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setembro 21, 2005

VELHA POÉTICA

Ao meu lado há uma cadeira, sobre ela um livro do Manuel Bandeira, "Estrela da Vida Inteira". Ponho o livro sobre o regaço, abro e caio na página duzentos e noventa e cinco:

NOVA POÉTICA, o título

Não sei ler poesia, a não ser versos órfãos como linhas viúvas, mas o primeiro deste é bom:

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.

O leitor fica esperando então o que seja a sordidez do poema.

Poeta sórdido:

Os dois pontos indicam que seguirá uma definição. Então vamos logo:

Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.

Ah, "a marca suja da vida", o que seria? Joyce, James admirava a mancha marrom da calcinha de Nora pendente da bica.

Vai um sujeito.

Um sujeito, um sujeito tem esse nome por estar sujeito à vida (ou à morte, se quiserem variar a sinonímia) como um objeto estaria às mãos de um sujeito. Um sujeito na verdade é um objeto.

Saiu um sujeito de casa com roupa de brim branco bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:

Certa vez mostraram uma foto da tumba de Napoleão. A foto era margeada por duas grandes árvores entre as quais nada havia. Onde está Napoleão? Dois segundos mais tarde vi. Napoleão invisível no espaço entre as árvores que agora via menos como árvores do que como moldura.

Pois então: onde está a poça no verso de Manuel Bandeira? Melhor, qual a relação entre este parágrafo e o anterior? Pois eu digo: eles são as duas árvores de Napoleão.


É a vida.

Os itálicos, não esqueçam, são do Bandeira. Então a vida complementa os dois pontos que encerram o itálico anterior. Entretanto, "É a vida." é comentário ubíquo e coringa. Qualquer coisa pode ser a vida, até o espaço em branco entre os dois parágrafos que comparei com as árvores napoleônicas.

O poema deve ser commo a nódoa do brim:

Não: deve ser como a nódoa de Nora.

Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

A verdade dura, latejante e cheia de veias é que o leitor satisfeito de si não lê. Muito menos poemas. O leitor satisfeito de si ganha dinheiro e faz sexo. Por isso, eu, insatisfeito de mim, tampouco leio poemas: seria redundante como um pleonasmo.

Sei que a poesia é também orvalho.

[pigarro]

Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.

Acabou.

Postado por Marcelo Rota em setembro 21, 2005 10:13 AM

Comentários

Manoel Bandeira só é bom quando quer comer a filha da rainha Luzia...
vou me embora pra passágada...
A verdadeira poética é suja, seja da nódoa de calcinha, seja da poça de lama inexistente.
PS: Muito bom teu blog...

Postado por: Sakura em setembro 22, 2005 2:51 PM

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