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julho 30, 2004
O CÚMULO DO MATERIALISMO
é a coprofagia.
Postado por Marcelo Rota em 11:40 PM | Comentários (1)
CONFESSO QUE
às vezes hesito antes de soltar posts aqui. Gostaria de poder testá-los em camundongos.
Aliás, o mundo perfeito é o que é ensaiado durante a eternidade por cientistas demiurgos com ratinhos imortais. E cuja estréia é perpetuamente procrastinada.
Vejam como a primeira versão deste post é pior do que a que acabaram de ler:
às vezes hesito antes de soltar posts aqui. Gostaria de poder testá-los em camundongos.
Aliás, o mundo perfeito é aquele que os cientistas estão testando em roedores, mas antes de botá-lo para funcionar ainda vão ver como uma comunidade de hamsters sobrevive nele.
Postado por Marcelo Rota em 9:01 PM | Comentários (4)
julho 29, 2004
SLFSDFLSDFLSDFSDL
O discurso de Ivan Petrovich Pavlov, em Estocolmo, a 12 de dezembro de 1904, para a ocasião do recebimento do Nobel de Medicina, é bonito. É, como diria o crítico babaca a descrever o quarto movimento da Nona de Beethoven, um hino de louvor à vida. Pois a melhor maneira de louvá-la é dirigindo os elogios ao cocô.
Não é por mero acaso que todos os fenômenos da vida humana são dominados pelo pão nosso de cada dia - o mais antigo elo de ligação de todas as coisas vivas, incluindo o homem, com a natureza circundante. O alimento, que acha seu caminho, no qual sofre certas modificações - dissocia-se, entra em novas combinações, e novamente se dissocia - corporifica o processo vital, em toda a plenitude, desde as propriedades físicas elementares do organismo, tais como a lei da gravidade, a inércia, etc., às mais altas manifestações da natureza humana. A verdadeira metafísica é a do cocô, conhecer o que acontece com o alimento, desde a fulgurante chegada até sua esplendorosa saída, deve ser o objeto da ciência do futuro. É na escatologia que encontraremos a arqué.
Postado por Marcelo Rota em 11:00 PM | Comentários (2)
julho 28, 2004
RESENHA
Estava pensando em escrever resenhas sobre livros que não li porque não gostei das resenhas elogiosas que li sobre eles. Vocês acham que seria muita canalhice? Que seria, eu sei, pergunto se seria muita. Adianto que, sendo ou não, não é desprovido de critérios científicos que me lanço na empresa, pois tenho esta tese, ainda a defender, que resenhas positivas ruins são o retrato da peça resenhada.
Postado por Marcelo Rota em 7:49 PM | Comentários (15)
AÇSDASÇLDASLD
Estou com blogueio. Tenho escrito de tudo nos mais diversos meios: listas de discussão, fóruns, emails, recados telefônicos, bilhetes eróticos, mas quando chego aqui no quadrado de publicação do MovableType, o único assunto que me vêm à mente é o da falta de, desesperado clichê de cronistas remunerados. É apenas porque sou gratuito que me permito o lugar-comum.
alksdjhaskjdhaskdjhasdkjahdkajsh
Vão se fuder vocês que evitam os clichês, que sempre tentam achar para o substantivo um adjetivo jamais usado para qualificá-lo, compor metáforas inusitadas, formular frases fresquinhas e descobrir temas insólitos (ou comuns contados de uma perspectiva in-).
[suspiro]
Agora, mais calmo, continuo: até falar que sob o sol nada há que já não tenha havido é tão velho quanto pessimistas citando o Eclesiastes.
alksdjhaskjdhaskdjhasdkjahdkajsh
Certa vez, durante longa viagem de carro, inquieto com o tédio, interrompi o silêncio reinante (olha que clichê bonito) para pedir para contar uma estória. Esta: "Esta é uma estória chata e repetitiva, era uma vez uma história chata e repetitiva, chata e muito repetitiva, era tão chata e tão repetitiva..." E as pessoas riram.
De repente o parágrafo anterior pareceu-me ser um daqueles que pedem uma conclusão.
Certa vez, durante longa viagem de carro, inquieto com o tédio, interrompi o silêncio reinante (olha que clichê bonito) para pedir para contar uma estória. Esta: "Esta é uma estória chata e repetitiva, era uma vez uma história chata e repetitiva, chata e muito repetitiva, era tão chata e tão repetitiva..." E as pessoas riram. A diferença entre a vida e a minha estória está em que só esta tem graça.
alksdjhaskjdhaskdjhasdkjahdkajsh
Mas talvez não. A vida é uma piada cuja punch line é a pá de cal que jogam sobre as nossas cabeças. A graça está em os espectadores da solenidade não rirem porque sabem que serão os próximos. Quem sabe que será o próximo não ri por último.
