junho 30, 2004
RETOMADA DO INTERROMPIDO NO ANTERIOR
Além do mais, ateus são torcida do América, cabem em uma van, daquelas que fazem o trajeto Centro-Barra. Caso a van saia da pista da Av. Niemeyer, que, aliás, é ateu e mora naquela área, e tome o rumo do oceano Atlântico, talvez alguns deles exclamem meu deus sem maiúscula, segundos antes da queda. Outros com, os que se arrependeram de coração no último átimo. Estes ascenderão, os outros des-. Mas este critério não é certo, também pode mudar, a depender da doutrina da graça a que se subscreva. São muitas e não sei qual delas é a verdadeira. Deus, caso exista, sabe, mas ainda não tive experiência mística em que ele me revelasse este ponto. Outras pessoas tiveram. Entretanto, disseram-na indizível. Eu também diria o mesmo se tivesse passado por uma. O mesmo que diria se não.
Postado por Marcelo Rota em 7:40 PM | não há nada além | Comentários (5)
junho 29, 2004
ARGUMENT CLINIC
O César imagina ateus agraciados, encostados em algum canto da eternidade, aquele reservado para os de sua espécie, crentes que existe uma explicação científica para estarem ali. É que o César é um homem bom, mas eu, se fosse teísta, seria vingativo e imaginaria os ateus todos danados, putos da vida e da morte, eternamente de dentes trincados entre labaredas.
E se fosse ateu, o que na verdade acaba sendo o caso na maior parte do tempo, não imaginaria, mas observaria a putrefação do corpo dos que crêem na alma. Este gênero de observação é sempre obsceno no seu contraste, algo como ver o asceta empanturrando-se em churrascaria rodízio. Só não me permito imaginá-los decepcionados ao não encontrarem, ou melhor, ao encontrarem nada depois do túmulo, por razões óbvias.
No cômputo geral, o ateu fica mesmo em desvantagem, já que tudo é uma partida de futebol e, caso o seu time saia derrotado, ele vai ser sacaneado pela torcida do adversário na saída do estádio. Entretanto, em caso de vitória da sua equipa, ele, ateu, não vai poder fazer nada. Além do mais, ateus são torcida do América, cabem em uma van, daquelas que fazem o trajeto Centro-Barra. Caso a van saia da pista da Av. Niemeyer, que, aliás, é ateu e mora naquela área, e tome o rumo do oceano Atlântico, bom, desisti do período, ficou longo demais, melhor interrompê-lo agora, como aqueles esquetes do Monty Python que, por serem "too silly", seus personagens abandonavam a gravação. O post do César, ao contrário, é conciso e bem melhor.
Talvez o materialista encontre algum consolo na efervescência de vida que sobrevém mesmo à morte: aquela bicharia toda a roer a carne cadavérica, como um sal de fruta na água. É lindo, é a vida depois da morte!, dirá o ateu. Ao menos o otimista, modalidade muito mais penosa e rara do que a do otimismo crente e do ateísmo pessimista.
Os mórmons, àquelas questões de achados-e-perdidos, de onde vim, para onde vou, você sabe, respondem algo do tipo: você, antes de nascer, já existia, apenas ainda não possuía o seu corpo físico, vivendo apenas no do espírito com o seu Heavenly Father. Entretanto, o Pai Celestial achou por bem enviá-lo ao mundo para que aprendesse mais, longe Dele, como a mãe guepardo abandona, depois de uma certa idade, seus filhotes na savana. E depois, deste período terreno de aprendizagem, seu corpo físico morre e seu espírito volta para as bancas escolares celestiais a fim de continuar sua jornada de aprendizado. Depois de mais algum tempo após a morte seu corpo irá novamente unir-se à alma. O nome disto é ressurreição, cuja possibilidade foi comprovada pela de Jesus Cristo.
Postado por Marcelo Rota em 3:26 PM | não há nada além | Comentários (8)
ENLACE ESPANHOL
Parece nome de manobra sexual ou, sei lá, imobilização de jiu-jítso. Mas não: apenas dois pontos, cada um com um link...
Postado por Marcelo Rota em 10:55 AM | Comentários (2)
junho 28, 2004
OS MICRO-, NÃO
Algumas coisas eu não sei, algumas não, muitas coisas não sei descrever. Por exemplo, quando, andando na rua com a minha filha, o seu indicador da mão entrelaçada à minha fica batucando levemente nas costas da minha mão.
