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outubro 31, 2004

WAIMEA

Lá lá lá

[pigarreia]

Bem, vamos direto ao ponto, caros simparanecromenói: eu agora quero ser um sufista. Preocupar-me se amanhã vai bater um terral dez, ó, deve ser lindo. E, no tubo, desacelerar a prancha colocando a mão na parede d'água.

Eu disse "sufista"?

[pigarreia]

Desculpe, estou ficando velho, mas, bom, vocês me entenderam. De qualquer modo é uma boa religião. Também gostaria de experimentá-la. Falam que os sufistas dançam em seus ritos. Parece interessante. Agora penso em um luau sufista...

[pigarreia]

Ah, meus amiguinhos simparanecromenói, nossas escolhas, depois de feitas, deixam tudo rarefeito e então suspiramos pelo que preterimos. O surf e o sufismo, por exemplo. Tudo o que somos, somos contro voglia, e o que não...

[pigarreia]

Postado por Marcelo Rota em 3:09 AM | Comentários (2)

outubro 29, 2004

A MORTE FELIZ

Ah, só hoje fiquei sabendo que o time do São Caetano vai entrar na próxima partida desfalcado de um dos seus zagueiros. Sofreu uma contusão grave durante o último jogo: morreu.

"É melhor morrer exercendo o seu ofício do que na aposentadoria," ouço alguém dizer. E com razão.

O escritor deve morrer escrevendo. Realmente, um deles, Piotr Vladimirovitch, morreu durante seu, óbvio, último romance. Enquanto vasculhava seu cérebro, destacando um batalhão de neurônios para este fim, atrás daquela danadinha, a môjuste, o aneurisma explodiu. E sabem qual era a palavra que ele procurava? "Coisa".

O engenheiro suicidou-se pulando da própria ponte.

O soldado, não preciso nem completar a frase.

O barbeiro foi navalhado pelo rival, dono da barbearia em frente.

O médico gauche, eletrocutado enquanto desfibrilava um paciente.

A atriz, Lady Macbeth, teve um AVC enquanto dizia

Come, you spirits
That tend on mortal thoughts, unsex me here,
And fill me from the crown to the toe top-full
Of direst cruelty! make thick my blood

O funcionário público morreu, ninguém jamais soube a causa, quando pendurava o paletó.

O anão morreu em um pub londrino, de traumatismo cranio-encefálico, arremessado contra a parede, durante um campeonato de dwarf throwing.

O scuba diver, vítima de ataque de tubarão.

O fumante, de câncer pulmonar.

O asceta, de fome e frio.

Porque basta morrer uma vez. Quem se aposenta morre duas.

Postado por Marcelo Rota em 2:18 PM | Comentários (2)

COMO AS MULHERES REAGEM QUANDO VOCÊ AS ENCARA NA RUA: PEQUENO CATÁLOGO DESORGANIZADO (REPOST)

As que ajeitam os cabelos sao as piores.

Há as que olham para o chão.

Aquelas de peitões sob camisetas translúcidas olham para eles. Talvez para fazer uma rápida checagem ou entao como se dissessem: sao meus e você os quer, né?

As de óculos escuros: há aquelas que olham por cima deles para você, e outras cujo olhar a gente perde completamente e fica apaixonado por elas. A não ser que ajeitem o cabelo.

As de óculos de grau geralmente são as que olham para o chão.

As mais raras são as que enfrentam o seu olhar, seguram-no, desaceleram o passo e aceleram o meu próprio passo e o meu coração. Destas você, o tímido, tem medo, mas também se apaixona por elas, a não ser que ajeitem os cabelos, claro. Apaixonar-se quer dizer levar o impacto da sua imagem gravado na retina durante um certo tempo.

As que olham com raiva.

Outras ajeitam a roupa. Por exemplo, esticam a blusa quando focamos a barriga e o umbigo. Não gosto dessas.

Acompanhadas por outro homem, retribuem o olhar. Dá vontade de agradecer-lhes pela distinção.

Olham para cima como se dissessem: céus, mais um que me olha, não aguento mais.

As que não existem: olham para trás quando você passa por elas em sentido contrário, como se fossem homens. Estas realmente não existem.

Que usam aliança: um capítulo inteiro para elas, livros. Kareninas, bovarys, luísas que passam por você como grandes desastres naturais, mas dos quais sai vivo por muito pouco. E depois se arrepende. Mas dá graças aos céus por ter se arrependido. Sabe que é melhor arrepender-se da omissão do que da ação.

As grávidas: olham para você olhando para a barriga delas. E fazem com que você deseje ser uma pessoa melhor.

etc.

