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julho 7, 2004

O MENOR CONTO DO MUNDO

Certa vez estava numa livraria em Madri, quando alguém ao meu lado perguntou em voz alta ao proprietário: “Como é mesmo o nome do autor do menor conto do mundo?”. O proprietário não apenas disse: Augusto Monterroso, mas falou prontamente o conto: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Ruim, pensei. E, para piorar, não é o menor conto do mundo. Este pertence ao Marcelo Rota, um amigo, que uma vez, durante uma festa, leu-o para mim.

Marcelo Rota é o menor escritor do mundo. Confidenciou-me que, todavia, durante dez anos dedicou-se a escrever o maior romance de todos os tempos. “Maior tanto no sentido quantitativo, quanto no qualitativo”, acrescentou. Já estava com algo em torno de cem mil páginas, quando, mudando subitamente de idéia, considerou aquele um projeto absurdo. E resolveu então fazer algo mais absurdo ainda: resumir o seu romance, que, se bem me recordo, tinha o título de “As Bergamotas de Bambuí”, do modo mais sucinto possível, cortando tudo o que não fosse estritamente necessário para a narrativa. Mas o que o levou a esta mudança inexplicável da prolixidade total para a concisão extrema?, perguntei-lhe. A brevidade da existência é mais importante do que a imensidão do universo, respondeu. O fato é que conseguiu que uma rede de restaurantes de comida chinesa publicasse a sua obra nos biscoitos da sorte. E isso acabou por lhe garantir o título de Menor Escritor do Mundo.

Foram cinco anos editando, cortando, mutilando, enxugando o seu grande romance. Esta prática, ele a chamava de “lipo-escritura”. No final do quarto ano, o resultado do seu trabalho havia sido

Nasceu e morreu.

Não satisfeito ainda, achou que poderia colocar no lugar da conjunção ‘e’ uma vírgula:

Nasceu, morreu.

Entretanto, achou pleonástica esta fórmula; afinal, para morrer é preciso necessariamente ter nascido. Então, apagou o nascimento:

Morreu.

Seu último ato foi a exclusão do ponto final, pois avaliou que a morte já seria o próprio ponto final:

Morreu

Eis então o menor conto do mundo. Certamente é menor do que o do Monterroso. Provavelmente também melhor, pois, enquanto o do espanhol lança uma frase que supomos desconectada de uma narrativa maior que a contextualizaria e explicaria, o do Marcelo não, já é uma narrativa completa e auto-suficiente. Além disso, se o objetivo da literatura é o universal, o microconto dele capta no seu escopo todos os seres humanos, ou melhor, todas as criaturas. Não fica nada de fora. É toda a arte que a humanidade produziu em apenas uma palavra. Aliás, o Marcelo não gosta que chamem sua obra de conto, pois, segundo ele, é um romance, sempre foi um romance. Era quando tinha cem mil páginas e continua sendo depois que, resumido, passou a ter apenas uma palavra de seis letras.

Postado por Marcelo Rota em julho 7, 2004 2:25 PM | não há nada além

Comentários

Brilhante! (O menor comentário do mundo. Exclúida esta parte, claro).

Postado por: ivan pedro em julho 7, 2004 2:43 PM

Uh!

Postado por: Olivia em julho 7, 2004 2:46 PM

Ivan Pedro, eu ganhei.

Postado por: Olivia em julho 7, 2004 2:47 PM

Esses micro-contos ou micro-romances podem causar um certo sentimento de depressão profunda aos escritores wannabe. Principalmente aqueles que não sabem exatamente porque contam historias. Apenas contam porque parece divertido contar.

Mas tudo bem. Já passei por essa fase.

Postado por: Olivia em julho 7, 2004 2:49 PM

Vocês devem saber, mas recentemente foi lançado um livro chamado Os Menores Contos do Mundo... tem até um do Millôr Fernandez... que escreveu um minúsculo com um título enorme.

Postado por: Agasea em julho 7, 2004 2:53 PM

!...

Olívia, virei o jogo...

Postado por: ivan_pedro em julho 7, 2004 2:58 PM

Fosse um otimista, teu amigo o reescreveria assim:

Viveu.

Com o ponto final para indicar a suficiência da vida. Fosse um sentimental ou estivesse apenas interessado em cativar mulheres, teu amigo escreveria:

Te amo

Sem ponto, pois esse amor não acaba. Críticos mordazes diriam, contudo, que "Morreu" é romance histórico, mas "Te amo" é ficção.

Postado por: Glhrm em julho 7, 2004 3:01 PM

Glhrm, você tem toda a razão. Ou mesmo

Amou.

E olha lá, é ainda menor. No caso, acabou, e é até um pouco trágico, meio dramático e tal. Heh.

Ivan, pra você:

:p

Hehehe.