Passeando, mãos dadas com a minha filha, o indicador da sua esquerda percute leve e repetidamente nas costas da minha. Talvez ela esteja marcando o ritmo de uma música que passa na sua mente.
A mão da filha busca a do pai para atravessar a rua. Enquanto caminham para a calçada, ela batuca com polegar, de modo suave, no artelho do indicador dele, como um funcionário público, por tédio, usaria o tampo da sua mesa como instrumento percussivo.
Quando a minha filha anda na rua comigo e, no compasso de alguma música mental, tamborila com os dedos nas costas da minha mão entretecida à sua, estes toques sempre fazem com que me sinta bem. Ganho um sentido de importância, mais do que a do chefe de estado saudado por trompetes e tímpano ao chegar ao local da cerimônia.
Andando de mãos dadas com a filha, assobia uma das melodias de Petruchka, feliz. Enquanto isso, ela, sem perceber, marca o compasso com o seu dedinho a percurtir nas costas da mão dele.
Crianças são distraídas. Recomendável aos pais dar-lhes a mão para cruzar a avenida. O sinal fecha e a menina de uns seis ou sete, enquanto caminha para o outro lado, vai dando toquezinhos com o polegar nas costas da mão de quem suponho ser seu pai. Apenas pela maneira como ela os dá, a atençao dispersa, quem sabe a reproduzir externamente a musiquinha, insuportável como todas as infantis, que toca na sua consciência. Apenas pelos toquezinhos é que faço a suposição de paternidade.
É fácil descrever estes grandes acontecimentos, como acidentes automobilísticos, ou a enxurrada carregando uma vaca malhada que minutos antes estava sobre o telhado da casa que ruiria. Os micro-, não.
Postado por Marcelo Rota em 2:10 PM | Comentários (2)
ASDASLDADALS
CEG é a instituição responsável pelo fornecimento de gás do Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte não há gás encanado. Ao menos não havia quando eu lá morava. Então todos os dias o interfone soava como um telefonema em horário maldito, o matutino, que pessoas como eu usam para sonhar que estão dormindo. Era a Supergasbrás tentando convencer-me de que eu precisava de um botijão novo. Momento de descerrar as pálpebras por um alguns instantes e pensar que era o homem do gás e depois voltar a cerrá-las. Conseguia dormir novamente, mas esta interrupção causava uma reviravolta na narrativa dos meus sonhos.
Mas aqui no Rio é encanado, é CEG. E resolveram fazer uma conversão em toda a cidade, não sei por quê. Minha última conversão havia sido a do jansenismo.
Os mórmons, que se denominam Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, foram importantes na colonização do oeste americano. Então, em meados do sec XIX, sua grande manobra de marketing era a aprovação da poligamia. Muitos adeptos vieram através desta chamada. Hoje em dia, não mais: o membro que for pego na prática do casamento plural, será excomungado como o do eunuco.
E só estou escrevendo este post por causa da conversão para a qual a CEG intimou todos os seus usuários. O interfone já tocou mais vezes do que eu seria capaz de ignorá-lo. E começaram a sobrevir à mente morfética pensamentos de " e se ficarmos sem e condenados a viver no inferno dos sem fogão?" E então o folêgo do sono foi embora.
Quero perdir desculpas a todos os mórmons, todos monogâmicos, que me lêem desde Utah.
Postado por Marcelo Rota em 10:12 AM | Comentários (2)
junho 26, 2004
IDEÔMETRO
A velocidade do pensamento é importante: se você pensa devagar demais ou rápido demais, você é louco.
Postado por Marcelo Rota em 11:37 AM | Comentários (5)
junho 25, 2004
OSICRÃ ROMÃ
Assim como na dimensão estritamente biológica todos buscam o estado de satisfação, por exemplo, da fome, da libido, da excreção, do sono, etc, ele, na moral, busca o estado de amor. Não, não ´amor´, palavra constrangedora que me dá ânsias de escrevê-la ao contrário e com til: ´romã´, só para não ter de vômito ao dati dati lografá-la escorreitamente.
Não de ´amor´, mas de ´romance´, esta insatisfação satisfeita, esta [série de oximoros camonianos]. Ele não ama veridicamente. Apenas ama a sensação de estar apaixonado e vai substituindo um objeto por outro, arte que requer grande astúcia psicológica, posto que chama, ou melhor, posto que produzida artificialmente e o coração condena tudo o que não seja espontâneo. Mas o seu artifício é espontâneo, outro oximoro camoniano.