"Ok, ok, mas agora seja otimista!"
Tá: o pessimista fica otimista sempre que lembra que um dia isso tudo vai acabar; o otimista fica pessimista pela mesma razão.
Postado por Marcelo Rota em 7:44 AM | Comentários (4)
julho 26, 2004
Australopithecus africanus
Às vezes sente-se dissolvido na humanidade, ou no Projeto Humanidade, e então vai bem além de suas limitações como indivíduo, dos seus cinquenta anos, mais uns trinta que ele estima ainda ter pela frente, das pequenas coisas que já fez, das outras ainda menores que talvez possa realizar no que resta. Nestes momentos sente-se, no mesmo sentido em que o formigueiro é uma formiga gigante, como O Grande Indivíduo, nascido há dois milhões e quinhentos mil anos nas savanas africanas.
"Olha só o que me tornei!", diz diante do rosto no espelho. E lembra da savana, da Grande Era Glacial, das migrações, dos Pirineus... "Eu sou muito foda. What a piece of work is man!"
"Olha só o que me tornei!", diz de novo, depois de se lembrar, triste, que desde os quarenta que o seu esperma não vinha mais na mesma quantidade e consistência de antes, aos vinte, quando ainda não existiam computadores, ele ainda não havia casado e não tinha amantes, como a que deixou na cama para ir ao banheiro. "And yet, to me, what is this quintessence of dust?"
Postado por Marcelo Rota em 6:11 PM | Comentários (2)
GROUCHO, KARL AND BURLE MARX ARE DEAD

Título alternativo: "Não me enterrem em um campo de golfe."
Postado por Marcelo Rota em 9:03 AM | Comentários (0)
DA ARGENTINA
eu gosto do futebol, de vencê-lo, de Borges, de Piazzolla e da múmia de Evita Perón.
Postado por Marcelo Rota em 5:53 AM | Comentários (2)
FONTE
Tenho tido dificuldades de ler o que escrevo desde a mudança de layout. Dificuldades óticas, claro, as de interpretação sempre existiram. A resolução aqui é de 1024 X 768. Caso tenham conseguido ler este, peço feedback.
Postado por Marcelo Rota em 5:49 AM | Comentários (16)
julho 24, 2004
OS MÓRMONS
Tenho o hábito das previsões de humor. Assim ó: todos os domingos eu escrevo em fichas, que tenho preparadas para este fim, as predições dos dias da semana. É uma técnica de disciplina mental difícil e importante. Com o passar do tempo, você acaba... não "acertando", esta não é a palavra correta, mas cumprindo tudo o que prevê. Faço isso desde os vinte anos e, só para exemplificar, há cinco, no dia em que meu pai morreu, uma quinta-feira, a ficha marcava "alegria e extroversão". Minha irmã, desde então, nunca mais falou comigo.
Postado por Marcelo Rota em 9:01 PM | Comentários (0)
ASDLASDLASDÔ
Eu queria escrever um post sobre Nietzsche. A minha sorte é que a sonolência me faz desistir. Que gosto da prova da inexistência de Deus do Bigode, que, diga-se entre parêntesis, é como é conhecido o pipoqueiro aqui da praça. Sempre interessantes estes apelidos metonímicos, como topete, cicatriz, dentinho e orelha. É como uma caricatura onomástica, na qual a parte vira o todo. Acho que,se tivesse um assim, seria __________. Não vou contar para vocês.
Mas que gosto da prova do Bigode, gosto: se deuses existirem, como poderia suportar não ser um deles? Logo, deuses não existem. O melhor do humor alemão está em Nietzsche. O pior em Kant.
Não ficam vocês ocasionalmente cansados com o que, principalmente a modernidade, legou-nos, o uso de palavrinhas como "por consegüinte", "logo", "portanto", "se ... então", etc? Como pode ser nauseante a cultura ocidental e a racionalidade com respeito a fins! (Olha, até usei uma exclamação, tão raro quanto o uso de reticências....). O Bigode gostaria de retroceder ao mito ou, dito de outra forma, "ao gosto porque sim", "não porque não", "concordo porque é bonito", "dis- porque é feio", que é toda a argumentação que as criancinhas sabem, com a diferença de terem um senso estético dos piores com muito lugar para luzes, brilhos e cores chamativas.