Postado por Marcelo Rota em 8:18 AM | Comentários (25)

outubro 27, 2004

terceiro BLOGAUTI Editing Menu > Create New Entry

Se você fosse mesmo um indivíduo não dependeria da aprovação de um outro para ter uma boa opinião sobre si mesmo. Entretanto, o que pensam sobre você é sempre mais importante do que o que você mesmo pensa sobre você. Como você muda depois que recebe um elogio, não é? Passa a olhar para o que quer que tenha feito, um filho, uma ponte, um poema ou um drible, com a doçura retrospectiva do autor orgulhoso do seu feito. Você precisa de testemunhas para as suas virtudes, nem que seja uma apenas. Uma virtude reconhecida somente pelo portador é um vício solitário.

Postado por Marcelo Rota em 3:31 AM | Comentários (17)

outubro 26, 2004

LA CONGOJA

Detesto citações, mas aqui vai uma:

"El hombre es tanto más hombre, esto es, tanto más divino, cuanto más capacidad para el sufrimiento, o mejor dicho, para la congoja, tiene."

Detesto citações porque as pessoas ficam logo querendo saber: "quem disse isso?" E os que já sabem ficam felizinhos com sua erudição. Ah, é muito estranha a relação que os eruditos mantém com o que sabem, como se a erudição fosse uma filha que só lhes dá alegrias.

Procurem no google.

Mas o homenzinho que escreveu aquilo lá disse que quanto mais os hombres -

Uma vez ganhei um creme de barbear chamado "hombre". Tinha vergonha dele e sempre pensava no publicitário infeliz que o batizou.

... quanto mais um hombre for capaz de suportar la congoja, mais hombre será.

"Por isso que sou muito macho, um macho divino. Vocês, meninas, precisam me conhecer ", concluiu o autor citado.

Postado por Marcelo Rota em 11:17 AM | Comentários (0)

outubro 25, 2004

DIRIGINDO

Coloque as costas de uma das mãos sobre a testa ao mesmo tempo em que fecha os olhos e emite um longo suspiro.

Muito bem. É assim que as mulheres expressam uma desilusão amorosa.

Agora se jogue na cama e comece a chorar. Soluce muito. Quero ver o seu corpo sacudido pelos soluços. Mergulhe o rosto no travesseiro para sufocá-los. Pronto. Agora erga o rosto, comece a socar o travesseiro, enquanto dá um grito rouco, assim: "AAAAAAAA".

Ótimo, lindo! Acho que vou casar com você.

Postado por Marcelo Rota em 7:15 AM | Comentários (3)

outubro 22, 2004

DECADÊNCIA TRANSGERACIONAL

"Todas as coisas nobres tem um toque de melancolia", disse Ismael em Moby Dick.

"Todas as coisas nobres tem um toque de ginecologia", respondeu Moby´s dick, aquele DJ, sabe?, e que, aliás, como o Elton me informou, é neto do autor de Moby Dick.

E uma vez um professor meu falou que conheceu em Paris a sobrinha-neta de Proust. Deve ser horrível ter qualquer relação de parentesco com alguém assim. Porque o mais próximo que uma pessoa viva pode chegar da não-existência é ter uma existência relacional, existir vicariamente, entende, Pelé? O filho do Pelé entende, garanto. Edinho o nome dele, né? Tenho muita pena de todos os juniores da vida. Não dos apenas nominais. Mas dos juniores morais, tadinhos. Idealmente a descendência serve para ir além da as-. Quando fica aquém, e como ultrapassar Proust, hein? Todo parente de Proust é um Rubinho Barrichello nato. Os Proust morreram com Proust.

Por isso Jesus Cristo não teve filhos.


Postado por Marcelo Rota em 3:57 PM | Comentários (0)

THE OFFICIAL GOD FAQ

.

Postado por Marcelo Rota em 9:00 AM | Comentários (3)

outubro 21, 2004

SIDNA ALI

Começava assim:

"Deus diz:"

Ouviu isso e não pensou nada.

"Quem me procura, encontra."

Ah tá, pensou ironicamente, achei que só os agraciados encontrassem.

"Quem me encontra, conhece."

Dã.

"Quem me conhece, ama."

É o básico, é o básico. Continua.

"Quem me ama, é amado por mim."

Neste ponto já estava quase indo embora, entediado com a transitividade dos paralogismos misticuzinhos. Entretanto...

"Quem é amado por mim, é destruído."