Ele não ama. Ele apaixona-se apenas pelo apaixonar-se dela por ele. Gosta de caminhar pelas ruas na ausência dela e sentir que ela gostaria de vê-lo agora. Então, o seu andar modifica-se imperceptivelmente, perceptível apenas para ele próprio. Sente-se meio gay. Corrige, de modo igualmente subliminar, as passadas. Pigarreia. Sorri de si para si: "Como ela gostaria de me ver agora, de estar comigo!"
Postado por Marcelo Rota em 8:30 AM | concupiscíveis | Comentários (10)
junho 23, 2004
IDENTIDADE DE GRUPO
Seres humanos são classificados segundo a roupa e o corpo que usam. Eu sou do tipo que usa óculos de grau e bermudas. Agora estou usando uma laranja que minha esposa detesta. Além disso, não pratico exercícios físicos, a não ser o de dançar Petruchka de Stravinski com a minha filha de dez anos, de acordo com coreografia que improvisamos. Bebo coca-cola e fumo. Companheiros entre si e meus, o cigarro e a coca-cola, jamais ficamos distantes uns dos outros. As unhas são roídas, cutículas arrancadas.
Deleuze era do gênero que jamais as roía. Nem cortava. Quando pulou da janela do seu apartamento para a morte e para uma calçada do 5ème Arrondissement de Paris, as unhas, extensas como um período proustiano, permaneceram intactas. Mais tarde, seriam cortadas pelo legista. Mais tarde ainda, queimadas em ritual por um grupo de ex-alunos liderados por Charles Parnet. O pó resultante da queratina carbonizada, agora guardado em uma urna rachada na cozinha de Parnet, será utilizado no confeito do bolo que celebrará a primeira efeméride deleuziana.
Gilles Deleuze, além de pertencer ao grupo dos que não cortam as unhas, junto com Zé do Caixão, faz parte ainda do dos suicidas. Este, por sua vez, possui diversas subdivisões. Em uma destas está Deleuze, quietinho, olhando para as falanges, esperando que as unhas cresçam, mas elas jamais crescerão. Ele está na cela dos suicidas por defenestração, do francês "fenêtre", janela.
Os mórmons só batizam os rebentos em seu oitavo ano de vida. Antes disso, contudo, quando acabam de nascer, passam pela cerimônia denomi-
Acho que já falei dos mórmons esta semana. Os bebês aborígenes, envoltos em pano vermelho, são suspensos pela avó materna sobre uma pequena fogueira de ramos e folhas de arbustos da região. Assim, através da fumaça que os intoxica, recebem a benção da mãe-terra. Cristãos em Burgos, no norte da Espanha, em ritual que marca a ordem infanticida dada por Herodes I, rei da Judéia, enfileiram bebezinhos em um pano estendido no chão da rua. Um homem com vestes de arlequim toma distância, começa a correr a fim de saltar sobre eles como naquele stunt em que o motociclista voa sobre uma fileira de caminhôes scania. Recém-nascidos judeus, este todos sabem, têm o prepúcio cortado. No Cairo, neste momento, uma adolescente também tem extraído o seu prepúcio. Só que do clitóris, claro. Muçulmanos turcos esperam até a idade de sete anos para que os meninos passem pelo sunnet. Desta maneira, dói mais e as marcas na memória, indeléveis. Os wunderblogueiros também têm seu rito iniciático. Não posso contar, todavia. A não ser que você clique no link que estenderá este post.
Não. Mas clique no pontinho para ver o seu tipo humano .
Postado por Marcelo Rota em 1:20 PM | não há nada além | Comentários (3)
junho 22, 2004
SEM PHOTOSHOP
Aliás, a sugestão de ver sempre o lado bom da vida, se deixarmos qualquer pythonismo de lado, não concordo com ela. Digamos que eu seja o J. R. Duran e a vida, a Juliana Paes. Então, querer-lhe-ia todos os ângulos, não só o seu light side. Também o backside, e ainda o dark side do back, as celulites, estas pequenas alterações poético-cutâneas que a beleza possui e que o photoshop exclui.
Pensamento entre parêntesis: "Céus, senti um sabor jaboriano, acre, no que acabei de escrever. Será que apago? Bom, se alguém também sentir, digo que foi paródia."
Always look on the bright side of life, tutu tutu tututu.
