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novembro 29, 2004

L^LÇÔIOPOI NOIOPIMPOIOI

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Menor idéia de quem seja a moça, mas suspeito de tristezas maquiadas, choros públicos. Só creio na tristeza de um rosto aparentemente feliz, pois os tristes genuínos têm o desejo natural de escamotear as suas frustrações. Estranha felicidade a de pintar no rosto uma existência esplínica. Lamentar-se batendo a cabeça contra o muro das, acho tudo isto suspeito. Viúvas que, no enterro, têm acessos e jogam-se na sepultura, beijam a boca do finado, cavalgam o caixão, isto tudo soa-me dissimulação. As melhores dores são discretas. Sofrer com elegância, à primeira vista, apresenta-se como falta de autenticidade. Mas não é verdade. A dor é muito mais profunda quando há o esforço do decoro, fineza e discrição.

Estas adolescentes góticas, gostaria de dar-lhes bofetadas. Têm vergonha do próprio bem-estar e felicidade. E aí pintam um negrume estilizado, falso como quase tudo na vida dos adolescentes, a pior época, quando tudo é impostura

***

Estou sem cigarros. Faltam duas horas e meia para as seis da manhã. Hora em que me preciparei para a banca de jornal para comprar uns maços.

Enquanto isso escrevo. E pontifico sobre a tristeza e o modo correto de senti-la. Mas, putz, não me ouçam.

***

Tango. Vi o filme do Bob Duvall, ASSASSINATION TANGO. Assassino a soldo desembarca em Buenos Aires para um serviço. Ver a aeronave da Varig aterrissando trouxe logo a velha sensação de Buenos Aires ser a capital do Brasil.

O tango tem um jogo de pernas hipnótico. Os movimentos são suaves e, para dizer o mínimo e o óbvio, sensuais. Há o "gancho", movimento em que a parceira dá um giro e coiceia o outro com o calcanhar bem no meio das pernas. Perigoso, sexy.

Depois, mission accomplished, já na fuga, Varig novamente, desta vez para o Rio de Janeiro. ASSASSINATION SAMBA, imaginei. Pfui.

Preciso de uma professora de tango.

***

Os mórmons...

Postado por Marcelo Rota em 3:50 AM | Comentários (8)

novembro 28, 2004

ELA ESCREVE SOBRE ELE

Estava vendo um filme cuja cena final apresenta o matador de aluguel, asmático e atrapalhado, borrifando o vapor da sua pistola de asmático na cara de quem deveria ser sua próxima fatalidade. Ao mesmo tempo, introduz o cano da pistola genuína na própria boca e pressiona o gatilho. Miolos na parede.

Estava vendo este filme e lembrei daquele dia, um dos nossos primeiros encontros e, você, muito tímido e nervoso, sentado à mesa diante de mim, havia acabado de queimar a língua com uma pizza portuguesa recém saída do forno. Suas aflições de gauchezinho eram lindas para mim. Sorri e, com todo o charme e indústria de que meus lábios dispunham, estalei um beijinho para você. Desconcertado, tentou retribuir, mas, mente confusa, confundiu-me com a pizza. Ela ficou com o beijo, eu com o sopro.

Meu amor nunca vai poder trabalhar no esquadrão anti-bomba. Nunca vai ser neurocirurgião. Nem diplomata.

Postado por Marcelo Rota em 1:25 AM | Comentários (3)

novembro 27, 2004

HO HO HO

***

I had rather believe all the fables in the Legend, and the Talmud, and the Alcoran, than that this universal frame is without a mind.

***

Cof cof.

***

Eu não sou ateu; sou adeus. Muito mais bonitinho.

Postado por Marcelo Rota em 4:50 AM | Comentários (7)

novembro 25, 2004

COF COF

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Dormi menos do que o exigido. Bocejo.

Ah, sim: um casal. Brigaram e agora não sabem o que fazer. "And what about my needs?", disse ela.

Nunca,

JAMAIS

enfatize com itálicos da voz o pronome possessivo da primeira pessoa do discurso. Ele já é naturalmente italicizado. Fazê-lo é pleonástico e egoísta. E ridículo, além do mais. Tá bom?

(Isto tudo foi ele quem disse, só para irritá-la.)

***

Bocejo.