Os mórmons
Postado por Marcelo Rota em 8:58 PM | não há nada além | Comentários (0)
ASLD
Sobre o sofá sob cobertas deitado a ouvir os caprichos de Paganini por Eliot Fisk, assim foi boa parte do dia. Já contei, mas repito, porque aprendi a me repetir com a música, e que sempre é possível fazê-lo uma oitava acima ou abaixo, alterando a dinâmica ou o tempo, etc. O que iria contar mesmo? Ah sim, que certa vez vi um maniflautista mendigo. Mendigo sabem o que é, mani- talvez alguns não, então para estes explico que é só a pessoa que consegue emitir sons de flauta com o uso das mãos. Viram, burraldos? Bastava ter quebrado a palavra e pimba.
Do Paganini diziam que ele havia firmado contrato cuja outra parte era o canhoto, apenas para tocar violino melhor do que todo mundo, pfui. Vi um filme ruim, acho que o nome é ´o violino vermelho´, no qual um sucedâneo do Paga, dandizinho, dandizinho, dá golpes de arco enquanto faz sexo com moça ruiva, mostrando coordenação motora demoníaca.
O mendigo que vi não havia feito pacto com, mas era o próprio. Ele tocava o vigésimo quarto capricho e me olhava com olhos vermelhos, daqueles de quando a foto fica ruim. É uma pena, realmente uma pena não se acreditar que existam almas, pois, então, só pude dar-lhe uma moedinha de cinco centavos.
Postado por Marcelo Rota em 11:50 AM | Comentários (1)
julho 23, 2004
SAÚDE
Sou um homem doente, sou um homem muito doente. Bilioso, toda manhã excreto três mililitros de esplim. Bebo tudo de um só gole, arroto e saio para trabalhar.
Postado por Marcelo Rota em 6:43 PM | Comentários (0)
julho 22, 2004
LAYOUT
Novo. Quem fez foi a Olívia, aqui com acento só para ela reclamar. E ficou a coisa mais fofa deste mundo. Sempre quis ter um blog de menininha. A minha filha, quando ver, vai ficar com inveja.
Agradeçam à Olivia, aqui como é o certo para que ela não reclame mais. Eu já agradeci.
Postado por Marcelo Rota em 7:36 PM | Comentários (6)
SOBRE O ABAIXO
É mais um post sobre o tempo, mais um repost, porque estou quase sem nenhum, a não ser estes minutinhos aqui gastos. Foi meu eu de 2001 quem o escreveu. Como, desde então, muitas células já morreram e foram substituídas por outras, tanto aconteceu, muitas coisas li, outras tantas esqueci, fora as que lembrei, não sou responsável por ele. Eu sou o eu de 22 de Junho de 2004, 19:31.
Postado por Marcelo Rota em 7:32 PM | Comentários (0)
EGOCÍDIO RECURSIVO (REPOST)
(...)
Tava aqui neste computa dati dati lografando alguma coisa quando, no meu ombro sinistro, senti dois toques esquerdos, tap tap. Virei pra esquerda, mas quem me cutucava estava mesmo à minha direita. Essa de cutucar o ombro oposto ao lado em que se está é velha, porém sempre pego meus amigos assim.
Era eu, eu mesmo, quem me cutuquei. Depois da perplexidade paralisante e natural dos momentos iniciais pude compreender o que ocorrera. Eu, com quatro anos a mais do que tinha naquele momento, havia entrado numa máquina do tempo com o objetivo de encontrar-me comigo. Entretanto, não era só isso: eu também queria que eu me matasse, proposta que eu não poderia aceitar.
Eu estava muito triste e ver-me assim tão triste me fez ficar tão triste quanto eu estava. Falei que podia ter poupado tempo e máquina se tivesse usado os métodos tradicionais de suicídio. Mas não: quis, não sei se por falta de coragem ou por excesso de curiosidade, voltar ao passado e pedir-me para suicidar-me. Expliquei-me que não dava, pois era um paradoxo. Mas de nada adiantaram minhas explicações, pois eu logo retruquei que ali estava com uma arma apontada para mim e que nada, nem mesmo a mais flagrante das antinomias, poderia impedir-me de pressionar o gatilho. E então concordei comigo. Entreguei com a mão esquerda a arma para a minha mão esquerda.
Com efeito, não houve paradoxo que interrompesse a bala na sua rota: perfurou o meu crânio para chegar ao encéfalo e alojar-se em algum ponto do lobo occipital. Morri. Contudo, não sou um autor defunto, nem defunto autor. Vivo. Tanto que estou aqui dati dati lografando alguma coisa quando, no meu ombro sinistro, senti dois toques esquerdos, tap tap. Virei pra esquerda mas quem me cutucava estava mesmo à minha direita. Essa de cutucar o ombro oposto ao lado em que se está é velha, porém sempre pego meus amigos assim.
