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julho 23, 2007

ONDE ESCREVE UM TEXTO NO QUAL "BILL MURRAY" APARECE DOZE VEZES

Bill Murray ou é uma religião de bolso ou algo bem parecido com isso. A sensação, que não é apenas uma sensação mas uma realidade, a sensação de termos sido, com o nascimento, lançados em um lugar desconhecido e absurdo, ignorando, amnésicos e cegos, a procedência e o destino - e sem saber o que fazer no ínterim -, Bill Murray é a reação a essa sensação. Só que ele não é uma reação, a não ser que seja uma reação resignada e inerte, a reação de não fazer nada e nem mesmo reagir.

Bill Murray knows it all, he has figured it out, he knows the secret.

Bill Murray é o manual da existência, a summa theologica jamais escrita mas que se tivesse sido seria portátil; o taoísmo ambulante, sem doutrina e preceitos morais.

Olhem, por favor, olhem. Olhem a sua atuação em Rushmore. Como um daqueles homens bem-sucedidos que não se reconhece no sucesso que seu mérito construiu, que estranha a esposa que escolheu e os filhos que teve com ela. Durante a festa à beira da piscina de sua mansão, a mulher flerta com um conviva pondo-lhe na boca um docinho. Seus filhos, os aniversariantes, são gêmeos, ruivos e usam aparelhos odontológicos que refletem a luz do sol da piscina quando sorriem. Depois do choque de ter sido arremessado contra o mundo (choque pós-natal), nada melhor para complementar a perplexidade do que ter filhos gêmeos, gêmeos e ruivos. A duplicidade das cabeleiras ruivas é um escárnio desnecessário e cruel. Bill Murray bebe uísque e fuma enquanto observa o estranho cenário da festa familiar à beira da piscina. Caminha até o trampolim e, com o cigarro acesso entre os dentes, salta na posição ornamental de bomba, aquela em que seguramos os joelhos contra o peito.

Bill Murray é um hipotônico, como diria o psiquiatra se um dia ele entrasse em seu consultório. Mas Bill Murray descobriu como ser feliz deprimido e sem antidepressivos.

Se você não sabe como viver e acha tudo muito sem sentido, Bill Murray sabe ainda menos.

Bill Murray nunca vai deixar de ser Bill Murray em qualquer papel que lhe dêem. Sabe quando você quer muito uma coisa, uma homenagem, uma mulher ou um emprego, mas é covarde o bastante para não tentar porque se tentar pode não conseguir e, oh, isto seria horrível e muito pior do que não conseguir porque nem tentou? Ora, é óbvio, por mais que o clichê moral diga o contrário, que é melhor fracassar por preguiça do que com trabalho. Mas Bill Murray descobriu a terceira via. Bill Murray é o caminho do meio, a redenção pelo tédio.

***

O primeiro título do post era:

NOTAS SOBRE BILL MURRAY E RELIGIÃO DEPOIS DE VER RUSHMORE

Postado por Marcelo Rota em julho 23, 2007 11:18 PM

Comentários

estalo os dedos em aprovação, displicentemente of course.

Postado por: eduardo em julho 24, 2007 3:55 PM

Eu faço como o Eduardo.

Eu gosto da corrida que Bill Murray dá entre as árvores depois de falar com a professora. Ou antes? Depois?

Postado por: Alexandre S. em julho 24, 2007 5:27 PM

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