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junho 22, 2004
SEM PHOTOSHOP
Aliás, a sugestão de ver sempre o lado bom da vida, se deixarmos qualquer pythonismo de lado, não concordo com ela. Digamos que eu seja o J. R. Duran e a vida, a Juliana Paes. Então, querer-lhe-ia todos os ângulos, não só o seu light side. Também o backside, e ainda o dark side do back, as celulites, estas pequenas alterações poético-cutâneas que a beleza possui e que o photoshop exclui.
Pensamento entre parêntesis: "Céus, senti um sabor jaboriano, acre, no que acabei de escrever. Será que apago? Bom, se alguém também sentir, digo que foi paródia."
Always look on the bright side of life, tutu tutu tututu.
Mas e se eu, fotógrafo, novamente fotógrafo, tiver como modelo a vida, e esta dois perfis, um sórdido e monstruoso, coberto de escaras, e o outro liso e magnífico, só quiser mostrar-me o segundo?
Ou então talvez me falte domínio do gestalt switch e fique travado na velha, jamais conseguindo ver a moça.

Ninguém é como Éolo, que domesticava seus ventos. Há um grau de insubmissão no humor. Tive um professor cujas aulas jamais retinham minha atenção. Esta sempre estava voltada para a espuma branca que aos poucos se formava entre seus lábios à medida que ia falando. Era hegeliano e obtinha um prazer especial na repetição da palavra "Geist". Ao proferi-la a saliva acumulada projetava-se para o ar da sala. Ou então, por um acaso qualquer, já que não sou um fatalista como o herói que seus perdigotos pareciam celebrar, ele passava a língua nos lábios, limpando o terreno para o próximo cúmulo que certamente viria com sua loquacidade torrencial. Este processo exercia sobre mim uma hipnose que me impediu, durante toda a graduação, de aprender qualquer coisa sobre Hegel. Fosse eu senhor da minha psicologia, a exegese ritual que ele fazia da "Phänomenologie des Geistes" ocuparia o lugar da memória onde hoje aparece a imagem do seu rosto, o branquinho do cuspe insinuando-se entre os lábios, a cada vez que penso em Hegel.
O humor varia meteorologicamente. Melhor aceitá-lo como a chuva.
Postado por Marcelo Rota em junho 22, 2004 3:15 PM