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abril 28, 2005
TRAIN BUFFS DOING TRAINWATCHING WATCH TRAINED MONKEYS WATCHING TV WHILE TYPING DESPERATELY ON A REMINGTON 1874
Mas quando peripateteava pela Floresta Negra, não me falharam (as pernas). Falam da perfeição da natureza. De como a natureza é uma grande máquina. Comparam-na com um relógio suíço. Se encontro um rolex enquanto caminho pela Floresta Negra, não vou supor que o rolex esteve ali desde sempre. Vou inferir um relojoeiro para o relógio e ainda um portador do rolex, um wanderer que, por displicência -
ou melhor, por causa do susto que levou ao ver um filósofo imberbe surgir entre as folhagens do caminho, largou-o ali, para distrair a criatura enquanto saía em disparada rumo a Heidelberg. E para as árvores e toda a complexidade do mundo natural vou pressupor um desígnio e uma inteligência proporcionais ao do suíço. Como o relógio, aquilo tudo não pode ter existido desde sempre. Ergo, Deus.
Mentira, tudo mentira, nunca estive na Floresta Negra. Só na da Tijuca. O rolex, como a natureza, é paraguaio. Há o efeito estufa. Nem o corpo humano é perfeito. Há o câncer. E Darwin morreu em decorrência da Doença de Chagas, mal adquirido quando esteve no Brasil, maravilhado pela fauna e flora locais. Ecologistas suíços e relojoeiros paraguaios, um aviso: a natureza mata e morre.
Postado por Marcelo Rota em 11:05 PM | Comentários (2)
TRAINSURFING
Os jornais tem a obsessão das mortes em massa. Ao que parece o número de corte é 30 no caso de acidentes ferroviários. Aquém destes números os cadáveres não contam para uma manchete. Sim, há uma variável geopolítica também. Se uma velhinha tivesse morrido no metrô de NY depois de uma freada brusca ela seria mancheteada. Normal.
Os meios de transporte. Não usamos mais a Remington 1884 para datilografar. Nem o 14-bis para voar. Mas ainda usamos as pernas para ir e vir. Uma vez as minhas falharam em um shopping center. "Drop attack", disse a neurologista. No meu Planeta Diário mental: "Marcelo Rota sofre um drop attack." Desde então nunca mais caí. Porém, agora confio mais em trens cingaleses do que nas minhas pernas. E ainda surfarei vagões que saem da Central do Brasil. Eu e o Waltinho, um neguinho do morro do pavãozinho.
Postado por Marcelo Rota em 11:35 AM | Comentários (0)
abril 27, 2005
TRAINSPOTTING
"Acidente de trem mata ao menos 50 no Sri Lanka", diz a manchete de hoje. O Sri Lanka, o que pode me interessar no Sri Lanka, o país que abriga Arthur C. Clarke e que sugere um trocadilho masturbatório e um outro crustáceo? Talvez eu tenha que sofrer porque algo perto de meia centena de meus fellows human beings morreram. Se fosse o trem da Central do Brasil poderia ficar mais preocupado. Seriam ao menos cinquenta brasileiros. "Brasileiros" é mais próximo. Nunca, entretanto, nem mesmo surfei sobre um dos vagões da Central do Brasil. Quanto ao país que abriga Arthur C. Clarke e sugere drogadilho masturbatório, ignoro até mesmo o gentílico.
Postado por Marcelo Rota em 8:54 AM | Comentários (8)
abril 18, 2005
NINGUÉM ESCREVE SOBRE FUTEBOL COMO O NR ESCREVIA
Amigos, a humildade acaba aqui. Desde ontem, o Fluminense é o novo campeão da cidade.Todos os tricolores, vivos ou mortos, ainda estão sob os efeitos da ressaca emocional de domingo. Tivéssemos ainda o costume do chapéu, teríamos que tirá-lo seguidamente, em sentida e obrigatória reverência. A única obrigação, no entanto, é a de sentar no meio fio e chorar, com o sentimento do triunfo. Durante a semana, insisti que a vitória estava escrita há seis mil anos. E o Fluminense foi humilhado, crivado de piadas. Houve conhecidos que fizeram o vaticínio: - "domingo, será a cidade contra o Fluminense". De fato, ontem o Tricolor enfrentou o adversário e o ressentimento dos incrédulos. Parecia uma imagem do próprio García Lorca: - a do Profeta carregado na bandeja e de maçã na boca como um leitão assado.