Mas e se eu, fotógrafo, novamente fotógrafo, tiver como modelo a vida, e esta dois perfis, um sórdido e monstruoso, coberto de escaras, e o outro liso e magnífico, só quiser mostrar-me o segundo?
Ou então talvez me falte domínio do gestalt switch e fique travado na velha, jamais conseguindo ver a moça.

Ninguém é como Éolo, que domesticava seus ventos. Há um grau de insubmissão no humor. Tive um professor cujas aulas jamais retinham minha atenção. Esta sempre estava voltada para a espuma branca que aos poucos se formava entre seus lábios à medida que ia falando. Era hegeliano e obtinha um prazer especial na repetição da palavra "Geist". Ao proferi-la a saliva acumulada projetava-se para o ar da sala. Ou então, por um acaso qualquer, já que não sou um fatalista como o herói que seus perdigotos pareciam celebrar, ele passava a língua nos lábios, limpando o terreno para o próximo cúmulo que certamente viria com sua loquacidade torrencial. Este processo exercia sobre mim uma hipnose que me impediu, durante toda a graduação, de aprender qualquer coisa sobre Hegel. Fosse eu senhor da minha psicologia, a exegese ritual que ele fazia da "Phänomenologie des Geistes" ocuparia o lugar da memória onde hoje aparece a imagem do seu rosto, o branquinho do cuspe insinuando-se entre os lábios, a cada vez que penso em Hegel.
O humor varia meteorologicamente. Melhor aceitá-lo como a chuva.
Postado por Marcelo Rota em 3:15 PM | Comentários (0)
junho 21, 2004
ASDASDADASDAS
Na cerimônia de batismo dos mórmons, o pai diz ao recém-nascido: "Eu te abençôo com a capacidade de ver a beleza deste mundo." Realmente, quem não tiver o poder de ver na litosfera a beleza, vai desejar mais tarde afogar-se em alguma pia batismal.
Minha irmã me encontra e pergunta se estou bem. Péssimo, péssimo, respondo. Marcelo, o que é isso? Olha o céu estrelado, olha esta lua. Eu sei, irmãzinha, antes estivesse lá, o meu problema é com a Terra, mas do resto do universo eu gosto.
Que bom que você clicou! Assim poderá ver a correção que faço do primeiro parágrafo. Na verdade, os mórmons, como acreditam que os pimpolhos já nascem com a proteção divina, esperam até a idade de oito anos para realizar o batismo propriamente dito. "Eu te abençôo com a capacidade..." o pai diz ao que-ainda-há-pouco-saiu-do-ventre em um ritual que chamam de Father´s Blessing.
Queria pedir desculpas aos milhares de mórmons que me lêem desde Utah.
Postado por Marcelo Rota em 1:29 PM | não há nada além | Comentários (4)
junho 19, 2004
D. ANDRÔMEDA
Hoje tive a morte a me seguir. Não a minha, a de outra pessoa. Liguei para a tia Antônia para perguntar-lhe se iria hoje à festa da minha irmã aniversariante. Meu interesse era o de uma carona. Mas:
"Não, não posso porque a D. Henriqueta está no hospital, acho que vou ter que ir lá..."
Henriqueta, diga-se entre parêntesis, é a mãe do ex-marido dela, alguém que certamente devo ter encontrado em natais em família de um passado mais remoto no tempo do que uma das estrelas de Andrômeda no espaço. Mais fácil lembrar da cara de um transeunte anódino com quem tenha cruzado hoje andando por Copacabana do que da de D. Henriqueta.
Depois telefonei para outra pessoa, o Carlos, cuja primeira ex-esposa é irmã do ex-marido da tia Antônia, para tratar de assunto diverso, combinar de almoçarmos amanhã. Enquanto conversávamos através do fixo, pude ouvir o toque do celular dele.
"Espera só um minutinho, Marcelo".
O transeunte anódino deve estar vivo, mas, se morresse, não alteraria a minha agenda.
Marcelo Rota
Pai do Marcelo Rota
Irmã do pai do Marcelo Rota
Ex-marido da irmã do pai...
E aí eu chego em D. Henriqueta, cuja morte só soube hoje por acaso, como poderia ter inadvertidamente pisado no cocô do seu cachorro, se você tiver um e passear com ele por estas cercanias.
