« abril 2005 | Principal | junho 2005 »
maio 31, 2005
IVES, CHARLES IVES
decidiu ficar rico apenas para poder ter mais liberdade para compor. Sabia que não conseguiria sustentar sua família com dissonâncias. Melhor sustentar as dissonâncias com uma companhia de seguros, a Ives & Co., que logo se tornaria a maior do país.
***
Compositor de The Unanswered Question, como se houvesse uma respondida a não ser a do telefone. Este, aliás, ocasionalmente não respondo, ou então vou lá na chavezinha do ´ringer´ e coloco-a em ´off´-
***
Ives, Charles, certa vez, aos quarenta e tantos, já rico por causa da sua companhia de seguros, desceu as escadarias do sótão e, lágrimas pela barba, disse para a esposa com uma inflexão de "incêndio no sótão": "não consigo mais escrever música".
***
Oates, Luke Oates, inglês, fraudou o fisco britânico em 38 milhões de libras. Descobriu Wittgenstein no presídio da rainha. Poderia ter reduzido a sua pena em alguns anos se tivesse concordado em devolver todo o dinheiro desviado. Não, melhor passar mais tempo nos aposentos da rainha do que sair mais cedo, pobre e sem ter terminado de ler todo o vienense.
Quando saiu, aos cinquenta e cinco, foi para um fjord norueguês escrever. Trinta anos depois morreria. Jamais gastou um centavo do dinheiro. Seu legado, o romance "The Great National Temperance", criptografa em suas mil setecentas e cinquenta e cinco páginas o mapa do tesouro.
Postado por Marcelo Rota em 12:14 AM | Comentários (1)
maio 29, 2005
A HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA DAS PULGAS E FORMIGAS
O gato da casa trouxe pulgas para nós. E uma delas, pretinha e gordinha, surgiu sobre a página do livro que eu tentava ler. Bem em “repinicados”, onde minha unha aterrissou na tentativa fracassada de dar conta da pretinha. Neste momento ela, sorridente, já estava em “bosque”. Desta vez fui com mais calma, queria emboscá-la como uma leopardo faria com uma gazela, mas a minha unha não é tão sorrateira como um e a pretinha é mais alerta do que uma. Lépida, saltou do livro para perder-se da minha vista no infinito do quarto.
Como vocês sabem, livros são objetos supervalorizados, na verdade, não servem lá para muita coisa. Em geral são chatos como este que continuei lendo depois do episódio da pulga. Até que, finalmente, fui outra vez interrompido por um habitante dos escalões inferiores da litosfera. Uma formiga. Fiquei então observando a beleza irregular do seu traçado sobre a página. “Maçada”, “glóbulos”, “cinzento”, “pele”, “túnel”, “troçava”, algo por aí. Mas lembro claramente que “Bexiguentos” foi por onde ela saiu do livro.
O resto da noite foi perdido na empresa de encontrar, testando diversas combinações possíveis, a sequencia das palavras da pulga e da formiga que exprimisse algum oráculo.
Postado por Marcelo Rota em 3:51 PM | pulgas | Comentários (2)
maio 28, 2005
POEMA DO POETA CONCRETO NEOFRUSTRADO
Já sonhou com o Jabuti?
Eu já.
But I
lost it.
Postado por Marcelo Rota em 5:41 PM | Comentários (1)
maio 27, 2005
VIVA O QUE É BOM

Postado por Marcelo Rota em 9:43 AM | Comentários (1)
maio 25, 2005
O HOMEM QUE MATOU JÔ SOARES
Inacreditável o número de pessoas, peçonhas de respeito, amigos meus, como o _______ e até o _________, que fantasiam entrevistas para o Jô. Picturializam-se de pernas cruzadas na poltrona do Jô, que horror. E ensaiam as respostas, as piadas e os gestos. Alguns não confessam, mas estes também. Você também. Eu também, só que ao contrário de você, exatamente porque sei que fantasio e que a fantasia é de pedestre e universal, jamais concederia.
Postado por Marcelo Rota em 7:55 AM | Comentários (8)
maio 24, 2005
ALCATRÃO, NICOTINA E MONÓXIDO DE CARBONO
threesome que se diverte nas alcovas dos meus alvéolos pulmonares. Fazem até algemas chinesas. Nicotina é uma moça pneumática, segundo o Monóxido de Carbono, e safada, como diz o Alcatrão.
***
Sério agora. Algúem em algum lugar tem uma namorada chamada Tina. "Nicotina", diz ele, lúbrico, no ouvido dela. Talvez ele até seja muçulmano e se chame Al Catrão e diga essas coisas no catre das mil e uma noites, enquanto o Monóxido de Carbono, eunuco nu, declama o Alcorão.
***
Mais sério ainda. Jean Nicot (c1530-1600), embaixador da França em Portugal, compilou um dos primeiros dicionários da língua francesa, Thresor de la langue françoyse tant ancienne que moderne. Mas nele não estava "nicotina". Ou melhor, "nicotine". Irônico, não? Afinal, foi ele quem introduziu o tabaco na corte francesa. E as primeiras sementes que recebeu enviou para a sua amante, a rainha Albertina de Médicis, ou melhor, Albertine.
