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março 24, 2006
CLOACA MAXIMA
(Tenho saudades de Copacabana. Toda a parte livre de parêntesis deste texto foi escrita lá.)
Enquanto caminho olho para as luzes nas janelas dos prédios. De uma menorzinha a lâmpada se apaga. Banheiro, penso, alguém acabou de fazer algo no banheiro. Irrefletidamente olho para a calçada e imagino o que passa sob os meus pés. Esgoto, civilização é esgoto.
(Lamento pelos que têm controle total sobre o que pensam. Existem realmente pessoas assim? Já me acho bom apenas por dominar, em parte, o que digo ou o que faço. As associações de idéias acontecem comigo e deixo que aconteçam. Quando tenho tempo dou dois passos atrás e observo: lindas pareidolias.
“A quem pertenciam os droppings fecais que passam a alguns metros e invisíveis sob os meus pés?” Existem mesmo pessoas que só pensam coisas úteis?)
Somos feitos assim: precisamos de comida, portanto, de um aparelho digestivo, ergo, também de um excretor. Olho para a minha barriga, imagino os meus rins, bexiga e uretra como uma ilustração de livro de medicina. A engenharia é filha da anatomia: a Cloaca Maxima, primeiro esgoto de Roma, obra da gestão de Tarquínio Prisco, que também deve ter mandado construir vários templos, afinal, ele, assim como os outros romanos e eu mesmo no século vinte e um, ele sabia: um dia esses rins vão parar de funcionar. A religião é o medo da falência dos órgãos.
(Ninguém precisaria de religião se não precisasse dos órgãos, ninguém precisaria de religião se tivesse aquilo que a religião postula: alma. Porque temos órgãos e não alma é que precisamos negar uns e afirmar loucamente a outra. Sou um homem extremamente religioso.)
Imagino-me com setenta e cinco anos a caminhar por uma copacabana de ficção científica. Não tão científica assim, tenho que admitir, pois carrego sob a roupa um daqueles saquinhos, esgoto íntimo, esgoto portátil.
Ah, meu aparelho excretor, meu aparelho excretor!
(É, terminava assim, com exclamação e cheio de pathos. No dia achei que ficava engraçadinho encerrar com essas expansões de colostomizado. Cheguei a imaginar o velho, bem velho, declamando a litania do aparelho excretor. Ao mesmo tempo lançaria droppings retirados da algibeira cirúrgica aos pombos da praça. Só não escrevi. Seria durante a noite. Ao amanhecer, cadáveres de pombos, dezenas, na praça. Devo ter desistido de escrever por causa de pudor realista: não sabia e ainda não sei se existem pombos notívagos.)
Postado por Marcelo Rota em março 24, 2006 9:40 AM | não há nada além
Comentários
sendo óbvio --> muito bom, Fawkes.
Postado por: Elton em março 24, 2006 10:22 AM
Light of my life, fire of my guts.
Postado por: Merc em março 24, 2006 2:22 PM
O Autor consegue fazer as guts do Mercuccio pegar fogo. Inter'sting. Mas, mas, o que eu ia dizer: rubrico, o texto saiu de uma cloaca e é como seria o produto de tal.
Postado por: ha; haha em março 25, 2006 8:34 AM
Caro Marcelo Rota,
Partes de seu texto foram descarga abaixo até a estação de tratamento do Copy & Paste.
Obrigado.
Postado por: ratapulgo encapuzado em março 27, 2006 4:52 AM
the kiss of death, or what? ^^
Postado por: Elton em março 27, 2006 8:12 AM
Caro Rota,
Seu monólogo me lembra um Stephen Dedalus que não conheceu Leo Bloom ainda que, como eu, como Bloom, você não tenha mais seu pai.
Um abraço.
Tiago.
Postado por: Tiago em abril 10, 2006 7:22 PM