(...)
Postado por Marcelo Rota em 7:26 PM | Comentários (0)
julho 21, 2004
GULLIBILITY
Roubei de uns ateus.
Postado por Marcelo Rota em 4:19 PM | não há nada além | Comentários (8)
AAKDAKSDKASKDKD
Tenho insônia. Pior do que ter uma, é tê-la não tendo ansiolíticos disponíveis na gaveta. Resulta disso sabem o quê? Um post.
Como é bom ver a alvorada chuvosa: os trabalhadores saindo de suas caixinhas e, com guarda-chuvas, dirigirem-se ao metrô, aos ônibus e a todo os meios que lhes possam substituir as pernas no trajeto até o trabalho. É o Brasil, cujo pib aumenta, produzindo e florescendo.
Estou tão otimista. Sabem quando a gente não dorme e fica assim cheio de futuro? Acho que vou até a praça chutar pombos.
Postado por Marcelo Rota em 7:07 AM | Comentários (2)
julho 20, 2004
URGH
MICHAEL JACKSON SERÁ PAI DE QUATRO, diz a manchete. E imaginei bebês saindo-lhe do reto.
Postado por Marcelo Rota em 11:47 PM | Comentários (3)
MAS É VERO
Ninguém precisa acreditar que lá no condomínio dos meus pais em Petrópolis há uma casa com uma plaquinha em cuja inscrição lê-se: "Propriedade é roubo".
Postado por Marcelo Rota em 9:11 PM | Comentários (5)
julho 19, 2004
ASDLASLDAS
Ontem, dois amigos trocavam socos. Fui separar e levei outro. O mais ensangüentado gritou: "A gente só tava jogando RPG, porra!"
Postado por Marcelo Rota em 11:04 PM | Comentários (3)
ASLDALSDLASDL
O Efeito McGurk.
Postado por Marcelo Rota em 2:42 AM | Comentários (1)
julho 17, 2004
MOZART E CÉSAR,
o negócio é o seguinte: eu acho vulgar iniciar uma frase com ´o negócio é o seguinte´, coisa de ´quem chama na chincha´, típica de traficante ou de executivo de multinacional, isto em primeiro lugar.
Eu não acredito em Deus. Mas o Einstein disse que pro futuro dá pra viajar (aliás, a cada dia eu viajo durante o dia inteiro para um outro, para o futuro, o dia seguinte). Gödel disse que até pro passado dá pra ir (e eu também vou sempre, lembro de tudo o que fiz ontem). Também não acredito nem em Gödel nem em Einstein. Como diria o João Lennon, eu só acredito em Yoko e em mim. Porém, tampouco acredito em Lennon. Nem em Mcartney.
Ficou feio este post. Parece plataforma eleitoral de niilista.
Postado por Marcelo Rota em 5:52 PM | Comentários (4)
BILHETE
Estou sem tempo, preciso escrever rpdo. Tenho que sair agora, na volta eu te conto o que aconteceu. beijos.
Postado por Marcelo Rota em 5:36 PM | Comentários (0)
julho 15, 2004
GENOCÍDIO
Se eu fosse um suicida que possuísse uma máquina do tempo e, além disso, cresse na bíblia, bom, eu mataria Adão recém-nascido do barro divino. Adão, o culpado de tudo, inclusive pela minha geração e, portanto, pela sua própria morte. O seguinte argumento não é considerado aqui: se Adão tivesse sido morto antes de procriar, eu não teria nascido e, ergo, não o teria matado.
("Culpadão", drogadilho registrado para uso futuro)
Postado por Marcelo Rota em 9:47 PM | Comentários (11)
ASDASLDASDL
A preguiça faz o epigramatista.
Postado por Marcelo Rota em 9:28 PM | Comentários (0)
ADLASDALDALD
Minha única dificuldade com "Em Busca do" de Proust é a de não ver nenhum drama no fato de Albertine, linda, gostar de mulheres lindas.
Postado por Marcelo Rota em 9:27 PM | Comentários (2)
PARRICÍDIO
Se meu pai tivesse me colocado ´júnior´ no nome, hoje seria um homem morto.
Postado por Marcelo Rota em 9:23 PM | Comentários (1)
julho 14, 2004
ASDLASDADLA
Acabei de ver Farenheit 9/11. É um comercial televisivo de duas horas de duração. Só fiz isso porque me pediram. Foi uma troca: você assiste a "Da Vida das Marionetes" do Bergman comigo que eu vejo o Moore com você. Foi ruim para os dois.