Tiveram um bastardo, o químico de Lassone, primeiro a produzir monóxido de carbono em laboratório. Convertido ao islamismo, xkjhasjkdhaskdjashdkjashda
Postado por Marcelo Rota em 9:11 AM | Comentários (0)
maio 19, 2005
DOS MEUS CADERNOS DE ESTÉTICA
Não existe essa de se identificar com o livro ou seja lá o que for. Quando falam isso pra mim imagino logo um maneta, duplamente maneteado, batendo palmas pra Vênus de Milo.
Postado por Marcelo Rota em 11:44 AM | Comentários (2)
maio 18, 2005
QUEM FOI O BARATA RIBEIRO?
Figueiredo Magalhães, antes de começar na avenida Atlântica e terminar na praça Vereador Rocha Leão, foi médico. Costumava recomendar aos seus pacientes o ar puro de Copacabana. Claro, antes disso ele já tinha comprado umas terras no areal de Copa. Tinha uma chácara-clínica na área e para facilitar o trânsito dos pacientes fundou uma linha de diligências até a Rua Figueiredo Magalhães.
Atravesso-a todos os dias. Em um deles uma mulher foi atropelada por um motoboy. Ansioso, gosto de apostar comigo mesmo quantos carros passarão antes que o sinal feche novavemente. Pode testar, entre o verde e o vermelho passam em média 80 veículos, entre carros, caminhões, ônibus, motoboys e outras armas de atropelamento em fúria. Speed Stream, como o nome do meu modem. Um publicitário propõs este mesmo nome para o produto que viria a se chamar Sempre Livre. Hoje este publicitário é poeta e mora em uma quitinete na rua que na época do médico Figueiredo Magalhães viria a se chamar Figueiredo Magalhães.
Fama, quero gozá-la póstuma e pedestre, calcado diariamente, travessa Marcelo Rota. A imoralidade do Figueiredo Magalhães não foi ter especulado com os areais de Copacabana, mas, por conta disso, ter ficado rico e famoso ainda em vida. Quando se sabe que a ética da celebridade é a da necrofilia, uma autonecrofilia, se quisermos ser mais precisos. Um cadáver onanista, se quisermos ser ainda mais. Só pode gozar depois de morto, se quiser explicação adicional.
Postado por Marcelo Rota em 2:42 AM | Comentários (5)
maio 15, 2005
SDLFSFLSDFLSDFSDL
No caminho para a bienal, no ônibus cheio, uma mulher lia Foucault em pé. E ainda sublinhava e compunha uma marginália. Stupid tricks.
Postado por Marcelo Rota em 8:48 PM | Comentários (7)
maio 13, 2005
AH, MAS HÁ UMAS PALAVRAS
que mereceriam uma escavação arqueológica (quase escrevi "resgatadas", mas essa é outra para o Index). Elas então seriam reinseridas violentamente na boca banguela do povo.
Por exemplo, "Bossa" e "Escafandro" no sentido em que ocorrem em letras do Noel Rosa.
Cantarolando - Perguntei ao escafandro se a alma do malandro era tão profunda quanto o oceano.
id. - Não há quem possa me fazer perder a bossa da saudade do meu barracão.
"Saloia" também é bacana. Junto com "gaiato" e "algibeira". E ainda com "com fumaças de" seria o ideal.
Orestes, com fumaças de gaiato, ao ver Virgínia, moça saloia e bonitona, sacou da algibeira a caixinha de rapé. Deu um espirro e aproximou-se.
Sim, um mundo sem dicotomias e a irreverência da galera do Casseta e Planeta, mas com morenas saloias, muito rapé e algibeira e onde as pessoas na hora da ofensa proferissem:
"Grandessíssimo!"
(sem o dizer o resto) é o mundo que proponho com meu fiat.
Um fiat que não é o do Gênesis, nem o lux com 40 fósforos, nem o pálio, porque não tenho carro. Entretanto, vi que tudo isso seria bom.
E nem vou dizer que gosto daquela música do Dorival Caymmi na qual ele pede que "a moreninha da sandália de pompom grená" requebre. Porque, se ela requebrar, ganhará um doce.
E meirinhos, claro, onde estão os meirinhos? Quero conhecer um meirinho pachorrento. E socratizar (belo eufemismo) a mulata do balaio grande. Cof cof.
Postado por Marcelo Rota em 10:04 AM | Comentários (2)
maio 12, 2005
INDEX VERBORUM PROHIBITORUM
Iconoclasta
Carnavalização
Pertinente
Fugaz
Subversão
Lúdico
Transgressor
Epifania
Imbuído
Alavancar
Interagir
Maldito
Acessar
Multifacetado
Caos
Dicotomia
Atualizei-o com dicotomia, apesar de gostar de palavras com o elemento de composição "tomo". Lobotomia e átomo, por exemplo. Entre parêntesis, "tricotomia" e outros excessos também vão para o lixão dos dicionários; enfim, qualquer n-cotomia está excluída, ou melhor, incluída no Index.