Ô, aí ele gostou. Destruído? Realmente, de fato, já fora dilacerado tantas vezes por amores femininos. O de Deus então não deve ser coisa fácil. Faz todo o sentido. Quero que Deus me ame e me destrua, disse baixinho e foi embora, surpreso e feliz com o final.

Postado por Marcelo Rota em 5:10 PM | Comentários (6)

outubro 20, 2004

BOA NOITE

O silêncio eter-

Ah não, de novo com Pascal não. Chega.

Tsc, deixa eu terminar: o silêncio eterno destes espaços infinitos me dá sono. Boa noite.

Ah, mas antes conta que ontem você viu mais um filme de ruiva.

Sim, vi. A Deusa de 1967. Uma ruiva cega.

Beijar uma ruiva cega, ainda que ela queira, é sacrilégio. Profanação da beleza que não tem consciência do efeito da própria cor.

Mas isto nunca vai acontecer com a gente. Pode lamentar.

Talvez o verdadeiro silêncio eterno dos espaços infinitos seja uma cega, surda, muda e ruiva. Apavorante.

Fantástico.

Postado por Marcelo Rota em 11:48 PM | Comentários (0)

NA LÁPIDE

Talvez a seção mais vulgar da musga eru seja a das danças. Mesmo assim agora eu estou ouvindo enquanto digito,

no compasso, no compasso

a danse macabre de Saint-Saëns, que eu chamo de Sem-senso, porque ele não entendeu a Sagração da Primavera. Tanta gente, contudo, não entendeu.

Esqueletos dançando felizes no meu cerebelo.

Conheço um padre que tratou de no fundo do mosteiro fazer logo sua sepultura. Na lápide escreveu:

MORTE, NÃO ME ATEMORIZAS

Tá bom, nao o conheço: a não ser através de um livro que li. Um padre grego, ortodoxo. Bacaninha ele.

Mas assim deve ser a morte, dançada como quem o faria com o esqueleto
da Claudia Cardinale.

Postado por Marcelo Rota em 10:03 AM | Comentários (2)

ASDLASDALSDASLDASDL

Sobre o que eu queria falar?

Acabei de acordar e estou tomando o Toddynho que esqueci ontem no congelador. Toddynho congelado sucks. Sucks e não vem nada. E ainda faz aquele barulho de entupimento que as senhoras da alta-sociedade não gostam. Não sei por que certos ruídos são exilados pelas regras de etiqueta. Ou melhor, é óbvio que sei, todos sabemos. A vida mental é feita de associações involuntárias.

(Enquanto isso podem me imaginar sucking desperately, entre uma frase e outra, o mini-canudo inserido na caixa de Toddynho.)

Mas a embalagem é feliz, uma embalagem de criança: leve toddynho para brincar no parque, diz ela sob o desenho de uma caixinha antropomorfizada do produto, sorridente, segurando dois balões, azul e lilás; ao fundo, um banco branco de praça, mais ainda, apenas silhuetados, um balanço, uma árvore e um escorrega. Lá em Belo Horizonte, entretanto, diziam "escorregador".

Estas palavrinhas terminadas em "dor"... "Escorregador" parece, ao menos para mim, carioca, um escorrega cuja rampa é cravejada de lâminas e que termina em uma piscina de álcool.

Deixa pra lá.

Quando eu era criança, estranho, não bebia Toddynho. Eu gostava de Bliss de morango. Entre um Bliss e outro, escrevia poemas, alguns concretos, como este:


E r
L
E o
V
A d

Criança não. Acho que tinha uns treze.

Não era, todavia, sobre isso que queria falar. Lembro agora que era sobre o Brasil. Acho que iria explicar porque falo tão pouco sobre o Brasil. Meus wunderamiguinhos falam muito mais. Mas a razão é que o Brasil para mim é como o Piauí, não existe.

Postado por Marcelo Rota em 7:25 AM | Comentários (4)

outubro 18, 2004

COLIFORMES FECAIS

Encontrei este velho agachado às margens do regato. Perguntei o que ele olhava ali esperando que me respondesse algo como "a minha vida indo embora", ao que eu retrucaria que os rios todos terminam no mar.

"É por isso que as águas dos oceanos são salgadas. Nossas lágrimas....", teria respondido ele, amargo metafísico. Mas nada disso. Era só um velho da Feema e estava colhendo amostras da água para análise.

Teríamos conversado muito sobre a morte and beyond, essas coisas, porque sua longa barba branca, enquanto agachava-se sobre o leito do rio, chegava a tocar na água. Entretanto, era só um velho decepcionante, da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente.