Postado por Marcelo Rota em 4:00 AM | Comentários (7)
julho 13, 2004
ALSKDJALKJD
Vou linkar só porque o portuga gosta de Rohmer. O link está no ponto que você acabou de ultrapassar.
Postado por Marcelo Rota em 8:59 PM | Comentários (0)
julho 12, 2004
CONTO PORNÔ COM FOG
Eu trabalhava como salva-vidas na Praia das Meninas Nudistas de XXX. Espécie de resort íntimo de XXX, manda-chuva da República de Costaguana, só entrava nos domínios da Praia quem ele permitisse, ou seja, quase ninguém. Eu, com efeito, era, além de XXX em suas visitas ocasionais, o único homem da Praia. Localizada num recôndito da Península de Sulaco, a expressão que a descreve com mais precisão é “O Auschwitz Edênico”. O oximoro é justificado quando consideramos, de um lado, os muros, o arame farpado, as guaritas e soldados ao seu redor, e, de outro, a beleza de suas banhistas e suas águas transparentes. Transparentes. É importante repetir porque normalmente este qualificativo é empregado retoricamente para descrever águas que, a rigor, são translúcidas. As da Praia, contudo, são exatamente como o céu, um céu com peixes, algas e anêmonas ornamentais. Portanto, a frase “as meninas nudistas nadam no céu” é verdadeira.
***
Sylvia Saint, Zhang Ziyi e Amanda Langlet, estes os nomes das náiades d´El Presidente. Eu, bonito, delicado e prestimoso, era querido por cada uma delas. Ainda que tivesse esta função inconveniente e difícil, a saber, de evitar que surgisse entre elas qualquer traço de gomorrismo. XXX tinha princípios morais estranhos. E inflexíveis: notasse durante os seus contatos com as garotas qualquer indício de que estavam desenvolvendo uma natureza gomorriana, seriam mortas. Eu também, mas antes ainda vivenciaria castigos pavorosos.
***
O verdadeiro inferno é viver no paraíso e, por falta de meios, não poder desfrutar de suas benesses infinitas. Como um Borges, cego na biblioteca, assim era o martírio de Eu.
Falam dos jejuadores que, depois de um certo período de privação, deixam de sentir fome. Não funcionava assim com ele: Eu nunca deixava de sentir desejo.
***
Em um caixote de areia envidraçado coloque uma formiga inquieta. É possível que em vinte e quatro horas o trajeto das suas pegadas na areia corresponda ao traçado de um dos caprichos de Goya. Há os conhecidos chimpanzés shakespearianos que, com suas máquinas de escrever e datilografia randômica, são possíveis dramaturgos. O vento uivante, um possível compositor. E talvez o vidro da janela não seja estilhaçado pela pedra que o atinge, que, então, atravessar-lhe-ia como se fosse uma cortina d´água.
***
Então veio o câncer. Ou seja, as células de Eu iniciaram um processo de replicação desordenada. No primeiro mês apareceu como uma discreta disfunção anatômica. No seguinte, como uma intumescência com tendência a verticalização. E ia ficando cada vez mais indiscreta. Eu realmente deveria chamar o médico. Era o que ia fazer quando teve o insight e desistiu, maravilhado.
***
Dois anos mais tarde um médico de Costaguana descreverá o fenômeno de Eu em um artigo publicado em Archivos de Oncología como um “caso jamais visto de regeneração casual através de um exo-teratoma”. Miraculoso exo-teratoma. Mais ainda porque era funcional, perfeitamente funcional e, como o que existia antes do terrível recrutamento como salva-vidas da Praia, tinha a conveniência de ser retrátil.
***
Brilhante, úmida, cálida, elétrica, túrgida e ácida, estas foram algumas das palavras que Eu usou em um poema dedicado a Zhang Ziyi, sua preferida agora que era livre, finalmente livre para qualquer coisa na Praia das Meninas Nudistas de XXX. Preferência que logo foi causa de inveja das outras duas, Amanda Langlet e Sylvia Saint. Pior, aproximou-as daquele modo que XXX jamais permitiria.
***
Não é necessário contar o final da história: que XXX descobriu tudo, que as meninas foram guilhotinadas e Eu também, só que duas vezes.
Postado por Marcelo Rota em 9:40 PM | concupiscíveis | Comentários (2)
ADLADLADASL
Vejo em O Globo a manchete "Um ex-punk com medo de envelhecer". É o Morrissey. Céus, eu gostava de Smiths quando tinha quinze. Aos vinte e poucos, quando comecei a ficar um tanto apreensivo com a decadência celular, deixei de gostar. Agora, com 31, já estou velho o suficiente para não me preocupar mais. Sou como Hobbes, só tenho medo da morte súbita. Mas a Fifa já acabou com isso.
