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dezembro 14, 2004

ALGUNS CÉREBROS BIPAM

É, bipam, beep beep

no preciso momento em que a vida do portador atinge o píncaro. Então, ele sabe que jamais será tão ou mais feliz quanto naquele instante. Chamam isto de eudemonômetro. F. Scott Fitzgerald tinha um.

Havia acabado de publicar This Side of Paradise, de casar com com Zelda e estava feliz. Neste período feliz, ele ia, feliz, dentro de um táxi para algum lugar que não importa. Olhou pela janela e viu arranha-céus passando contra um céu malva.

Entre parêntesis, acho que só escritores vêem céus malvas. Quer dizer, pintores também, mas ao menos estes não escrevem "céu malva" ("a mauve and rosy sky")

Bom, enfim, continuando, foi quando o dispositivo alarmou e o motorista de táxi ouviu soluços convulsos e espasmos lacrimosos vindos do banco de trás. As pessoas deveriam ter um AVC e morrer nestes momentos. Mas não. Pois ele mesmo escreveu que

riding in a taxi one afternoon between very tall buildings under a mauve and rosy sky; I began to bawl because I had everything I wanted and knew I would never be so happy again.

***

A verdade é que píncaros são superestimados. Declínios também valem a pena:
ladeira abaixo, sentindo o vento contra o rosto.

***

Mulheres com o nome "Glória" não entendem o sentido de "píncaro" e, quando o alcançam, lançam-se lá de cima.

***

"O Pico da Heroína é um modo de chegar ao alto do K-2 de teleférico. Só que, óbvio, não existe teleférico para o K-2."

(Lino Lacedelli, montanhista italiano)

***

Enquanto meu irmão e seus amigos escalavam o K-2, eu ficava em Skardu (2500m), cidade que é a porta de entrada para os melhores picos do norte do Paquistão. Lá, com uns adolescentes nativos, ia para o cemitério da cidade. Com ancinhos cavávamos superficialmente as sepulturas. Logo escorpiões começavam a brotar.

Dos escorpiões esmagados saía um suquinho cor-de-malva. Então, com ele untávamos folhas de arkubo que, depois de enroladas e acesas, fumávamos. "Cada um com o seu K-2", dizia, depois de uma tragada, enquanto olhava para aqueles picos de marshmallow vermelho. E cantava Cole Porter pensando no meu irmão

I’m a worthless check, a total wreck, a flop,
But if Baby, I’m the bottom,
You’re the top!

"Eu gosto de um sopé, ele de um pico", pensava, resignado.

(Das memórias de Luigi Lacedelli)

Postado por Marcelo Rota em dezembro 14, 2004 11:02 AM

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