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julho 22, 2004

EGOCÍDIO RECURSIVO (REPOST)


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Tava aqui neste computa dati dati lografando alguma coisa quando, no meu ombro sinistro, senti dois toques esquerdos, tap tap. Virei pra esquerda, mas quem me cutucava estava mesmo à minha direita. Essa de cutucar o ombro oposto ao lado em que se está é velha, porém sempre pego meus amigos assim.

Era eu, eu mesmo, quem me cutuquei. Depois da perplexidade paralisante e natural dos momentos iniciais pude compreender o que ocorrera. Eu, com quatro anos a mais do que tinha naquele momento, havia entrado numa máquina do tempo com o objetivo de encontrar-me comigo. Entretanto, não era só isso: eu também queria que eu me matasse, proposta que eu não poderia aceitar.

Eu estava muito triste e ver-me assim tão triste me fez ficar tão triste quanto eu estava. Falei que podia ter poupado tempo e máquina se tivesse usado os métodos tradicionais de suicídio. Mas não: quis, não sei se por falta de coragem ou por excesso de curiosidade, voltar ao passado e pedir-me para suicidar-me. Expliquei-me que não dava, pois era um paradoxo. Mas de nada adiantaram minhas explicações, pois eu logo retruquei que ali estava com uma arma apontada para mim e que nada, nem mesmo a mais flagrante das antinomias, poderia impedir-me de pressionar o gatilho. E então concordei comigo. Entreguei com a mão esquerda a arma para a minha mão esquerda.

Com efeito, não houve paradoxo que interrompesse a bala na sua rota: perfurou o meu crânio para chegar ao encéfalo e alojar-se em algum ponto do lobo occipital. Morri. Contudo, não sou um autor defunto, nem defunto autor. Vivo. Tanto que estou aqui dati dati lografando alguma coisa quando, no meu ombro sinistro, senti dois toques esquerdos, tap tap. Virei pra esquerda mas quem me cutucava estava mesmo à minha direita. Essa de cutucar o ombro oposto ao lado em que se está é velha, porém sempre pego meus amigos assim.

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Postado por Marcelo Rota em julho 22, 2004 7:26 PM

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