O Morrissey já tem, quanto? Quarenta e seis, dizem-me. Deveria preocupar-se com outras coisas, como em morrer sem herdeiros. Rock só é juvenil quando se é jovem, com mais de vinte e dois já é retardamento.
Postado por Marcelo Rota em 7:24 PM | Comentários (0)
julho 10, 2004
(1b) A I O U
"O Desaparecimento" é aquele romance de Perec cuja celebridade se deve em grande parte à pirotecnia, maravilhosa mas ainda assim bem piro-, de escrever uma ficção de cerca de trezentas páginas sem usar a letra ´e´, a mais comum em francês.
Postado por Marcelo Rota em 3:23 PM | pirou no perec | Comentários (0)
(2b) ASLDASDLASL
Eu detesto ser didático. Fico sempre pensando nas pessoas que já sabiam e como ficaram maçadas com a explicação dispensável e ofendidas com a suposição de que não sabiam. Pedagogos dizem que não se deve dirigir a aula nem ao melhor, nem ao pior aluno. Logo, as aulas devem ser destinadas aos medíocres.
O autodidatismo é a solução. O magistério deve ser substituído pelo google.
Postado por Marcelo Rota em 3:23 PM | pirou no perec | Comentários (2)
(3b) L´AFFAIRE DU ´E´ APPARU DANS "LA DISPARITION"
A edição mais recente do livro, da Gallimard, foi um escândalo para perequianos do mundo inteiro. Em 14 de outubro de 2003 um maluco encontrou, como quem acha vestígios de sêmen na batina papal, a primeira instância da letra maldita na página 119. No original era ´dormait´ e não o ´dorme´ da nova edição. Depois desta descoberta, a Association Georges Perec organizou um esforço coletivo de caça aos ´e´. Foram localizados mais dois antes que a Gallimard tirasse de circulação os exemplares.
Postado por Marcelo Rota em 3:22 PM | pirou no perec | Comentários (0)
(4b) HOW SMALL A THOUGHT IT TAKES TO FILL A WHOLE LIFE
Perec adora ofícios insólitos e obsessivos. Lembro de um personagem cuja função era a de extirpar palavras que haviam caído em desuso e que não precisavam figurar nas novas edições do principal dicionário da língua francesa. Era um assassino de palavras, um logicida. Trabalhava diariamente a pesquisar estas palavras hipotrofiadas e a conceber critérios que lhe permitissem selecioná-las. Os perequianos caçadores de ´e´, pessoas que passam a vida a pesquisar, escanhoar, pentear um autor, têm um ofício assim, estranho e monomaníaco.
Postado por Marcelo Rota em 3:21 PM | pirou no perec | Comentários (0)
(5b) O CLITÓRIS DE EPICURO
Há, inclusive, a hipótese de que tudo tenha sido um clinamen. Sabe o clinamen de Epicuro? Eram os desvios espontâneos dos átomos que os retiravam do movimento retilíneo vertical, garantindo, assim, o novo e o acaso a um mundo que, sem isso, seria determinístico e repetitivo. Perec escrevia segundo restrições, regras linguísticas auto-impostas, como a do lipograma em ´e´. Entretanto, dizia que às vezes, de modo arbitrário, introduzia exceções à regra apenas para evitar a sua repetição exasperante e causar um ar de espanto no leitor. É possível que tenha, em acordo sorrateiro com seus editores, determinado que em edições póstumas fossem pingados ézinhos só de sacanagem. É possível.
Postado por Marcelo Rota em 3:20 PM | pirou no perec | Comentários (0)
(6b) ASDKJADKAJDA
La Disparition foi escrito em 68. Sim, aquele ano. Perec, mestre da disciplina e da paciência, comprometeu-se consigo mesmo a trabalhar no livro oito horas por dia em um ritmo de seis linhas por hora. Outra contrainte.
Postado por Marcelo Rota em 3:20 PM | pirou no perec | Comentários (0)
julho 9, 2004
ASDLASDADAL
Durante a madrugada passada, um bêbado relativista na praça. Eu não sei imitar bêbado, nem por escrito, mas ele dizia coisas como: "Cada um com seu cada um, eu tenho a minha opinião, entendeu? É minha opinião... E você tem a sua opinião." Bem no centro da praça, três da manhã, deve ter acordado alguém dos prédios em volta. Algum dos meus vizinhos, absolutista, chamou a polícia. O relativista, ao ver o PM estacionando e depois saltando do carro, dirigiu-lhe vários "vai pro inferno!". Entre parêntesis, achei notável que suas imprecações não tenham utilizado um só palavrão.