Preciso, ainda, contar o dramático lance do terceiro gol tricolor. Disse dramático e já corrijo: - dramático e shakesperiano. É de um óbvio mais que ululante que foi outro gol inexplicável. Quando a bola de Antonio Carlos entrou, a neve secular dos Andes derreteu. As zebras do jardim zoológico relincharam, e as luzes do Louvre se apagaram. Acaso encontrasse um cubano, perguntaria se aquele canhão na entrada da baía começou a soltar tiros medonhos. E ninguém viu, porque ninguém enxerga o óbvio, que estava ali o Sobrenatural de Almeida.
Vamos raciocinar: - quem é o personagem do título? Eu poderia falar do Papa. O Santo Homem foi, certamente, um dos responsáveis. Abençoou, na morte, o escrete tricolor. Ou poderia ser todo time do Fluminense, do massagista à comissão técnica. Cada jogador foi um centauro bêbado, uma bastilha inexpugnável. E o suor que pingava era o suor viscoso e elástico dos cavalos puro-sangue. É um time de Werthers apaixonados. Mas o personagem da conquista é, obviamente, a multidão pó de arroz. Amigos, não gosto da multidão. Ou melhor: - não desgosto. Multidão, via de regra, não tem cara. Mas a de ontem foi especial, foi única. No estádio, espiei aquela gente toda. Pela primeira vez, vi uma multidão parecida com um ser humano e repito: - era uma multidão terna, generosa, dionisíaca. E estava toda contra o salubérrimo e jucundo ressentimento, toda ela contra o sentimento da impotência e da frustração. Diante da platéia colossal, o Fluminense fez uma dessas partidas imortais. Dessas que daqui a duzentos anos a cidade vai lembrar: - "ah, aquele jogo...".
Na saída, uma torcedora me pegou pelo braço e pediu: - "Nelson, escreve sobre a luz!" Então cumpro, aqui, a minha grave função homérica: - a luz que vinha do Mário Filho não era dos refletores, mas dos olhos da multidão. Toda ela vazava luz. Ah, ontem foi também o grande dia do estádio Mário Filho. Eu teria muito o que contar do maravilhoso domingo. Vi tanta gente que não vai nunca ao Maracanã, ou pasmem: - vai apenas nos grandes dias. Nas ruas, de olho rútilo e lábio trêmulo, cada idiota da objetividade brilhava ardentemente de arrependimento. Cada lorpa, cada pascácio da cidade, que geralmente nada vê além dos fatos, segurava os passantes pelo braço, gritando bovinamente: - "Eu não acreditei! Eu não acreditei!" E o Profeta, à sombra das chuteiras
imortais, repete, até agora: - Fluminense. Fluminense. Fluminense.
Postado por Marcelo Rota em 2:11 PM | Comentários (9)
abril 17, 2005
OLIVIA OU
Postado por Marcelo Rota em 10:57 PM | Comentários (3)
CONTEI QUE ENCONTREI
El Tom? Jerry, preciso te contar: ele é um gato. Tem até um bigodinho espiritual. Cara bacanudo. Comprei sua amizade com uns livros do Lem. Provei-lhe também por alfa + ômega que eu não sou o Liberino, o sujeito da foto abaixo.
O Liberino, aliás, vem me assediando desde a publicação da foto. Quer marcar uma porradaria de gang, estilo anos oitenta, como no clipe Beat It (aquele do cara que jamais será contratado como baby sitter). Não tenho canivete, mas tesourinha de unha possuo. Levarei. Elton já confirmou presença do nosso lado com suas garras de Hesperio. Pouso em off Comunicação também, do outro, ficará responsável pelo solo de guitarra Eddie van Halen. E sei lá quem mais. Será um massacre.
