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fevereiro 28, 2006
SOBRE AS PESSOAS NO MOMENTO CRUCIAL DA MAÇANETA
Os filmes bons são aqueles cujos personagens avançam decididos para a porta. Abrem, há um rangido casual e ficam, cabisbaixos, imobilizados com a mão na maçaneta de acrílico.
Ah, aqueles instantes de hesitação e angústia das frias maçanetas!
Bom, então olham para trás, não porque tenham esquecido o guarda-chuva ou a chave do carro. Há uma pessoa com quem discutiam segundos antes. Conversa desagradável e que alguma palavra ofensiva estilhaçou. Como dizia, dão um giro de cento e oitenta graus e olham. A pessoa, em geral uma mulher, está de costas e olha através da janela. Lá fora a nevasca castiga o mundo. Os personagens
não sei por que mantenho o plural, mas faço questão do masculino para "personagem".
Estes personagens não largam a maçaneta. O contato frio da maçaneta é a garantia de que, talvez, ainda reste uma palavrinha mágica que possam proferir e mudar tudo. Olhem para o rosto do segurador de maçanetas de acrílico (abandonei o plural). Imaginem um ponto de interrogação invertido. É uma forca, não é? E é onde está o pescoço do maçaneteiro.
Largá-la acionará o alçapão do cadafalso. Se o maçaneteiro sai porta afora, aquele que teria voltado e falado com ela morre. E vice-versa. Talvez exagere ao dizer que o maçaneteiro esteja no umbral que separa dois mundos possíveis.
Mas não: é assim mesmo, meus caros symparanekromenói.
Postado por Marcelo Rota em fevereiro 28, 2006 7:48 AM | não há nada além