Postado por Marcelo Rota em 3:09 AM | Comentários (2)

outubro 11, 2004

OTIMISMO

E continua a chuva de cadáveres. Agora é o escritor Beltraninho. Sinal dos bons tempos que virão é que só gente para quem não ligo nem a cobrar está se decompondo.

Postado por Marcelo Rota em 5:25 PM | Comentários (0)

PLEONASMO: NO FINAL DA HISTÓRIA MORRERAM TODOS

Enquanto eu assistia àquele filme maravilhoso, Il Gattopardo, e desejava morrer junto com uma época, sendo não um pioneiro, coisa mais ultrapassada, mas o último, enquanto isso algumas pessoas morriam.

Há gente que morre em massa, como as do acidente que ultimou dezessete romeiros. Outras, individualmente, com uma manchete só para elas. Morreu o filósofo Fulaninho. Morreu o ator Sicraninho.

Ah, mas eu quero mesmo é ser o Burt Lancaster e dançar a última valsa com a Claudia Cardinale. E, quando morrer, ninguém vai apor ao meu nome qualificativo idiota como "o eterno superhomem" ou "filósofo francês" e muito menos "sertanista".

MORRE, DESESPERADO DE SER ELE MESMO, COMO, ALIÁS, TODOS NÓS, diria o absurdo redador da primeira página em sua serpeante manchete , M. R., QUE QUERIA SER BURT LANCASTER E DANÇAR A ÚLTIMA MAZURCA COM CLAUDIA CARDINALE.

Postado por Marcelo Rota em 7:41 AM | Comentários (3)

outubro 7, 2004

REALART.COM

O tédio é a ausência de morte ou de sorte, disse o primeiro rastasábio apenas porque não tinha mais nada o que dizer.

O tédio é a ausência de morangos, retrucou o segundo.

Ou de frangos, de frangos, complementou depois que notou o olhar interrogador do amigo.

Deus é a presença de ione ou de oni.

O amor é a ausência de tédio ou de dreads.

E continuaram assim ainda por mais três dias e sete noites enquanto descansavam às margens do Rio Ural.

Postado por Marcelo Rota em 2:21 PM | Comentários (3)

ASDLKASDLASDASLDASDL

Como já é moda anunciar, EU TENHO.

Seis, agora só cinco, convites para o gmail. Que, entretanto, como ocorre com aquelas bolsas milionárias distribuídas anualmente por fundações americanas, só concedo para quem não se candidatar.

Postado por Marcelo Rota em 1:19 PM | Comentários (3)

ASDLKASDASLDASLDAS

A nova modalidade atlético-TOC é o drible de pessoas pelas ruas buliçosas de Copa. A única contrainte é a de manter sempre o mesmo ritmo de passadas: não pode desacelerar nem a-. Como não está incluído o drible de automóveis, paradas em sinais de pedestres devem ser colocadas entre as exceções. Vale saltar canteiros para não ser obstruído pelo tráfego de velhinhos. Vale até empurrá-los em cima dos canteiros.

Postado por Marcelo Rota em 1:15 PM | Comentários (0)

outubro 1, 2004

DO MEMORIAL DE MARIO MOREIRA (OU QUALQUER OUTRO NOME QUE ALITERE)

Uma vez por ano tinha que tomar chá na casa das irmãs solteiras de meu pai, as minhas tias, Dialética

não troque o ´d´ pelo ´t´, apesar de ser tentador

e Hermenêutica. As partes desagradáveis da visita eram a chegada e a partida, porque então era beijado pelas tias e elas tinham o típico hálito das mulheres que não casam e ficam, estéreis histéricas, condenadas ao alho do porão da existência. Tialética era a mais divertida. Esclerosada, dizia uma coisa, depois esquecia e dizia o contrário, que esquecia também. Então desistia e proferia uma terceira sentença que não tinha nada a ver com as duas primeiras. O charme de tia Hermê era o de girar em torno do seu próprio eixo roliço enquanto procurava a agulha de crochê que jurava ter deixado cair no chão, no espaço entre o sofá e a mesa de centro. Se não lhe avisassem que a agulha estava entre as almofadas do sofá, ela continuaria em moto-perpétuo, violando a primeira e a segunda leis da termodinâmica. Era, entretanto, mestre do terceiro dan na Arte do Crochê e fazia umas meias de Möbius lindas e desconfortáveis.

(Mercuccio!)

Postado por Marcelo Rota em 5:38 PM | Comentários (6)

QUINE THIS!

When a logician dies he ceases to be a bound variable and becomes

A FREE ONE.

So gay, so beautiful...

(Mais sobre isso na bitácora da Signora Rota)

Postado por Marcelo Rota em 11:47 AM | Comentários (0)