D. Henriqueta, também conhecida como "a mãe do ex-marido da irmã do meu pai", o primeiro telefonema, ainda na UTI de hospital qualquer, ou "a mãe da primeira ex-mulher do Carlos com quem eu iria encontrar amanhã", o segundo telefonema, minha última ligação indireta com ela.
Postado por Marcelo Rota em 1:27 PM | Comentários (2)
junho 18, 2004
POST REFEITO E COM ENTRADA ESTENDIDA
De onde vêm estas camisas que as cariocas, ao menos as de Copa, estão comprando como se estivessem em liquidação da C&A e usando como uniforme? Bom, devem ser da C&A mesmo, ou de camelôs. Hoje contei três com elas.
São camisas pretas, com "RESPEITO" estampado em letras brancas. Como nunca vi homens usando-as, acho que é um trocadilho semiótico. Das que vi hoje, duas eram, como diz o clichê, fartíssimas. Diante destas, o reflexo é o de pedir desculpas ou o de balançar positiva e lentamente a cabeça. A outra era o contrário, e a reação, a de tentar consolá-la.
Publiquei antes uma outra versão deste post. Mas não gostei, e resolvi colocar uma prótese. Preciso urgentemente de uma terapia que controle a compulsão drogadilhista na minha peçonha. Tenho consciência disso. Mas as mulheres com "RESPEITO" na camisa e que não notam o pun, deveriam ser punidas com mamárioeletroconvulsoterapia.
Para quem não sabe, há outras camisas com o mesmo layout, mas palavras diferentes, como "FÉ", "CIDADANIA" , "AÇÃO" e "CONSCIÊNCIA". Esta última deveria vir em um boné, para manter a coerência. As outras, não sei onde colocá-las.
Postado por Marcelo Rota em 12:35 AM | Comentários (12)
junho 17, 2004
WUNDERBAR!
Poderia haver um boteco com este nome e o lançamento ser lá. Mas onde vai ser também será wunderlegal pacas.

Postado por Marcelo Rota em 9:37 PM | Comentários (7)
junho 15, 2004
ASDLASDLASL
Acabei de acordar, reli o post abaixo e realmente odeio análises retrospectivas. As prospectivas são melhores, o futuro não admite arrependimentos. É por isso que admiro os velhinhos, principalmente os que as famílias largam em asilos: muita retrospecção, tanta quanto a brônzea, enferrujada trama neuronal lhes permitir, mas franqueia o suficiente para muitos remorsos. Acordam de um pesadelo, lembram-se dos filhos e não entendem nada. Eu acordo e me arrependo do final de um post, aquele "meus iguais, meus irmãos". É o que alguns, não eu, chamam de overpathos.
Mas acordei bem, apesar de tudo. Agora estou ouvindo Kazuhito Yamashita, um violonista japonês. Ele toca muito rápido. Vocês precisam ouvir alguns dos estudos do Villa-Lobos com ele, os de velocidade: fazem ventar nos cabelos da gente. Agora estou escutando a Sinfonia do Novo Mundo, do Dvorak. O japonês faz transcrições impossíveis para as seis cordas. E toca-as furiosamente, inclusive ao vivo. Nada de artifícios de gravação. O homenzinho, para executar estas peças, tem que mudar de scordatura enquanto continua tocando. Não, não é apenas curiosidade circense, porque a musicalidade fica intacta e é só isso o que interessa no final das contas. Não é como ver os irmãos Assad tocando um só violão a quatro mãos, os siameses, ou o Hendrix, a guitarra com os dentes, o cão raivoso. Falam que o Yamashita é tímido. Quando entra em cena, parece pedir desculpas por estar ali. Logo depois, entretanto, ocorre aquele clique, o da concentração oriental e, possesso por uma ancestralidade abantêsmica, ataca o instrumento. O violão é pobre em variação dinâmica, não é como o piano. Mas Kazuhito faz do violão um piano, e vai do pianissimo ao fortissimo. Só que não é um piano, é melhor, ao menos segundo a minha idiossincrasia tímbrica.
Postado por Marcelo Rota em 3:55 PM | Comentários (13)
CAROS SIMPARANECROMENOI
Vou começar assim: o mundo é... Esta é uma daquelas frases que, tendo algo importante como sujeito, nunca se sabe o que colocar depois da cópula, do verbinho de ligação. Como a maré... O melhor seria não pôr nada, no máximo reticências, como fiz. Entretanto, Wittgenstein completou a primeira com "a totalidade dos fatos", Nelson Rodrigues, a segunda com "ser fiel a quem nos trai".
