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abril 18, 2006

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Esta pessoa ama a vida e goza todos os seus átomos, sem exceção. Anda e quer aproveitar cada uma das passadas. E ele as dá curtas para que tenha mais delas entre a origem e o destino. Enquanto está indo não pensa na chegada, na próxima atividade que terá que desempenhar, talvez a do trabalho na linha de montagem. Mas, quando chega, é algo que ele faz com lenta fruição. Entretanto, ele é rápido e funcionário dos mais eficientes, lento é só o prazer do trabalho. Quase não nota, mas já é hora de ir para casa: aprazível o trajeto de volta. Se chove, as gotas sobre o seu rosto tem o mesmo valor de raios solares em um dia frio, e, se faz calor... Sim, exatamente.

Tudo o que ele faz é erótico, a vida é um jardim, esteja ele em um ou não. É suave, justo, preciso, confortável e belo o seu sono. A felicidade de despertar e começar novamente o ciclo do dia é, como todo o resto, prosperidade, apesar de ele ser pobre.

Algo estranho, entretanto, acontecerá no último dia da sua vida, aos oitenta anos, câncer no esôfago, no leito hospitalar. Suas lembranças, não importa se as mais remotas, da infância, ou do dia anterior, o enfermeiro e o banho de pano úmido, todas estas memórias lhe aparecerão igualmente vivas e nítidas na mente.

A vida inteira, oitenta anos, oitenta anos como se tivessem sido um dia. A mosca que viveu vinte e quatro horas teria vivido mais do que eu, caso tivesse tido o pouco de sofrimento que não tive

...não será seu último pensamento apenas porque ele morrerá um pouco antes de formulá-lo e ter o tempo de sofrer com ele. Ah, mas se tiver um minuto, um minuto apenas para doer e latejar com esta idéia, será espetacular. Os auxiliares de enfermagem e os médicos presentes na UTI morrerão por causa da explosão de cogumelo nuclear do seu crânio. Uma bomba de dor.

Postado por Marcelo Rota em abril 18, 2006 9:24 PM | antigo blogauti

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