Talvez nem todos bêbados sejam relativistas, mas todos os relativistas são.
A frase anterior terminou de maneira ambígua. Alguém pergunta:"São o quê: relativistas ou bêbados?" Outro responde: "Claro que bêbados!".
Postado por Marcelo Rota em 7:35 PM | Comentários (8)
ADASDADADASDAD
Estou traduzindo interfaces de software. Passei o dia a escrever coisas como "Tem certeza que deseja continuar?".
Eu nunca sei se devo continuar. Fico nervoso quando me perguntam. Não respondo nada, o que é uma maneira de continuar. O Sílvio Santos: "Você tem certeza disso?" A voz interior é uma interface de software.
A Lia Luft falou que todos temos um Picasso dentro de nós. Coisa feia para se dizer. Por isso que não digo que há um SS versão homúnculo no interior de cada um. Digo só da interface.
Descartes, em busca da primeira certeza, esbarra no cogito. "Você tem certeza disso?", pergunta o Sílvio interior do francês, agora em versão malin génie.
Não, eu não quero continuar.
Postado por Marcelo Rota em 12:23 AM | Comentários (4)
julho 7, 2004
O MENOR CONTO DO MUNDO
Certa vez estava numa livraria em Madri, quando alguém ao meu lado perguntou em voz alta ao proprietário: “Como é mesmo o nome do autor do menor conto do mundo?”. O proprietário não apenas disse: Augusto Monterroso, mas falou prontamente o conto: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Ruim, pensei. E, para piorar, não é o menor conto do mundo. Este pertence ao Marcelo Rota, um amigo, que uma vez, durante uma festa, leu-o para mim.
Marcelo Rota é o menor escritor do mundo. Confidenciou-me que, todavia, durante dez anos dedicou-se a escrever o maior romance de todos os tempos. “Maior tanto no sentido quantitativo, quanto no qualitativo”, acrescentou. Já estava com algo em torno de cem mil páginas, quando, mudando subitamente de idéia, considerou aquele um projeto absurdo. E resolveu então fazer algo mais absurdo ainda: resumir o seu romance, que, se bem me recordo, tinha o título de “As Bergamotas de Bambuí”, do modo mais sucinto possível, cortando tudo o que não fosse estritamente necessário para a narrativa. Mas o que o levou a esta mudança inexplicável da prolixidade total para a concisão extrema?, perguntei-lhe. A brevidade da existência é mais importante do que a imensidão do universo, respondeu. O fato é que conseguiu que uma rede de restaurantes de comida chinesa publicasse a sua obra nos biscoitos da sorte. E isso acabou por lhe garantir o título de Menor Escritor do Mundo.
Foram cinco anos editando, cortando, mutilando, enxugando o seu grande romance. Esta prática, ele a chamava de “lipo-escritura”. No final do quarto ano, o resultado do seu trabalho havia sido
Nasceu e morreu.
Não satisfeito ainda, achou que poderia colocar no lugar da conjunção ‘e’ uma vírgula:
Nasceu, morreu.
Entretanto, achou pleonástica esta fórmula; afinal, para morrer é preciso necessariamente ter nascido. Então, apagou o nascimento:
Morreu.
Seu último ato foi a exclusão do ponto final, pois avaliou que a morte já seria o próprio ponto final:
Morreu
Eis então o menor conto do mundo. Certamente é menor do que o do Monterroso. Provavelmente também melhor, pois, enquanto o do espanhol lança uma frase que supomos desconectada de uma narrativa maior que a contextualizaria e explicaria, o do Marcelo não, já é uma narrativa completa e auto-suficiente. Além disso, se o objetivo da literatura é o universal, o microconto dele capta no seu escopo todos os seres humanos, ou melhor, todas as criaturas. Não fica nada de fora. É toda a arte que a humanidade produziu em apenas uma palavra. Aliás, o Marcelo não gosta que chamem sua obra de conto, pois, segundo ele, é um romance, sempre foi um romance. Era quando tinha cem mil páginas e continua sendo depois que, resumido, passou a ter apenas uma palavra de seis letras.
Postado por Marcelo Rota em 2:25 PM | não há nada além | Comentários (24)
julho 6, 2004
LDFSDLFSL
Desde que mudei para cá, o MovableType me oferece a possibilidade de distribuir os posts em categorias. Nem a modesta biblioteca com que divido este ambiente consigo organizar.