Postado por Marcelo Rota em 10:14 AM | Comentários (10)

novembro 24, 2004

(4)

Almir Guineto, pastor analfabeto, do avô do pai bisneto, conhecido como O Corisco, levou três coristas para o aprisco. E lá, entre ovelhas, sob a luz de velas, tosquiou as três toscas velhas. Depois, deitado na lã lânguida, pegando do fagote, entoou um pagode.

Postado por Marcelo Rota em 9:59 AM | Comentários (6)

(3)

Vi uvas virgens sem véus na videira sob o céu viúvo do sol. Nuas, comi-as. As três viúvas vis atrás dos três ciprestes tristes.

Minto. Não eram três viúvas, nem três ciprestes, eram duas, mas eu comi sim, tremendo, sob o tremendo tremendal tricolor.

Postado por Marcelo Rota em 9:24 AM | Comentários (0)

(2)

Dona Celeste, beleza agreste, triste, entre três ciprestes.

Postado por Marcelo Rota em 9:21 AM | Comentários (0)

(1)

Meia-noite e um quarto, sombras de catedrais, múmias forçam do meu quarto a porta, dentro, mamãe é morta.

Postado por Marcelo Rota em 9:18 AM | Comentários (0)

novembro 23, 2004

ALSDASLDLASDLASL

Fui telecronotransportado para uma novela da Jane Austen. Gritava para sair dali, mas só conseguia produzir silêncio. Enquanto isso pensava obsessivamente, à minha própria revelia, em ajeitar um casamento vantajoso para a minha filha mais velha. But with so low connections, name and fortune, I knew my chances were but scarce.

A sorte foi encontrar na página em branco entre o IV e o V capítulos um portal.

Postado por Marcelo Rota em 1:37 AM | Comentários (8)

novembro 22, 2004

DO GERADOR DE FRASES DE EFEITO

"Sempre que vejo um padre gordo minha fé sofre um revés."


***


Não fale mais de religião, Marcelo

Perdoe-me, mas a religião me persegue e eu me persigno.

Você sabe que os padres comem para compensar a castidade.

Então, quando encontrar um magro, minhas suspeitas tomarão novo rumo.

É uma generalização grosseira.

"Toda generalização é grosseira", outra fase que saiu do gerador. Mas, ok, ok, eu creio na vida monástica, desde que praticada ao ar livre e na solidão. No monastério, todavia, comunitário e fechado, não.

Postado por Marcelo Rota em 4:20 PM | Comentários (9)

novembro 19, 2004

"AHHHHHHHHHHHHHHHH", ERA O QUE GRITAVAM. UNS SEGUNDOS PARA RETOMAR O FÔLEGO E "AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!" DE NOVO. UM GRITO ROUCO E DESESPERADO.

Acho que foi o famoso marquês libertino que deu conotações eróticas ao verbo "socratizar". E inventou o trava-língua "O padre sacrílego socratizou o sacristão na sacristia".

Mas não tenho a infinitesimal idéia de por que estou escrevendo isso.

Um dia depois...

Agora acho que já sei. Peter Piper picked a peck of pickled peppers. Tá, peraí que estou acordando ainda.


***

No alto da colina, um mosteiro. Embaixo uma aldeia, repleta de camponesas ruivas que costumavam subir com suas cestinhas o monte para colher amoras.

Uma noite um dos monges fica louco, pula o muro do mosteiro e precipita-se para a aldeia. Corra, capuchinho, corra. Erga a batina com as mãos, mostrando as canelas, para correr melhor.

Satã colocou aquela aldeia e suas aldeãs ali. Deus, sabendo que os muros não eram fortaleza suficiente, dava a lepra a cada monge que durante a noite descia louco o outeiro. Eles sempre tropeçavam durante o percurso. Quando levantavam para continuar, sentiam o rosto borbulhante, cheio de ulcerações. E voltavam gritando para o mosteiro.

***

Um grito rouco. Parecia o que os hastati, unidade do exército romano, davam antes de atacar os hoplitas gregos.

Postado por Marcelo Rota em 11:02 AM | Comentários (14)

novembro 18, 2004

POST FUTURO (OU POST-BOMBA)

Acho que vou dar um tiro no Barbosa, a calopsita aqui de casa. Parece a Sumi Jo, um soprano coreano, na ária da Rainha da Noite. Talvez, entretanto, ele tenha razão em reclamar: a fome.

