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DEDÃO DO MAL
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abril 17, 2006

EM ARNSTADT

Como todos sabemos, J. S. Bach uma vez caminhou quase duzentos quilômetros, de Arnstadt a Lübeck, apenas para ouvir Buxtehude. E quase perdeu o emprego por conta disso. Reputação é o que falam sobre alguém quando ele não está presente. Elogio é exatamente o contrário, o que falam na presença, exatamente o contrário do que falam na ausência. A maior ausência de todas é a póstuma.

Fôssemos julgar pela reputação que cada um deles possui hoje em dia, Bach deveria ter ficado em casa esperando pela chegada do seu admirador, o organista e compositor Buxtehude. Se a *Posteridade*, encarnada, por exemplo em mim, pudesse telecronotransportar-se para a Arnstadt de então, eu diria a Bach que poupasse a caminhada, melhor o senhor ficar em casa compondo. Mas foi impossível. Não a viagem, mas ter falado com Bach.

Logo que me materializei em Arnstadt senti o corpo pesado. Passei a mão no meu rosto e senti a barba. Arranquei um fio, doeu, era branco e não acordei. Não conseguia andar direito e vai ver foi por isso que percebi na minha mão esquerda um cajado. A primeira coisa que ouvi foi o som maravilhoso do órgão e, apoiando-me no cajado, tentei caminhar até sua origem, a igrejinha que via lá na frente. Um menino ruivo e sardento, dez anos mais ou menos, apareceu e arrancou-me da mão o meu apoio. Caído no chão, recebi os golpes impiedosos da criança que, a cada cajadada que desferiu, gritou: “Anachronismus!”.

Postado por Marcelo Rota em abril 17, 2006 9:59 AM | antigo blogauti

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