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abril 18, 2005

NINGUÉM ESCREVE SOBRE FUTEBOL COMO O NR ESCREVIA


Amigos, a humildade acaba aqui. Desde ontem, o Fluminense é o novo campeão da cidade.Todos os tricolores, vivos ou mortos, ainda estão sob os efeitos da ressaca emocional de domingo. Tivéssemos ainda o costume do chapéu, teríamos que tirá-lo seguidamente, em sentida e obrigatória reverência. A única obrigação, no entanto, é a de sentar no meio fio e chorar, com o sentimento do triunfo. Durante a semana, insisti que a vitória estava escrita há seis mil anos. E o Fluminense foi humilhado, crivado de piadas. Houve conhecidos que fizeram o vaticínio: - "domingo, será a cidade contra o Fluminense". De fato, ontem o Tricolor enfrentou o adversário e o ressentimento dos incrédulos. Parecia uma imagem do próprio García Lorca: - a do Profeta carregado na bandeja e de maçã na boca como um leitão assado.

Preciso, ainda, contar o dramático lance do terceiro gol tricolor. Disse dramático e já corrijo: - dramático e shakesperiano. É de um óbvio mais que ululante que foi outro gol inexplicável. Quando a bola de Antonio Carlos entrou, a neve secular dos Andes derreteu. As zebras do jardim zoológico relincharam, e as luzes do Louvre se apagaram. Acaso encontrasse um cubano, perguntaria se aquele canhão na entrada da baía começou a soltar tiros medonhos. E ninguém viu, porque ninguém enxerga o óbvio, que estava ali o Sobrenatural de Almeida.

Vamos raciocinar: - quem é o personagem do título? Eu poderia falar do Papa. O Santo Homem foi, certamente, um dos responsáveis. Abençoou, na morte, o escrete tricolor. Ou poderia ser todo time do Fluminense, do massagista à comissão técnica. Cada jogador foi um centauro bêbado, uma bastilha inexpugnável. E o suor que pingava era o suor viscoso e elástico dos cavalos puro-sangue. É um time de Werthers apaixonados. Mas o personagem da conquista é, obviamente, a multidão pó de arroz. Amigos, não gosto da multidão. Ou melhor: - não desgosto. Multidão, via de regra, não tem cara. Mas a de ontem foi especial, foi única. No estádio, espiei aquela gente toda. Pela primeira vez, vi uma multidão parecida com um ser humano e repito: - era uma multidão terna, generosa, dionisíaca. E estava toda contra o salubérrimo e jucundo ressentimento, toda ela contra o sentimento da impotência e da frustração. Diante da platéia colossal, o Fluminense fez uma dessas partidas imortais. Dessas que daqui a duzentos anos a cidade vai lembrar: - "ah, aquele jogo...".

Na saída, uma torcedora me pegou pelo braço e pediu: - "Nelson, escreve sobre a luz!" Então cumpro, aqui, a minha grave função homérica: - a luz que vinha do Mário Filho não era dos refletores, mas dos olhos da multidão. Toda ela vazava luz. Ah, ontem foi também o grande dia do estádio Mário Filho. Eu teria muito o que contar do maravilhoso domingo. Vi tanta gente que não vai nunca ao Maracanã, ou pasmem: - vai apenas nos grandes dias. Nas ruas, de olho rútilo e lábio trêmulo, cada idiota da objetividade brilhava ardentemente de arrependimento. Cada lorpa, cada pascácio da cidade, que geralmente nada vê além dos fatos, segurava os passantes pelo braço, gritando bovinamente: - "Eu não acreditei! Eu não acreditei!" E o Profeta, à sombra das chuteiras
imortais, repete, até agora: - Fluminense. Fluminense. Fluminense.

Postado por Marcelo Rota em abril 18, 2005 2:11 PM

Comentários

Amigo, a coisa mais dramática, e diria que funesta, de uma luta, é encontrar-se vencedor. Mas estou certo de que sobreviveremos a mais esta conquista.

Amigos, o que quero diser é o seguinte: cessadas as comemorações, acederemos às imposições alheias. Concordaremos, confortabilíssimos, que foi, de fato, um acaso obtuso e fatal que nos glorificou, e não o mais óbvio e irisado plano divino. Somos humildes, sempre foi esta a nossa arma.

Amigos, o ano apenas começa, e só os lorpas e pascácios não percebem que o futebol brasileiro está encarnado nos craques tricolores. O Campeonato Brasileiro está aí. Seremos campeões.

Postado por: o profeta implacável em abril 18, 2005 3:00 PM

Numa nota à parte: comprando o árbitro e o goleiro, até o Botafogo. Se bem que há coisas que... bem, você sabe.

Postado por: mozart em abril 18, 2005 3:15 PM

Até eu assisti, cercado de flamenguistas convenientemente urubuzando. Não lembro pra quem torci, mas gostei dos fogos, das cores ;)

Postado por: Elton em abril 18, 2005 3:35 PM

LINDO LINDO LINDO

Postado por: Politicamente Incorreta em abril 19, 2005 11:21 AM

não é meu não, é do Nelson mesmo. Só detalhes alterados.

Postado por: Marcelo Rota em abril 20, 2005 11:55 PM

Roubado, como dizem do título do Fluminense. ;)

Postado por: Marcelo Rota em abril 21, 2005 12:07 AM

rapaz... hahaahah ODEIO futebol hauuhauha mas a maneira que escreves faz-me rir :P

Postado por: filósofa dos loucos em abril 26, 2005 5:09 AM

vc é um trapaceiroooooo :P

Postado por: filósofa dos loucos em abril 26, 2005 5:14 AM

hum, estou escrevendo enquanto rumino um biscoito de chocolate, mas o que ia dizer? Não sei. Acho que "A Loucura dos Filósofos".

As pessoas acham que a Filosofia é aquela gostosa sideral que aparece na obra de Boécio. A Filosofia é a Marilena Chauí. O que não serve de consolo para ninguém.

Postado por: Marcelo Rota em abril 27, 2005 9:46 AM

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