***

Comprei uma ração para pássaros (calopsitas e agapornis) por dez reais. "Ouro Vida" é o nome, 500g, o peso líquido. Deveria, contudo, ter comprado um agaporne ao invés do Barbosa. Mas então tê-lo-ia igualmente batizado "Barbosa". Já tive um cão com esse nome. Prometi-lhe no leito de morte transmitir o seu legado onomástico às gerações vindouras de criaturas de Deus, aquém dos seres humanos, que viesse a adquirir. E foi só esta restrição que livrou a minha filha do estigma.

***

Meu sonho de criança era o de ser um grande Criador. Faria grandes colônias de agapornis, calopsitas e outros cacatuídeos. Civilizações de psitacídeos surgiriam e desapareceriam sob os meus cuidados e desatenções.

Aos 13, gostava de olhar para o céu e ver se ali encontrava algum indício dos desígnios da divindade. Logo tornei-me perito na análise do vôo e dos pios das aves (auspicia ex avibus). Entretanto, deixei tudo isso para trás depois que descobri o mormonismo.

Os mórmons...

***

Bibliografia:

1- Bielfeld, Horst. Handbook of Lovebirds
2- Brockmann and Lantermann. The World of Lovebirds
3- Mervin, F. Roberts. All About Lovebirds
4- Curt Af Enehjelm. Cages and Aviaries
5- Carl Naether and Matthew M. Vriends. Building an Aviary
6- Matthew M. Vriends, Ph.D.. Hand-Feeding and Raising-Baby Birds
7- David Alderton. Novo Guia dos Papagaios
8- Kurt Kolar. Criação de Agapornis ou Inseparáveis
9- Frei Betto. A Águia e a Galinha.

Postado por Marcelo Rota em 1:38 PM | não há nada além | Comentários (9)

novembro 17, 2004

DEZ ANOS SEM FEYERABEND

O Feyer é legal porque, além de ter um nome sonoro e escrito livros de filosofia da ciência divertidos, ficou impotente e, ainda assim, conseguiu convencer várias mulheres, sim, várias, a casarem-se com ele sucessivamente. E nem era rico.

"Sou impotente", dizia o Feuer, fogo-fátuo, sem viagra.

"Eu te amo", respondiam.

"Então tá."


***


Estive em uma universidade esta semana e vi o cartaz do colóquio, seminário ou whatever: "DEZ ANOS SEM FEYERABEND".

"Dez anos...Como sinto a sua falta!", suspira o organizador do evento.

Se ainda fosse a viúva. Mas nem. Um bando de professores de filosofia, com barbas platônicas e barrigas de monges glutões, saudosos de quem jamais conheceram a não ser por livros cuja exegese fazem e refazem. Mas os livros ainda estão aí, father in heaven.

Quero então que promovam o colóquio DOIS MIL E QUINHENTOS ANOS SEM PLATÃO. Ou o SAUDADES DE SÃO TOMÁS, A FALTA QUE KANT QUE ME FAZ, O VAZIO QUE KIERKEGAARD DEIXOU NO MEU PEITO, etc.

Os, aspas aspas, filósofos brasileiros formam uma congregação de viúvas, cada uma com o finado de sua predileção, cujo retrato trazem sempre, guardado com carinho, em suas bolsas do CNPq.

Postado por Marcelo Rota em 8:40 PM | Comentários (8)

VI UVAS LINDAS NOS VINHEDOS

Tenho pensado em viúvas. Nas jovens e nas velhas. Mas menos nestas.

As velhas têm todo o tempo do mundo, o pouco que lhes resta, para cultivar a fidelidade ao morto. As outras, quanto tempo deve durar o seu luto? Quanto se acumula no reservatório de libido durante este período. (Deveria ter terminado a última frase com uma exclamação, mas a verdade é que não sei exclamar. Sinto-me falso toda vez que fecho sentenças com! Minhas frases são todas declarativas.)

Mas quanto!

Uma viuvez jovem, linda e, além do mais, rica pelo legado do marido. Ele morreu súbito, sem tempo de fazer-lhe os filhos que sonhava. Talvez ela o amasse justamente por causa disso: da vida que poderia ter sido. Pode ser também que não, a oportunista. E que mantenha a tristeza do luto apenas com muito esforço, a fim de não perder a aparência de honestidade.

Mas quanto!

Desta aqui, por exemplo, jovem viúva linda, em cuja porta se formou imensa fila de pretendentes, você não gostaria de ser o primeiro?

Uma outra, também do grupo das jovens, que é o único que nos interessa, gostou tanto deste estado civil que o transformou em condição erótica. Nunca mais casou, apesar de ter tido muitos homens. Morreu viúva velha.

