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março 29, 2005

HOHOHO,

disse o médico, vamos operar. Sem a cirurgia, ele morre. Com, são grandes as chances de obter-se o mesmo resultado. Então "vamos escrever qualquer coisa neste blog" é o corolário. Separando por asteriscos, fica mais fácil.

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Mas a porra se morre, disse Galileu, baixinho, sibilando entre os dentes, logo depois de retratar-se. Abjurar do que se sabe verdadeiro causa o pior tipo de recalque. Incurável.

Eu jurei que jamais abjuraria de algo sabidamente certo e exato. Porém, pagaram bem e abjurei disso também.

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Esta pessoa, O Procrastinador, tinha um despertador com Função Soneca, programada para retardar o alarme sempre em dez minutos. Arranque dez fios de cabelo e você não ficará careca, assim pensava ele. Quando acordou, certo dia, já tinha noventa anos e calvície. Apertou o botão da Função Soneca mais uma vez. Não funcionou. E teve uma parada respiratória. Regateou com o Despertador onipotente mais dez. Só mais dez, arfou.

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Havia uma alma dentro de mim. Você também deve ter coisas abantesmicamente obscenas no seu interior, caso acredite. Moro em um apartamento exíguo, o meu corpo, e nunca gostei de dividi-lo com ninguém, muito menos com ela, ainda que não ocupe lugar no espaço. Então ontem resolvi desencarná-la. Cheirei um pó de quinto elemento e espirrei-a para o além. Falam que quando o corpo morre, a alma sai voando por aí livre, não como um pássaro, mas como um fantasminha incolor e sem asas. Mentira: desde que, no aquém, fiquei livre da minha, desvencilhei-me dos grilhões que me prendiam a um mundo que, sem gravidade, agora não possui mais nada a frear meus ímpetos aéreos. O corpo flutua.

Postado por Marcelo Rota em março 29, 2005 3:21 AM

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