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julho 16, 2005

FOLLIE!

Angela Gheorghiu, romena e soprano, é bonita de morrer. Não canta tão bem, mas é de matar e morrer.

(Ou)via o Réquiem de Verdi regido pelo Abbado com ela de soprano e, sempre que cortavam para a conterrânea do Drácula, podia estar até no ácumen do 'dies irae', mas toda aquela massa sonora recuava e tornava-se muzak para a visão do decote.

(Ou)via La Traviata regida pelo Solti: lá está ela novamente, mudando de figurino de acordo com os atos e cenas, para no último surgir doente, febril, pálida e agonizante em uma camisola branca. Sua personagem, a Violetta, tem então um último e desesperado surto de vivacidade, durante o qual corre pelo palco de braços abertos para, em seguida, cair morta nos braços de Alfredo, seu amor. As instruções do Verdi para esta cena foram: "Violetta correr em círculos como um anjo bêbado, mortal e moribundo." E foi como foi. Ainda que anjos sejam abstêmios e imortais.

Porém, mais um parágrafo para os decotes. É nesta área, na, digamos, zona do colo, que fica a cintura toráxica. O conjunto da Gheorghiu aí é perfeito: a clavícula na escápula, a escápula no úmero, à esquerda e à direita, em magnífica simetria bilateral, encaixados como se nem estivessem encaixados, mas pintados, e revestidos por um filme, película irrealmente branca e lisa. Que pele, que ossatura, que pneuma! Preciso parar antes que faça pior do que exclamar, antes que faça um poema.

***

Aliás, se são imortais, não deveriam ser abstêmios. Porém, sendo anjos, mesmo se alcoólatras, não se embriagariam nunca, suponho.

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Foi Voltaire, se me não engano, quem perguntou retoricamente, se bem lembro: "Quando o corpo bebe é a alma que fica bêbada?"

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Anjos a princípio não têm fígado. Um deles surgiu, embaixador de Iavé, para Abrãao e exigiu-lhe o sacrifício do filho Isaac. O Patriarca, com a pujança de sua fé, arremessou contra o anjo a lança. Certeira, perfurou o fígado da criança. A bile de Iavé, luminescente, incendiou os céus.

Postado por Marcelo Rota em julho 16, 2005 2:43 PM

Comentários

Ah, ainda prefiro a Anna Netrebko...
Aqueles, aqueles (mãoes em concha na altuta doi peito), aqueles agudos...

Postado por: mauro em julho 18, 2005 8:35 AM

Caceta, um novo recorde: três erros em uma linha.
Leia-se: "Aqueles, aqueles (mãos em concha na altura do peito), aqueles agudos...
Agora sim.

Postado por: mauro em julho 18, 2005 12:41 PM

por um instante li "melões em concha", Mauro, e achei bonito.

Postado por: Marcelo Rota em julho 20, 2005 6:48 AM

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