E, finalmente, há uma terceira, a que não existe, mas que levava flores ao túmulo do que a enviuvou analiticamente, ou seja, a cada ano, no seu aniversário de morte. Manteve-se rigorosamente fiel durante os quarenta anos que se seguiram ao defunto. Uma necrofilia espiritual, não concorda? O que a faz a mais depravada e degenerada de todas.

Postado por Marcelo Rota em 9:42 AM | concupiscíveis | Comentários (6)

novembro 6, 2004

Der Tod ist ein Dandy auf einem weißen Pferd

Achou que já era suficiente. Telefonou para as seis únicas pessoas que amava. Verdade que sobre duas ou três destas tinha dúvidas quanto à reciprocidade. Isto, entretanto, não lhe incomodava. "O cômputo preciso do amor é um cacho de bananas. Quero cada uma delas presente na minha festa."

Quando chegou, a primeira banana encontrou uma banheira no centro da sala. Ele dentro, o rosto encoberto pelo vapor d´água. Ao vê-la correu a lâmina pelo pulso esquerdo.

Logo foram chegando as outras bananas que, sem alarde, acomodavam-se nas almofadas dispostas ao redor da banheira. Um criado serviu-lhes vinho e canapés.

E agora foi a vez do direito. "É como abrir um zíper", disse. Pediu vinho ao criado que segurou a taça para que ele bebesse. "Se tiro da água dói", explicou olhando para as mãos submersas.

Conversaram a noite inteira. Sempre que alguém dizia algo que lhe despertava a loquacidade,

por exemplo, sobre qual seria a melhor maneira de ouvir A Arte da Fuga de Bach,

fazia um aceno de cabeça para o criado. Ele então estancava a torrente colocando-lhe duas pulseiras de látex.

Postado por Marcelo Rota em 6:54 AM | Comentários (11)

novembro 4, 2004

ASDKASDAKSDASKDASDK

Queria falar algumas grosserias sobre "Morte em Veneza", aquele filme, sabe? Do Conde Visconti.

O compositor Gustav olha para o mancebinho Topázio, faz um biquinho gay e se esconde atrás do jornal. Faz isso uma vez, no hall do hotel, duas, no restaurante, três, na praia e, pronto, estopei o DVD. E as olhadelas ainda eram intercaladas a flashbacks de conversas do compositor com um amiguinho sodomita. Nelas discutiam filosofia da arte. O que é a beleza? Após cada filosofada entrava a criada para limpar o linóleo.

Ao descobrir Potadzio, o menininho com cara de menininha escandinava e que, provavelmente - bom, sei lá. O fato é que, na parte que não vi do filme, Gustav pega o mocetinho pelo braço e lhe diz no ouvido: "Seja a minha Lucrécia que eu serei o teu Tarquínio, e depois a gente troca."

Postado por Marcelo Rota em 7:50 PM | Comentários (5)

LÁ LÁ LÁ

O pequeno escritor, que era também grande leitor, desistiu das duas atividades quando se deu conta que nada daquilo que escrevia ou lia existia, pura criação da mente de outro ou da sua própria. Melhor criar rãs, pensou. E comprou um sítio.

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O grande escritor, que além de ler muito, era também um pequeno ateu, trocou a literatura pelo sacerdócio depois que se deu conta que, assim como suas ficções, Deus também não existia.

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O seminarista fugiu com outro seminarista depois que ambos leram o "Satíricon" de Petrônio. Nunca antes haviam experimentado tanto prazer na vida.

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Deus também foi outro que desistiu. E foi ser homem. Cruficaram-no.

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O náufrago desistiu quando chegou à praia.

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O suicida, ao chegar ao céu.

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O filósofo, assim que notou que ele próprio existia.

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Cansei.


Postado por Marcelo Rota em 5:36 PM | não há nada além | Comentários (3)

novembro 2, 2004

HOJE NÃO VOU POSTAR. ESTOU TRISTE E ZANGADO.

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Postado por Marcelo Rota em 4:02 PM | Comentários (8)

novembro 1, 2004

DEMOCRACIA

Uma candidata perdeu por causa de uma plástica mal feita. Já um outro ganhou por causa de aplicações precisas de toxina botulínica. A fisiognomonia é o hobby das massas e o segredo das urnas.

Postado por Marcelo Rota em 9:20 AM | Comentários (5)