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abril 12, 2006

CONCURSO

Não serão admitidas, para entrevista, pessoas com os seguintes problemas:

a) Que se apresentarem com orelhas mal dirigidas (acabanadas) ou com prejuízo da conformação;
b) Que possuam prejuízo da visão uni ou bilateral, cegueira, com opacidade da córnea em qualquer grau (olho branco); perfuração do globo ocular e assimetria (tamanho diferente) dos olhos; albinóide;
c) Cujo lábio inferior seja flácido, grosseiro e pendulado, quando em repouso, ou que se balance, estando em movimento, lábio superior torcido para um dos lados da face ou lábio acentuadamente rasgado nas suas comissuras (cantos);
d) Cujas arcadas dentárias incisivas sejam mal ajustadas (prognatismo). Em qualquer idade, e com qualquer grau de prognatismo mandibular, serão recusadas;
e) Com assimetria da garupa, quer observável na largura, bem como na altura das ancas. Só serão admitidas as pessoas que apresentarem assimetrias muito discretas (sutis), que não cheguem a prejudicar a estética. Elas serão passíveis de prejuízo no julgamento;
f) Com alterações nos órgãos genitais masculinos, ausência de testículos na bolsa escrotal e assimetria (tamanhos diferentes) testicular acentuada;
g)Emboletadas, com edemas e quartelas verticalizadas (fincadas) com assimetrias acentuadas das articulações, interferindo ou não na função, com ferimentos (feridas) crônicos ativos prejudicando a estética;
h) Com unhas pintadas de qualquer cor ou por qualquer material, ou de tamanhos acentuadamente diferentes.

Em caso de dúvida, procure um técnico da ABBPM.

***

Ele foi, mesmo assim, para a entrevista. Depois da recusa, amplificou a voz, reclamou, protestou, fez passeata sozinho, escreveu cartas para os jornais, pediu uma audiência com um deputado, ligou para o jornalismo da Rede Globo e, como todos esses esforços resultassem em vão, iniciou uma greve de fome em frente a sede da ABBPM. Depois de dez dias sem comer, fraco, já com um olhar que refletia a morte, vivendo apenas das últimas reservas de gordura que o intestino processava e expelia em fezes branco-amareladas, liquefeitas, que ele então usava parte para untar o próprio corpo, parte para escrever suas palavras de desespero no vidro da porta da ABBPM,

descobriu que era o *homem invisível*.

Por mais que se expusesse ninguém o notava, absolutamente ninguém, por mais absurdos e ostensivos que fossem seus atos. Tinha carne, sangue, osso, precisava comer e excretar como qualquer ser humano normal, se cortasse os pulsos sangraria até a morte, como qualquer ser humano normal e, no entanto, era um espectro a arrastar ruidosamente pela cidade sua dor que,

entretanto,

ninguém ouvia. Era imperceptível, a não ser para ele próprio. Antes fosse um abantesma também para si mesmo, mas era apenas para os outros, enquanto ele mesmo sentia, vivia e sofria como qualquer outro ser humano normal. Sentiu-se um Crusoé na cidade de vinte e cinco milhões de habitantes.

Postado por Marcelo Rota em abril 12, 2006 2:46 PM | antigo blogauti

Comentários

só pra registrar que esse post não tinha nenhum comentário porque nenhum comentário estaria a altura deste post

Postado por: tiago a. em abril 15, 2006 10:12 PM

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