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abril 22, 2006
NIHLO
Certa vez seu pai, a quem não amava por considerar prosaico e sem nenhum espírito, convidou-lhe para a missa dominical. Respondeu que só se fosse segunda-feira, mas segunda ele iria a em si menor de Bach. Em outra, o seu pai morreu e a mãe perguntou se iria ao enterro.
Quando papai estava doente, fiz a promessa de que só iria a um, e somente um, enterro. Como sempre gostei mais de você, mamãe, resolvi economizar.
A mãe também era simples demais e não tinha espírito. Mas, quando chegou a sua vez e a irmã lhe perguntou se iria, disse: “Prometi a papai que só iria a um enterro. Contei isso a mamãe e sugeri com certa ambiguidade que seria o dela. Agora sem nenhuma ambiguidade afirmo que o único será o meu próprio. Como sei que faço tudo para ser detestado, não espero nenhum amigo ou familiar e, desta forma, vou pagar cem mil a cada atriz de Malhação que segurar uma alça do meu caixão. Será o meu Baile da Morte Debutante.”
E assim conduzia a sua vida, sarcástico e cínico. Ganhou muito dinheiro especulando na bolsa e dizia só ter se dado ao trabalho de estudar o assunto porque, infelizmente, precisava de mulheres e estas de dinheiro. Até que um dia conheceu uma mulher por quem se apaixonou -
Brincadeira, nunca conheceu ninguém que lhe despertasse amor ou compaixão. O sujeito era cínico mesmo. E não era do tipo que recebia lições da vida, esta é que freqüentava os seus seminários, como poderia ter dito uma vez. O final verdadeiro é esse aqui:
Até que um dia, depois de ter ficado muito doente, já desenganado pelos médicos, a Vida apareceu em seus delírios febris. Disse que lhe daria uma segunda chance, caso prometesse dedicar o restante dos seus anos a aprender a amar. Respondeu-lhe que não, pois não tinha o hábito de crer em imagens que surgiam em sonhos e delírios, ainda que de vez em quando conversasse com elas. E então Nihlo
não morreu. Viveu ainda mais trinta e sete anos. Suas últimas palavras foram: “minhas últimas palavras são, dois pontos:”.
Postado por Marcelo Rota em abril 22, 2006 12:01 PM | não há nada além
Comentários
Meu deus, mas isso é bom demais.
Postado por: N. em junho 9, 2007 8:51 PM