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outubro 3, 2005

NO AVIÃO

Os dois passageiros sentados ao meu lado começaram a tricotar a conversa mais estranha que já tive a oportunidade de entreouvir. Falavam de um lugar, de uma cidadezinha, onde ninguém trabalhava. Ao menos foi isso o que entendi. Seus habitantes, gente de todas as idades, ficavam o dia inteiro, todos os dias, sem fazer nada a não ser o que lhes interessasse. Conversavam uns com os outros, davam festas, bebiam, riam, divertiam-se, iam a praia, comiam e dormiam. Aí o outro comentou que o experimento do 'fulano' (não consegui entender direito o nome) só havia fracassado até agora por causa do problema da ereção. O problema era que os homens do lugar tinham ereções involuntárias. Normal, pensei, afinal esta é uma das partes do corpo sobre a qual se tem menos controle. É o membro autônomo. Não é como o dedo médio que a gente encolhe e estende quando a gente quer e que jamais levanta espontaneamente. Sei lá, mas na tal cidade, o objetivo do seu mentor e fundador (acho que um milionário que selecionou umas mil pessoas para irem passar o resto de suas vidas neste lugar paradisíaco, tudo às suas custas) só seria concretizado caso conseguisse eliminar da cidade, não as ereções em geral, mas apenas as invóluntárias.

Depois que o procedimento de decolagem terminou, as turbinas ficaram mais silenciosas e pude ouvi-los melhor. Eis um resumo do que consegui entender:

Segundo santo Agostinho, existem três libidos: a dos sentidos, a do poder e a do conhecimento. Estas são as três pulsões egoístas das quais o homem fica dependente depois do pecado original. A finalidade do milionário é a de provar a possibilidade de recuperarmos mundanamente o paraíso perdido lá atrás por Adão. Quando puro e perfeito, recém-saído das mãos do Senhor, Adão não estava sob o jugo de nenhuma das três horríveis libidos. Não estar sob o seu domínio é o que define o homem inocente, nosso ancestral originário. E sofrê-las é então a marca do homem corrupto, da prole adâmica, nós.

O mentor do projeto “Paraíso Reconquistado”, mistura de parque temático soteriológico e reality show bíblico, tem em vista mostrar que não é preciso esperar pela vida eterna, que ele pode ser recuperado hic et nunc. Ou melhor, poderia. Já que há um grave problema com a libido dos sentidos. Homens e mulheres do Éden Artificial vêm se comportando muito bem com respeito às outras duas, porém continuam tão eróticos quanto o mais corrupto dos filhos de Adão. A corrupção evidencia-se pela turgidez inesperada que ocorre nos habitantes do sexo masculino. O que preocupa é que, segundo as descrições do paraíso natural, o Adão pre-lapsário, por estar fora do alcance da libido sentiendi (a dos sentidos), tinha controle absoluto sobre o próprio pênis. Controle que só foi perdido quando foi perdido o paraíso. Assim, enquanto existirem ereções involuntárias em ‘Éden II’, este continuará sendo um arremedo de paraíso, e a tese do seu criador seguirá sem qualquer crédito.

Postado por Marcelo Rota em outubro 3, 2005 11:59 AM | concupiscíveis

Comentários

Já leu sobre os Shakers, Rota? Uma dissidência dos Quakers (sim, parece piada; não é). História bem curiosa.

Postado por: Mojo em outubro 5, 2005 5:39 PM

Sim, muito interessante. Segundo o que acabo de ler, os Shakers são Quakers celibatários. Na verdade, *eram*. Religião sem sexo não vinga.

Postado por: Marcelo Rota em outubro 6, 2005 5:01 AM

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