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julho 12, 2004
CONTO PORNÔ COM FOG
Eu trabalhava como salva-vidas na Praia das Meninas Nudistas de XXX. Espécie de resort íntimo de XXX, manda-chuva da República de Costaguana, só entrava nos domínios da Praia quem ele permitisse, ou seja, quase ninguém. Eu, com efeito, era, além de XXX em suas visitas ocasionais, o único homem da Praia. Localizada num recôndito da Península de Sulaco, a expressão que a descreve com mais precisão é “O Auschwitz Edênico”. O oximoro é justificado quando consideramos, de um lado, os muros, o arame farpado, as guaritas e soldados ao seu redor, e, de outro, a beleza de suas banhistas e suas águas transparentes. Transparentes. É importante repetir porque normalmente este qualificativo é empregado retoricamente para descrever águas que, a rigor, são translúcidas. As da Praia, contudo, são exatamente como o céu, um céu com peixes, algas e anêmonas ornamentais. Portanto, a frase “as meninas nudistas nadam no céu” é verdadeira.
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Sylvia Saint, Zhang Ziyi e Amanda Langlet, estes os nomes das náiades d´El Presidente. Eu, bonito, delicado e prestimoso, era querido por cada uma delas. Ainda que tivesse esta função inconveniente e difícil, a saber, de evitar que surgisse entre elas qualquer traço de gomorrismo. XXX tinha princípios morais estranhos. E inflexíveis: notasse durante os seus contatos com as garotas qualquer indício de que estavam desenvolvendo uma natureza gomorriana, seriam mortas. Eu também, mas antes ainda vivenciaria castigos pavorosos.
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O verdadeiro inferno é viver no paraíso e, por falta de meios, não poder desfrutar de suas benesses infinitas. Como um Borges, cego na biblioteca, assim era o martírio de Eu.
Falam dos jejuadores que, depois de um certo período de privação, deixam de sentir fome. Não funcionava assim com ele: Eu nunca deixava de sentir desejo.
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Em um caixote de areia envidraçado coloque uma formiga inquieta. É possível que em vinte e quatro horas o trajeto das suas pegadas na areia corresponda ao traçado de um dos caprichos de Goya. Há os conhecidos chimpanzés shakespearianos que, com suas máquinas de escrever e datilografia randômica, são possíveis dramaturgos. O vento uivante, um possível compositor. E talvez o vidro da janela não seja estilhaçado pela pedra que o atinge, que, então, atravessar-lhe-ia como se fosse uma cortina d´água.
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Então veio o câncer. Ou seja, as células de Eu iniciaram um processo de replicação desordenada. No primeiro mês apareceu como uma discreta disfunção anatômica. No seguinte, como uma intumescência com tendência a verticalização. E ia ficando cada vez mais indiscreta. Eu realmente deveria chamar o médico. Era o que ia fazer quando teve o insight e desistiu, maravilhado.
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Dois anos mais tarde um médico de Costaguana descreverá o fenômeno de Eu em um artigo publicado em Archivos de Oncología como um “caso jamais visto de regeneração casual através de um exo-teratoma”. Miraculoso exo-teratoma. Mais ainda porque era funcional, perfeitamente funcional e, como o que existia antes do terrível recrutamento como salva-vidas da Praia, tinha a conveniência de ser retrátil.
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Brilhante, úmida, cálida, elétrica, túrgida e ácida, estas foram algumas das palavras que Eu usou em um poema dedicado a Zhang Ziyi, sua preferida agora que era livre, finalmente livre para qualquer coisa na Praia das Meninas Nudistas de XXX. Preferência que logo foi causa de inveja das outras duas, Amanda Langlet e Sylvia Saint. Pior, aproximou-as daquele modo que XXX jamais permitiria.
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Não é necessário contar o final da história: que XXX descobriu tudo, que as meninas foram guilhotinadas e Eu também, só que duas vezes.
Postado por Marcelo Rota em julho 12, 2004 9:40 PM | concupiscíveis
Comentários
hahahahaha
Muito bom, muito bom.
Postado por: Alexandre em julho 12, 2004 9:51 PM
Haha, céus.
Postado por: Olivia em julho 14, 2004 11:07 AM