A melhor maneira de conhecer o mundo é estudando a própria casa. No meu caso, um apartamento de dois quartos. Agora há pouco estive no banheiro. Quando acendi a luz, uma aranha subiu rapidamente pela parede. Patas longas e finas que carregavam de modo elegante um abdome mínimo, de coloração amarelada. O corpo humano...
...digo isso enquanto olho para as minhas mãos, como se elas fossem o emblema do corpo. Moore, um dos viadinhos de Cambridge, que passou algumas noites insulado com Wittgenstein na cabana deste em fjord norueguês, quis provar a existência do mundo exterior com a sugestão, típica de manicures, de que contemplássemos nossas próprias mãos. Gosto de arrancar com os dentes as cutículas. Mas, se é para refutar o idealismo com as mãos, por que não a bofetada ou a masturbação?
O corpo humano, antes tivesse tantas pernas quanto o da aranha. Seria mais fácil locomovê-lo mundo afora. O mundo, antes fosse o da ignorância, como o de Aristóteles, com tanto a ser descoberto, como o da criança. Porém, não o de um adulto do século XXI como o meu, caros simparanecromenoi, meus iguais, meus irmãos.
Postado por Marcelo Rota em 9:23 AM | não há nada além | Comentários (4)
junho 14, 2004
NAMORADOS
Penso em escrever algo retardado sobre o dia dos. Mas só consigo me lembrar daquele dia em que ela, estudante de medicina, interrompeu carinhos que preludiavam muito mais. E disse, olhando para cima:
Acho que o esquerdo está maior do que o direito...
Fomos para o hospital. Durante a cirurgia já me retiraram um pedacinho para a biópsia e, como o resultado foi positivo, deram prosseguimento e extraíram-me o sinistro inteiro.
Desde então tenho vivido apenas com um, mas ela continua me amando. Queremos casar. No que restou, o direito, com o qual ficou mais divertido brincar na bolsa espaçosa, ainda há para muitos filhos.
Postado por Marcelo Rota em 1:39 PM | Comentários (3)
junho 13, 2004
ASLDASLDASLD
"Talvez eu devesse escrever algo introdutório. Afinal, não é só chegar e ir postando", penso.
"Entretanto, ´algo introdutório´ não me soa bem", refuto-me.
"Caixas de comentários, minha estratégia foi sempre a de deixar falarem a esmo dentro delas, como besouros capturados com os quais converso. Alguns me entendem, outros eu não entendo e por aí vai. Não é típico do entomólogo conversar com o seu estudo, mas eu, se fosse um, não seria um bom. E seria cruel na vivisecção.", zumbo.
"Boceta de comentários", um pensamento intrusivo.
"Pensamentos intrusivos, dizem os psi, são característicos de psicóticos", complemento-me.
Antigamente guardava-se rapé em bocetas, abandono as aspas. Hoje talvez mulheres de presos trafiquem objetos de todo tipo nos dias de visita.
MovableType, lugar estranho como cabine de avião. Aqui na minha tela o calendário, que eu faria bem em retirar se soubesse como, aparece cortado. A semana termina na quinta-feira.
Os wunder são pessoas estranhas. Todos escrevem bem. "Menos um", acrescento só para não parecer demagógico.
"E agora ainda há cotas para mulheres, uma sendo ruiva", escrevo pensando em apagar. Mas, é inevitável: um dos meus pensamentos intrusivos é o da ruiva, desculpe. Hoje, aliás, recebi um email de uma moça perguntando pela Claudia Calabi, que era uma delas e torço para que continue sendo.

Tudo o que sei da Claudia é que tirou esta foto para mim. Mas se estiver lendo este, saiba que é procurada por alguém, provavelmente ex-colega de segundo grau. Melhor esconder-se, ou então me mandar um email. Os que lhe enviei não encontraram eco. Esta foto é de uma época em que eu era narcisista com o meu pseudônimo. Eco apaixonou-se por Narciso e, consumida por este amor, restou-lhe somente a voz obsessiva, não foi isso? Provavelmente não. Mitologia grega é coisa de menininha e de Freud. Eu gosto da cristã, principalmente da Queda. Sempre mencionava a Queda no blog anterior. Neste novo, não sei. Não chego em festas já dançando. Na verdade, nem vou.