Cais Pharoux, terça próxima, 0200 AM
Postado por Marcelo Rota em 1:48 PM | Comentários (3)
PULEX IRRITANS
Pulgas, os principais agentes transmissores da Morte Negra, aquela doença epopeica que deletou um quarto das vidas do mapa da Europa; também aquele sujeito alto, capa negra cara branca sob capuz, aka Deep Black, que derrotou Kasparov von Sida em um filme do Bergman em 1350. Von Sida em seguida morreu de Aids.
Então era um mundo cheio de pulgas letais, armas de destruição em massa espontâneas. Dinossauros sobre a litosfera. Ó, os seres humanos, como são nanos!
Postado por Marcelo Rota em 12:11 PM | pulgas | Comentários (0)
AS GORDINHAS ERAM AS MELHORES
Morávamos com um basset hound. Tivemos que dar o cão. Como legado, ficaram suas pulgas. Enquanto estava conosco elas não nos incomodavam, mas agora, na falta do hospedeiro, resolveram migrar para nós, humanos que habitamos este apartamento. Pulex irritans.
A convivência no início era boa. Divertia-me fazendo-as estalarem sob a unha do meu indicador. As gordinhas eram as melhores: nutridas pelo meu próprio sangue, devolviam-me parte dele quando as estourava com a unha. Era quase tão divertido quanto brincar de plástico bolha. Pulex irritans: detetizei.
17/08/2001 03:28
Postado por Marcelo Rota em 3:58 AM | pulgas | Comentários (4)
MÚSICA (PARA ADRIAN)
A que eu e minhas pulgas adoramos é “the groove room suite” do pizzicato five. As luzes do quarto apagadas, elas se transformam em pirilampos saltitantes, não, em meteoros de borracha que, luminescentes, ricocheteiam nas paredes. Não sei. Só sei que nessas horas a gente se diverte com o pizzicato e até acha que entende as letras.
21/08/2001 16:54
Postado por Marcelo Rota em 3:51 AM | pulgas | Comentários (0)
abril 14, 2005
ASDKASKDASKDAS

Maradona é legal.
***
I don't understand why we must do things in this world, why we
must have friends and aspirations, hopes and dreams. Wouldn't
it be better to retreat to a faraway corner of the world, where all
its noise and complications would be heard no more? Then we
could renounce culture and ambitions; we would lose everything and gain nothing; for what is there to be gained from this
world?
Cioran também. Apesar de ser uma reclamão, o maior lamentoso da história. É a hiena do desenho animado. Pare de choramingar, homem! Faça alguma coisa!
Ah, mas ele fez: choramingou, lamentou, o que já é produtividade suficiente para quem achava que não há nada de profícuo no mundo. Até a miséria e o desespero podem ser generosos e férteis, tão estranhas as coisas são. É possível até que alguém tenha desistido do suicídio depois de ler Cioran. Assim como muitas moças tiraram a própria vida
É própria mesmo ou é de Deus?
O fato é que tiraram depois da leitura do Werther de Goethe. Alguém também deve ter feito o mesmo depois de ler o Tio Oram. Uma senhora morreu de rir com O Capote de Gogol. Maradona leu Marx?
Postado por Marcelo Rota em 4:56 AM | Comentários (0)
abril 11, 2005
HOMEM, MATEI UM ONTEM, SEGUNDA PARTE
Estava de saída quando notei a necessidade de fazer xixi. Por causa disso, cheguei cinco minutos depois de ter passado a van lotada a não ser por um assento. Ele, cinco minutos mais cedo do que eu, ocupou-o. Falam que morreu por causa de um traumatismo crânio-encefálico depois da van ter capotado na ponte Rio-Niterói. Mas eu, se tivesse tomado conhecimento da história, teria dito que morreu de urina.
Postado por Marcelo Rota em 11:47 AM | Comentários (0)
abril 10, 2005
SLDKJSDLKASJDASKLDJ

Postado por Marcelo Rota em 1:19 AM | Comentários (8)
ASLDASDKASDKASD
Life licks and sucks. A vida é um blowjob com aparelho odondológico.
Postado por Marcelo Rota em 12:22 AM | Comentários (1)
ASKDASDKASDKASDKA
Homem matei um ontem. Foi assim: joguei uma lata de coca-cola quase cheia na lixeira da praça. Quatro horas depois dois mendigos disputavam a lata. Um deles perdeu, esfaqueado pelo outro, dez anos mais novo. Eu nem fiquei sabendo.
