, peignant, à raison d'une aquarelle tous les quinze jours, cinq cents marines de même format (65 x 50, ou raisin) représentant des ports de mer. Chaque fois qu'une de ces marines serait achevée, elle serait envoyée à un artisan spécialisé (Gaspard Winckler) qui la collerait sur une mince plaque de bois et la découperait en un puzzle de sept cent cinquante pièces.

Pendant vingt ans, de 1955 à 1975, Bartlebooth, revenu en France, reconstituerait, dans l'ordre, les puzzles ainsi préparés, à raison, de nouveau, d'un puzzle tous les quinze jours. A mesure que les puzzles seraient réassemblés, les marines seraient « retexturées » de manière à ce qu'on puisse les décoller de leur support, transportées à l endroit même où - vingt ans auparavant - elles avaient été peintes, et plongées dans une solution détersive d'où ne ressortirait qu'une feuille de papier Whatman, intacte et vierge.

Aucune trace, ainsi, ne resterait de cette opération qui aurait, pendant cinquante ans, entièrement mobilisé son auteur.

Postado por Marcelo Rota em 10:29 PM | pirou no perec | Comentários (0)

7.

Perec morreu em 1982, quando eu tinha nove anos. Nove anos mais tarde eu leria pela primeira vez “A vida modo de usar”, ficando siderado pelo Programa de Bartlebooth. A minha fantasia idiota é que os grandes escritores mortos ainda estão vivos o suficiente em algum lugar, em algum tempo, para, com poderes se não de oni-, ao menos de superciência, observar as reações de alguns leitores póstumos. Sim, talvez passem a eternidade a ler rostos de pessoas enquanto elas lêem seus livros. O Paraíso, se existisse, deveria reservar um lugar para o exercício da mais radical das vaidades, a autoral.

Postado por Marcelo Rota em 10:27 PM | pirou no perec | Comentários (0)

8.

O ser humano tem desejo não para os setenta ou oitenta anos que espera viver, tampouco para os quatro séculos seguintes ao da sua morte. Há suficiente para a eternidade. Mas não há paraíso e nenhum escritor francês invisível e imortal olha para mim neste momento.

Quero saber, portanto, o que faz com que as pessoas, ao invés de glorificarem o nada como a personagem de Perec, concentrem, como Perec ao criar tal personagem e as centenas de histórias que a orbitam em “La vie mode d’emploi”, os esforços de uma vida inteira para a produção de obras cujos efeitos jamais poderão observar ou vivenciar já que estão para além de si mesmos e da sua vida.

Por que o ser e não antes o nada?

Postado por Marcelo Rota em 10:26 PM | pirou no perec | Comentários (0)

9. A MA_

Pianista. Mas, além disso, um homem que carregava desde a adolescência uma obsessão. Não com a morte: com a reação dos amigos e parentes ao saberem da sua.

A oportunidade surgiu quando a sua mãe morreu. A secretária do departamento de música havia terminado de digitar o email em que era comunicado “o falecimento da mãe do pianista e professor Jonas Lesch”. O email informava a hora e do local do velório, sem mencionar contudo o nome da morta. Pensou em advertir a secretária a respeito disso, mas, enquanto esperava por ela, uma idéia mais forte tomou conta do seu espaço mental.

Com a metonímia resultante da troca do e pelo o, substituiu a morte da mãe pela sua.

Postado por Marcelo Rota em 10:15 PM | pirou no perec | Comentários (0)

ERLERGEVKV

Lejos quedaron los tiempos en que un amante como Napoleón podía escribirle a Josefina: "Estaré allí en tres días, por favor no te laves.....". Para las odorófobas sociedades contemporáneas los efluvios estimulantes de la vida amorosa ya no provienen del cuerpo sino de los laboratorios de las empresas multinacionales de cosméticos. Durante el siglo XX una de las esferas más reveladoras del proceso de civilización fue la obsesión por suprimir los olores corporales asociados a la animalidad. En esta empresa el desodorante desempeñó un rol fundamental: fabricado por primera vez a fines del siglo pasado en los Estados Unidos en base a una mezcla de sulfato de potasio y aluminio, tras la segunda guerra mundial su uso se general)zó prácticamente en todos los países occidentales hasta abarcar una gama de variedades que parece no tener fin: desodorantes para las axilas, para los pies, para la higiene íntima, para el aliento, para desinfectar y aromatizar el aire, para la ropa, para el cabello, para borrar los efluvios del cigarrillo y del animal doméstico.

Imagino as pioneiras na arte das axilas imberbes. E os homens que primeiro viram esta nova nudez. Minha ignorância histórica deste fenômeno é total. Mas será que foi algum nobre do século XIX? Imagine o seu encantamento diante da Primeira Depilada. É para lamber?, perguntou. Mais tarde contaria aos amigos. E a nova técnica difundiu-se com rapidez por todo o mundo civilizado.

***

A Lucélia Santos, uma mulher do medievo. Além daquelas axilas, acredita em duendes.

Postado por Marcelo Rota em 6:53 PM | concupiscíveis | Comentários (0)

abril 2, 2006

O INDIVÍDUO

Finalmente encontrei um blog digno dos Diapsalmata.

Postado por Marcelo Rota em 2:29 PM | Comentários (0)