Extended Entry, legal. Novo recurso a explorar. Um bom início é esconder aqui o inútil.
Postado por Marcelo Rota em 3:26 AM | Comentários (2)
junho 12, 2004
ASTEÍSMO E OS USOS FANTASMAIS DA LINGUAGEM
Jamais abre mão de colocar entre si próprio e a realidade a película impermeável, aquela conhecida como ´ironia´. Não, na verdade não é película, é um abantesma de si mesmo, algo como um duplo a que os outros, os interlocutores, destinam suas palavras e às vezes socos. Ele ri quando o golpe atravessa o holograma e se choca contra o muro.
Em algumas ocasiões, - por exemplo, quando quer conversar algo sério com sua esposa - pressiona o botão, um dos duplos some e o que restou diz: “Este sou eu”. Ela o abraça, porém seus braços envolvem apenas o ar. Já irritada, sente dois toques no ombro direito, mas, quando se vira para aquele lado, ele está no oposto, dizendo: “Desculpe...”
Postado por Marcelo Rota em 5:21 PM | Comentários (3)
ALSDKJASDLAKSDJASLK (1)
Rejeição intramundana do mundo. Aquela praticada nos mosteiros. E, antes da sua invenção, pelos ascetas sob o orvalho ou sob estalactites e fezes de morcego. Deve ser bom não ler jornais, não ver televisão, não receber telefonemas e emails, e nem ver ou falar com ninguém. De ruim apenas os diálogos com o surdo céu sem nome e as pessoas que ocasionalmente aparecem perguntando sobre o sentido da vida. O meu asceticismo particular reservaria pedradas para o lobo frontal desta gente.
Os místicos, como os náufragos, são soliloquistas. E ambos, insulados, confundem arrulhos de aves com o silvo do navio redentor.
Postado por Marcelo Rota em 5:13 PM | não há nada além | Comentários (1)
O MÍSTICO (2)
Um deles manteve a família - mulher e dois filhos - sem sair de casa durante sete anos. Os vizinhos diziam que era ciúme da esposa. Mas ele, que estava esperando o apocalipse. Não sei a razão de tanto tempo de espera, mas foi só ao fim deste período de sete anos que autoridades arrombaram sua porta. O filho mais novo foi o primeiro a sair. O pai, logo atrás, correu para segurá-lo, mas tropeçou nas próprias barbas proféticas. O menino, quase cego pela luz do sol, desorientado pelas maravilhas do mundo que não via desde os dois anos, deslizou, rolou e ralou-se penedo abaixo até chegar ao rio onde se afogou.
Li isso no jornal. Aconteceu em uma pequena cidade da Rússia.
Postado por Marcelo Rota em 5:12 PM | não há nada além | Comentários (0)
REJEIÇÃO INTRAMUNDANA DO MUNDO (3)
As únicas notícias que me interessam são as que me dizem respeito. Quero um canal de tv, 24 horas, com notícias em tempo real sobre o meu corpo. A única matéria que me é importante é a de que sou constituído. É a que mais ignoro, todavia. Sei mais sobre o conflito entre palestinos e israelenses, tão desimportante. Quero saber das minhas células, cada uma delas. Não importa o que ocorre na Faixa de Gaza, longe demais daqui, e sou indiferente ao que acontece no morro do Pavãozinho, aqui pertinho.
Passa este programa, “Marcelo, A Rota da Saúde”
Entre parêntesis, a grade horária do canal MRNews, é entremeada de drogadilhos coagulados
Passa o tal programa. Nele, um grupo de celebridades da área da saúde debate o meu metabolismo. Uma delas escorre sobre o meu jantar de ontem, Cup Noodles sabor camarão, e sobre como este alimento estava sendo catabolizado no organismo. “Este produto da Nissin – Ajinomoto, contém, como é sabido, soja geneticamente modificada. Ora, veja bem, catabólitos deste”, dizia quando foi cortado.
Surge então o logotipo do canal (a minha efígie rodopiante estampada no globo terrestre), ao fundo uma vinheta musical inquieta e alarmante. É o plantão, sempre um grande teste para o meu músculo cardíaco, que nestas horas fica taqui taqui taqui taqui. “O plantão anunciando a minha morte e o fim do canal pode muito bem aparecer logo após um destes plantões”, pensei.
(continua...ou melhor, não sei, ou melhor, cansei)
Postado por Marcelo Rota em 5:09 PM | não há nada além | Comentários (0)