Postado por Marcelo Rota em 12:11 AM | Comentários (3)
abril 9, 2005
A MINHA PROPAGANDA DE CIGARRO
Eu fumo como um soldado francês, Primeira Guerra, da frente de Somme sob chuva, peraí
A chuva jamais pode ser torrencial. Mais uma daquelas duplas de palavras magnéticas, atraídas pelo uso.
O soldado francês, cujas botas tirou de um cadáver alemão, caminha através da trincheira enlameada. Então pára e tenta acender o cigarro em uma lamparina. Tenta de novo. Na terceira vez consegue. Zooming out a gente vê, envoltos em capas de chuva amarelas, muitos outros soldadinhos. Noite, o soldado olha para a esquerda, olha para a direita e vê fileiras de pontos de brasa. Uns aspiram tão forte que o vermelho da ponta do cigarro chega a ser suficiente para iluminar seus narizes.
É por isso que eu fumo.
Postado por Marcelo Rota em 11:41 PM | cigarro | Comentários (0)
ASDLASDASDASLDAS
O próximo papa vai ser um daqueles lombrosianos de O Poderoso Chefão III. Sabe qual é?
Postado por Marcelo Rota em 2:24 PM | Comentários (0)
abril 6, 2005
OCASIONALMENTE
acordo com uma frase remelenta na mente: usei o gogol para pesquisar sobre o google.
Ou então poderia fazer assim:
DIÁRIO DE UM LOUCO
06 de Abril, 11:28
Usei o gogol para pesquisar sobre o google. Obtive milhares de almas mortas.
Postado por Marcelo Rota em 12:22 PM | Comentários (2)
abril 3, 2005
TAMBÉM POSTO DO PAPA
Soube ontem no Jornal Nacional que hoje a máxima seria de trinta e oito. E a mereologia acertou em parte. Soube ainda que um pontificado terminou depois da morte do papa. Se houvesse vida depois da morte o pontificado continuaria depois da do pontífice. E hoje é dia de fra-Flu. Karol torcia pelo XV de Cracóvia, mas a nossa torcida sempre foi por ele. O presente do futuro, desinência -arol, é o tempo verbal dos vaticínios. O placar serol de zero a três.
Postado por Marcelo Rota em 1:45 PM | Comentários (0)
abril 2, 2005
AMOR
Pequenos estímulos, discretas excitações nervosas provocam reações inesperadas, efeitos devastadores. No caso de Barbosa foi a analogia gustativa e olfativa encontrada em Vera. A misteriosa simetria gerou nele uma obstinação amorosa.
O cabelo dela tinha cheiro de capim. Um capim agreste, agridoce. Formidável tosão de ouro, admirável cabeleira chapinhada.
Quantos graus de intimidade precisam ser conquistados para sermos rebaixados até a nobreza da cunnilingus? Barbosa obteve o brasão após dois encontros. Eufemista machista, não gostava da palavra "buceta". Usava "ranhura lanígera".
Pois a ranhura lanígera cheirava e sabia a capim agreste. Só não sabia o porquê da correspondência. Esta ignorância espicaçava a libido e fez com que estendesse a relação amorosa com Vera. Uma felação que, não existisse o símile maravilhoso, ele já teria encerrado há muito.
Não gostava nem da bunda dela. Precisava libertar-se daquela obsessão. Perguntou-lhe qual xampu usava. E se a aplicação era repetida na ranhura lanígera. Não, ela riu, mostrando o aparelho. Seu sorriso sempre o irritava.
Acabou casando com ela. Só depois de cinco anos, dois filhos, resolveria o enigma. Ela lavava suas calcinhas com Higi Calcinha, "o jeito certo e seguro de lavar calcinhas, indicado por dermatologistas e ginecologistas". Assim como o xampu usado por Vera, Higi Calcinha é feito de substâncias extraídas da Aloe vera, planta popularmente conhecida como babosa.
***
“Até hoje lavo minhas calcinhas no banho, como minha mãe me ensinou."
Gisele Bündchen
Postado por Marcelo Rota em 3:40 AM | concupiscíveis | Comentários (4)