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setembro 13, 2004

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Aqui na praça sob a minha janela, uma quase constante parade de mochileiros, jovens europeus que vem fazer a América do Sul.

Só turistas olham para cima. Nativos olham para frente e para os lados, para cima apenas no caso de incêndio ou ameaça de suicídio.

Os mochileiros, falando inglês, espanhol, holandês, alemão... E, hum, estranho que nunca tenha ouvido de suas bocas o francês. Mais um dado para sociólogos. Mas os mochileiros afluem para desembocar no albergue do Bairro Peixoto, ou então em um hotelzinho barato que há por aqui.

Um modo ainda mais ecônomico de viajar do que o deles seria o da transferência de ponto de vista. As pessoas vencem milhares de quilômetros e horas de espera em aviões, aeroportos, ônibus, rodoviárias só para ter esse olhar do curioso em lugares novos dirigido a pessoas estranhas. Dispendem muitos euros assim. Eu queria, entretanto, que me cedessem seus olhares de turistas apenas durante alguns minutos para ver o Bairro Peixoto pela primeira vez e ouvir pessoas falando o português sem que eu entendesse nada.

No futuro inventarão o turismo estático. "Veja o bairro onde mora há trinta anos pela primeira vez e maravilhe-se", anunciarão as agências.

Postado por Marcelo Rota em setembro 13, 2004 8:17 AM

Comentários

Gostei muito do texto, Marcelo. Penso muito sobre essas coisas também.

Aqui em Belém tem umas partes muito charmosas de barroco português, e eu às vezes me pego olhando pra cima, andando na cidade onde vivo há mais de trinta anos. Um aprendizado desse seria bom para todo mundo.

Postado por: Marcus Pessoa em setembro 13, 2004 4:25 PM

O penúltimo parágrafo é genial.

Quando criança eu sempre costumava me imaginar dentro da cebeça de outra pessoa. Imaginava para onde aquela pessoa iria após nosso encontro e como seria seu dia, como seria sua casa, como seria sua família. A ficção terminava quando eu imaginava a noite da pessoa: na hora de dormir a família sempre descobria que aquele era eu. Então eu tinha que dar explicações, sair correndo, trazer a pessoa de volta. Mas era um bom exercício ficcional.

Não, não sou esquizofrênico.

Postado por: Mercuccio em setembro 13, 2004 5:05 PM

Eu queria, entretanto, que me cedessem seus olhares de turistas apenas durante alguns minutos para ver o Bairro Peixoto pela primeira vez e ouvir pessoas falando o português sem que eu entendesse nada.

Acontece comigo sempre que saio de casa. Tudo tão familiarmente estranho.

Postado por: Daniel Pellizzari em setembro 13, 2004 8:12 PM

Eu queria que todos os dias fossem um brand new day em um lugar inédito com os olhos de um estranho.

Mojo, você é um otimista. Nunca teve o que Kierkegaard chama de o desespero de se ser você mesmo?

Amanhã quero acordar irreconhecível em Belém.

Hoje quero ser Mercuccio.

Postado por: Marcelo Rota em setembro 14, 2004 3:07 PM

Tive sim, MR. E tive também o desespero de não ser outro.

Mas superei ;-)

Postado por: Daniel Pellizzari em setembro 15, 2004 5:43 PM

Eu supero só pra depois ser superado de novo. See-saw.

Postado por: Marcelo Rota em setembro 15, 2004 5:49 PM

Tenho minhas recaídas, obviamente. Aí chamo Tião Estóico e depois de uns sacolejos fico melhor.

Postado por: Daniel Pellizzari em setembro 15, 2004 11:17 PM

Acho que é por isso que escrevo ficção desde sempre.

Postado por: Daniel Pellizzari em setembro 15, 2004 11:18 PM

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