Sim,
... este ´sim´, diga-se entre parêntesis, é uma resposta ao meu senso de detalhe, que pede que a inclua na descrição. Inclua quem? Vocês vão saber na continuação.
Sim, há ainda uma ave na sala, uma calopsita, macho, o Barbosa. Ornitólogos não sabem se incluem as calopsitas na família dos psitacídeos ou na dos cacatuídeos. Milhares de papers são escritos todos os anos a respeito da controvérsia. Por isso os livros todos nas prateleiras recebem a mesma etiqueta: fait divers.
Uma coisa há mais idiota do que distinguir o idêntico: depois de feita a distinção, pôr-lhes a mesma etiqueta.
Organizar os posts é dar-lhes uma importância que não têm.
O Gênesis mostra-nos o primeiro ensaio taxonômico, o ímpeto burocrata de Deus ao separar o dia da noite, o céu da terra, a mulher do homem, e vai indo até chegarmos aos livros. Mas no princípio o mundo era apenas isso mesmo, fait divers.
O quadro na parede está ligeiramente torto. Vou lá e ajeito. A toalha de mesa, há uma dobra nela. Aliso. Penteio os cabelos, estes fios todos vão para a esquerda. É preciso passar a impressão de organização, engomar as roupas com que se vai ao trabalho ou ao casamento. As pessoas não respeitam quem não tiver um mínimo de taxonomia. Espontâneos são os mendigos e os náufragos.
Postado por Marcelo Rota em 9:17 AM | Comentários (2)
julho 5, 2004
EUROCOPA
Queria falar dos gregos, mas o problema é driblar trocadilhos como ´caixa de pandora´, ´gregos no olimpo da Eurocopa´ e ´presente de no Estádio da Luz´.
Cessem do sábio grego e do troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta
mais alto do que o Costinha e cabeceia para marcar o golo.
Postado por Marcelo Rota em 2:42 PM | Comentários (3)
julho 3, 2004
FESTIVAL INTERNACIONAL DE INVERNO
de Campos do Jordão, acho que é o trigésimo quinto. A OSESP apresenta a Quinta de Mahler. O problema da osesp é o número absurdo de violi e violoncelistas gostosas. Nos sopros, nenhuma, mas o que há nas cordas já é suficiente para desviar a minha atenção de Mahler. Este é o problema da osesp.
Postado por Marcelo Rota em 11:32 PM | Comentários (4)
julho 2, 2004
ASDLASDLADAL
Queria ser um Atlas, o mundo girando sobre o indicador como bola de basquete. A mão desocupada no bolso, um cohiba entre os dentes, enquanto os flashes espocam.
Mas o mundo é pesado como uma cruz, os braços amarrados a ela, coroa de espinhos, sangue. Vai andando, trôpego, enquanto os fariseus aplaudem.
Postado por Marcelo Rota em 4:26 PM | Comentários (3)
MICRO-MANIFESTO BATRACÓIDE
Se vai escrever um post, não o faça sem alguma anfibolia. Caso contrário, é certo de ser mal interpretado.
Postado por Marcelo Rota em 4:05 PM | Comentários (0)
ADLASDADLA
Os suplementos culturais online dão agora a notícia de que o ´músico do ls jack´ entrou em coma após parada cardíaca durante cirurgia de lipoaspiração. Dão também que o Marlon morreu, mas ainda não sabem a causa.
Estou torcendo.
Postado por Marcelo Rota em 4:00 PM | Comentários (0)
julho 1, 2004
A MORTE E A DONZELA
Outro dia, no contexto da SP Fashion Week, vi na TV uma midinette, uma destas que caminham sobre tablados, mas que ainda estava nos bastidores recebendo uma camada de maquiagem sobre a batata da perna direita. Ali naquele ponto havia alguma irregularidade cutânea, não sei se espinha, hematoma, arranhão ou ferroada de mosquito. Sempre bom ocultar estas excrescências que denunciam um corpo onde deveríamos ver apenas espírito.
A gargantilha, invençao renascentista, servia para esconder o ´colar de vênus´(marcas no pescoço e apanágio das sifilíticas). No meio destas, todas mundaníssimas, havia apenas uma donzela, herdeira não só da gargantilha da mãe. Também da doença. E o pintor apaixonou-se por ela. Retratou-a nua, sem gargantilha. Ao lado, aquela figura que todos conhecemos - mandibular, dentuça, tórax proeminente, costelas à mostra - segura uma ampulheta sobre a cabeça da moça.
Postado por Marcelo Rota em 9:13 PM | não há nada além | Comentários (4)