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dezembro 11, 2004

NOTÍCIAS

O mundo é feito de coisas que acontecem. Por exemplo, três irmãs dinamarquesas aconteceram ao meu lado, supermercado Barateiro, enquanto pegava uma daquelas cestinhas verdes. O que sei da língua é o suficiente para reconhecê-la, talvez por ter visto muitos filmes do Lars von Trier. Entretanto, nem para perguntar "E o Kierkegaard?" é o bastante. Como soube que eram irmãs? Porque conversavam com duas peçonhas velhas o suficiente para tornar razoável a hipótese da progênie.

Na praia de Ipanema aconteceu uma capivara. Foi encurralada por bombeiros de sunga e hoje é primeira página de O Globo.

O governo chinês resolveu erguer em alguma praça de Pequim o Monumento à Cobaia Desconhecida. Homenagem a camundongos mortos durante as pesquisas sobre a gripe asiática.

Aqui em casa aconteceu um vento que espalhou do cinzeiro as cinzas sobre a mesa e no interior do copo de coca-cola.

Na Rússia, tempos atrás, Nekrassov concentrou-se olhando para o teto e fez acontecer a frase idiota:

O papel usado para embrulhar o pão que dás ao faminto vale mais do que aquele em que Goethe escreveu o Fausto.

Idiota porque bastaria ter dado o pão nu, sem qualquer invólucro celulótico, para evitar a comparação. O papel não é nutritivo.

E Kolianov, irritado, retrucou:

O erudito papel usado por Goethe para limpar a própria bunda cheia de platelmintos vale mais do que a vida de qualquer analfaminto.

Ninguém se lembra da frase de Kolianov, é como se não tivesse acontecido. Não sei por quê. A de Nekrassov, entretanto, é incessante e, geração após geração, repetida legionariamente.

Postado por Marcelo Rota em dezembro 11, 2004 10:37 AM

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