Postado por: Olivia em julho 7, 2004 3:04 PM

Genial.

Postado por: FDR em julho 7, 2004 3:50 PM

Genial.

Postado por: FDR em julho 7, 2004 3:50 PM

O romance é muito deprê, se Proud (pré-gaiola) estivesse vivo, sugeriria que Marcelo Rota o resumisse a somente uma cruz.

Além da maior concisão, há a possibilidade de ser lido como redenção, conversão, ou até um sinal de soma se o sujeito estiver com pressa.

O problema é ser processado pelo Vaticano por plágio, ou chamado de simbolista pelas médias classes.

Postado por: t.s.mozart em julho 7, 2004 5:03 PM

Ótimo!

Postado por: Mercuccio em julho 7, 2004 5:09 PM

Quanta gente. Já são em maior número do que as que foram ao meu futuro enterro.

Sim, uma cruz. Mas restringiria o alcance aos que aceitam a iconografia cristã. Entretanto, judeus também morrem, ateus principalmente. E não vamos esquecer dos azandes. Insisto: ninguém morre mais do que um ateu.

Eu fiquei sabendo do livro de micro-contos. Não li. Entretanto, quase posso garantir que há entre eles um que se restringe a palavra ´nada´. Talvez um outro autor tenha optado pela página em branco. Mas a página em branco já é demais. O verdadeiro Segundo Menor Conto do Mundo é aquele que um escritor baiano não escreveu. O Primeiro é do mesmo autor, só que este ele nem mesmo pensou.

Marcelo Rota com seu ´Morreu´ será lembrado pelos pósteros como autor prolixo e enfadonho. E esquecido pelos pós-pósteros.

"Te amo" não é o que as fãs escreviam trinta mil vezes em um rolo de papel higiênico para o seu menudo preferido? É a declaração mais prolixa e descartável disponível aos amantes.

Ah, sim, quase esqueço: Oilivia a todos vocês!

Postado por: Marcelo Rota em julho 7, 2004 7:11 PM

Será que o escritor acharia ruim se seu post, com devida citação da fonte, fosse parar num trabalho final de uma disciplina da pós de letras? Seria um entre comentários de Calvino e Perec.

Postado por: Dri em julho 8, 2004 1:22 AM

Dri, acharia não: pó mandar ver.

Postado por: Marcelo Rota em julho 8, 2004 1:42 AM

Bom, mande-nos outro microconto, que seja apenas uma pontuação ou reticências. Afinal, como dizia Stravinksy, o silêncio está entre os elementos mais importantes da música porque ele é prenhe de sons...

Postado por: ivan pedro em julho 8, 2004 11:45 PM

Blogauti,

postei um final "alternativo" ao romance "Vidas Secas". Lamento a pretensão.... mas valeu a pena.

Se puder, cheque em meu blog: declinioequeda.blogspot.com

Inté...

Postado por: ivan pedro em julho 9, 2004 12:15 AM

Oivan!

Eu gostei do seu final. Mas eu, se fosse escrever um, subiria o índice pluviométrico até matar as personagens todas em uma enxurrada. Ah, e inverteria o destino da cadela Baleia, que, então, em seu habitat natural, seria o único sobrevivente.

O que você acha?

Postado por: Marcelo Rota em julho 9, 2004 12:48 AM

Oilivia, Oivan... Alguém mais com nome começado em ´i´ ou em ´o´?

Postado por: Marcelo Rota em julho 9, 2004 12:51 AM

O pessoal do "vunderblogs" é um sarro. não falo dos visitantes que como eu perdem tempo com ótimos textos. Falo dos Blogueiros.
Visite os blogs e verá que eles ficam comentando os blogs uns dos outros.
O quê?! Isso não é curioso?!
Ah! eu acho...
Mas nem essa solidariedade aparente "diminói" a qualidade dos póstes.

Postado por: Felipe em julho 11, 2004 3:25 PM

Que tal "Foi" em vez de "Morreu"?
Tem menos letras e é mais vago (portanto, mais abrangente): inclui não só a morte, mas tb a vida. Afinal, estamos indo o tempo todo...

Postado por: Antonio em julho 13, 2004 6:30 PM

Oi, Antônio

O problema com "Foi" é que menos clientes da cadeia de comida chinesa engasgarão. Mas é mais sucinto e ambíguo, sem dúvida.

Felipe,

Os wunder ficaram felizes com suas observações.

Postado por: Marcelo Rota em julho 13, 2004 7:14 PM

Meu comentário é o seguinte:
!

Postado por: Ronei Augusto Duarte em julho 8, 2005 6:40 PM

nasceu chorando,viveu lutando e morreu feliz da vida!

Postado por: Ronei Augusto Duarte em fevereiro 28, 2006 4:11 PM

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