Postado por Marcelo Rota em 12:45 AM | Comentários (9)
maio 10, 2005
O CORPO MOLE DO NEGÃO (PARA RAFAELA)
Ela tinha a certeza inconsciente de que todos os cadáveres eram eunucos. Ao entrar pela primeira vez no laboratório de anatomia, ainda não conhecia nem o dos vivos. Usava óculos a gordinha e seu sorriso era odontológico. Então sua atenção foi logo aprisionada pelo corpo mole, exatamente como a do homem que passa pela banca de jornal pelas revistas masculinas. "O cadáver não foi preparado direito", desculpou-se o professor para explicar o odor da secreção escrotal que, amarelada, quase se sobrepunha ao do formol.
Era um crioulo monumental que, se vivo, diríamos salubérrimo e custa mesmo a crer que tenha morrido. Quando o professor enluvado segurou o corpo mole, as calouras deram gritinhos e aplaudiram. Os calouros mudos olharam para elas, fetichizados. Apenas ela, fascinada pelo hipnotista, não reagiu. Virou uma estátua de ébano, símbolo da medicina da UNILAGOS.
Nota: Na verdade este post é para o Rafael, responsável pela consultoria técnica. Mas eu não ia dedicar um post que fala de falos mortos para um homem. Daí o "a" no final.
Postado por Marcelo Rota em 2:57 PM | Comentários (2)
A MANIA DE BOSTAR AO ACORDAR VIRA REDAÇÃO ESCOLAR
"Hoje eu quero que vocês escrevam uma redação com no mínimo x linhas sobre os seus avós".
Meu avô tinha um radinho de pilha vermelho e pesado como um tijolo no qual ouvia os jogos do Fluminense. Ele acordava agnosticamente as dez da manhã. Então até a meia-hora seguinte o banheiro era dele.
Uma vez fui morar com meu avô e levei meu computador, um 386 qualquer coisa com modem e BBS, o que multiplicou a conta telefônica do velhinho pelo número de Avogrado. Quando abria a porta do meu quarto era como o hominídeo que abre a portinhola da máquina do tempo na qual entrou sem querer. Até a barra de inserção do editor de textos a piscar fascinava.
Gosto de velhinhos assim, viajantes do tempo, do qual se aposentam quando se aposentam. Sentado na cadeira de balanço (que, na verdade, era uma poltrona) ao lado da janela viajava, não no tempo, o tempo é que viajava pela janela enquanto ele dava tchauzinho, feliz.
O que estraga os velhinhos de hoje é a terceira idade, os cursos para a terceira idade, os bailes para a terceira idade, o sexo na terceira idade, excursões a Petrópolis e a Ouro Preto, aulas de informática. Professora, não se fazem mais velhinhos como antigamente.
Postado por Marcelo Rota em 10:46 AM | Comentários (3)
maio 8, 2005
ASKDASKDASDKASDK
Mozart esqueceu de falar do pescoção da Vênus de Botticelli. Aliás, deve ser bacana dar um pescoção na torcicolada de Botticelli. E, sem dúvida, aquele braço está fraturado. Mesmo assim, I'd hit her, pois ela se parece com todas as mulheres que não olham pra mim.
***
Outro dia estive no subúrbio. A vantagem das suburbanas é que elas olham pra você, exatamente o contrário da Garotadeipanema De Moraes e da Vênus de Cicarelli.
Muitas colegiais nelsonrodrigueanas. Ao descer do ônibus, três delas. Entretanto, um paraíba do transporte pirata carioca, a porta delizável da kombi aberta, antecipou-se: "Três mulheres elegantes, minha mulher, minha puta e minha amante." "Qual das três usa calcinha preta?", concluiu. Elas continuaram, eu atrás, rumando para a entrada do Norte Shopping. E assim pude ouvir a repercussão da cantada do paraíba: risinhos e comentários como "Hoje estou com a rosinha, mas ontem estava com a preta". Já estavam longe da kombi, o paraíba não podia mais escutá-las. Eu tive o privilégio auditivo.
***
O subúrbio é o lugar onde a segunda lei da termodinâmica fica mais evidente, a não ser pelas colegiais, ilhas de ordem no oceano entropiado.
Postado por Marcelo Rota em 3:13 AM | Comentários (2)
maio 4, 2005
E SE O CCDB FOR UM GÊNIO?
Hein? Com que cara você vai ficar?
Porque é verdade que em alguma granja de alguma galáxia reunem-se hebdomadariamente a Tríade de Galináceos. O Gênio não é coisa arbitrária, relativa ou deliberada pelas vozes da crítica literária do presente ou do porvir. O Gênio é carimbado pelos supercérebros galináceos, um por semana. E quando a gente morre e vai para o Éter fica sabendo quem foi e quem não foi. Proust e Soares Silva, por exemplo, podem não ser. Com que cara você vai ficar quando seu queixo cair para o pé quando morto souber que CCDB foi, é e sempre será Gênio?
Postado por Marcelo Rota em 11:22 AM | Comentários (13)