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novembro 16, 2005
O HOMEM QUE SE TORNOU POLLOCK
O homem de idéias, aquele da life of the mind, um dia deixou de tê-las. Lembrou de Montaigne: a melhor maneira de clarificar nossas idéias é pondo-as por escrito. “Certamente devo ter uma que deseje esclarecer, dar-lhe forma literária”, pensou. Porém não escreveu, pobre ágrafo que se tornou. Isso porque pensou não como frase, palavras enfeixadas gramaticalmente, nem mesmo como palavras. É mesmo de se duvidar que tenha pensado alguma coisa, pois eram apenas abstrações de um cérebro inquieto. Espremeu a ponta em brasa do cigarro no cinzeiro. Olhou para as cinzas sobre o aço do cinzeiro. Espalhadas, incontáveis, partes negras, outras brancas, algumas ainda retendo vestígios da sua forma cilíndrica original, quando ainda eram parte em brasa do cigarro, as cinzas, pensou, "emblema do estado da minha mente". Pensou isso daquela forma vaga que já sabemos: não escreveu. Seu cérebro tornou-se um quadro de Pollock. Um exame de Imagem de Ressonância Magnética Funcional revelaria isso. Haveria uma exposição no MoMa. Os visitantes balançariam a cabeça positivamente diante das pinturas. "Veja essa textura", diria uma mulher para o seu namorado. O autor, e ao mesmo tempo matéria, incógnito, observaria tudo sem entender nada.
Postado por Marcelo Rota em novembro 16, 2005 12:12 AM