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novembro 17, 2004
VI UVAS LINDAS NOS VINHEDOS
Tenho pensado em viúvas. Nas jovens e nas velhas. Mas menos nestas.
As velhas têm todo o tempo do mundo, o pouco que lhes resta, para cultivar a fidelidade ao morto. As outras, quanto tempo deve durar o seu luto? Quanto se acumula no reservatório de libido durante este período. (Deveria ter terminado a última frase com uma exclamação, mas a verdade é que não sei exclamar. Sinto-me falso toda vez que fecho sentenças com! Minhas frases são todas declarativas.)
Mas quanto!
Uma viuvez jovem, linda e, além do mais, rica pelo legado do marido. Ele morreu súbito, sem tempo de fazer-lhe os filhos que sonhava. Talvez ela o amasse justamente por causa disso: da vida que poderia ter sido. Pode ser também que não, a oportunista. E que mantenha a tristeza do luto apenas com muito esforço, a fim de não perder a aparência de honestidade.
Mas quanto!
Desta aqui, por exemplo, jovem viúva linda, em cuja porta se formou imensa fila de pretendentes, você não gostaria de ser o primeiro?
Uma outra, também do grupo das jovens, que é o único que nos interessa, gostou tanto deste estado civil que o transformou em condição erótica. Nunca mais casou, apesar de ter tido muitos homens. Morreu viúva velha.
E, finalmente, há uma terceira, a que não existe, mas que levava flores ao túmulo do que a enviuvou analiticamente, ou seja, a cada ano, no seu aniversário de morte. Manteve-se rigorosamente fiel durante os quarenta anos que se seguiram ao defunto. Uma necrofilia espiritual, não concorda? O que a faz a mais depravada e degenerada de todas.
Postado por Marcelo Rota em novembro 17, 2004 9:42 AM | concupiscíveis
Comentários
Às vezes a morte leva o desejo. Acontece.
Postado por: DPedra em novembro 17, 2004 11:12 AM
Em seu retorno que não nos comentários, um presente: (!). Assim, embrulhado. Use com moderação. Tem lá sua utilidade. (dizem)
Postado por: DPedra em novembro 17, 2004 11:14 AM
Deve ser bom sobreviver a um marido. Muitas viúvas orgulham-se disso.
Dona Pedra, qual o seu estado civil? (E assim retruco a sua exclamação, que, afinal, é só um ´i´ tristemente invertido, com o gancho violento das perguntas.)
Postado por: Marcelo Rota em novembro 17, 2004 11:37 AM
Nada hei exclamado, cado Marcelo. Em verdade, guardo as exclamações a que tenho direito para presentear os que julgo serem delas merecedoras. As exclamações são os "i" crudificados com São Pedro. Devolvo o gancho violento de sua pergunta com uma resposta: compartilho com alguém parte substancial do dia-a-dia. (Mas desconfio que mais importante do que os contornos de minha vida são as palavras que por aqui deixo escritas)
Postado por: DPedra em novembro 17, 2004 12:15 PM
crucificados como São Pedro. (Onde é que foi parar aquele revisor de comentários que contratei?)
Postado por: DPedra em novembro 17, 2004 12:17 PM
É, Dona Pedra, deixemos as exclamações para os histriões histéricos do mundo.
Postado por: Marcelo Rota em novembro 17, 2004 8:26 PM