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junho 15, 2004
ASDLASDLASL
Acabei de acordar, reli o post abaixo e realmente odeio análises retrospectivas. As prospectivas são melhores, o futuro não admite arrependimentos. É por isso que admiro os velhinhos, principalmente os que as famílias largam em asilos: muita retrospecção, tanta quanto a brônzea, enferrujada trama neuronal lhes permitir, mas franqueia o suficiente para muitos remorsos. Acordam de um pesadelo, lembram-se dos filhos e não entendem nada. Eu acordo e me arrependo do final de um post, aquele "meus iguais, meus irmãos". É o que alguns, não eu, chamam de overpathos.
Mas acordei bem, apesar de tudo. Agora estou ouvindo Kazuhito Yamashita, um violonista japonês. Ele toca muito rápido. Vocês precisam ouvir alguns dos estudos do Villa-Lobos com ele, os de velocidade: fazem ventar nos cabelos da gente. Agora estou escutando a Sinfonia do Novo Mundo, do Dvorak. O japonês faz transcrições impossíveis para as seis cordas. E toca-as furiosamente, inclusive ao vivo. Nada de artifícios de gravação. O homenzinho, para executar estas peças, tem que mudar de scordatura enquanto continua tocando. Não, não é apenas curiosidade circense, porque a musicalidade fica intacta e é só isso o que interessa no final das contas. Não é como ver os irmãos Assad tocando um só violão a quatro mãos, os siameses, ou o Hendrix, a guitarra com os dentes, o cão raivoso. Falam que o Yamashita é tímido. Quando entra em cena, parece pedir desculpas por estar ali. Logo depois, entretanto, ocorre aquele clique, o da concentração oriental e, possesso por uma ancestralidade abantêsmica, ataca o instrumento. O violão é pobre em variação dinâmica, não é como o piano. Mas Kazuhito faz do violão um piano, e vai do pianissimo ao fortissimo. Só que não é um piano, é melhor, ao menos segundo a minha idiossincrasia tímbrica.
Postado por Marcelo Rota em junho 15, 2004 3:55 PM
Comentários
Vou ouvir. Juro que vou!
Postado por: Giorgia em junho 16, 2004 1:59 PM
Eu acredito em você, Giorgia.
Postado por: Marcelo Rota em junho 16, 2004 2:38 PM
Não vou. Mas te ouço. Serve?
Postado por: Jules em junho 16, 2004 8:28 PM
O Yamashita, dedos velozes, é mais rápido. Se tivesse um wunderblog, estaria sempre no topo da página inicial. Eu sou lento como um filme do Tarkovski ou certas tomadas dos de Sergio Leone. Caso o teclado fosse a minha pistola, já estaria morto.
Se serve? Claro que serve. :)
Postado por: Marcelo Rota em junho 16, 2004 8:59 PM
que programa vc está usando pra download de músicas? No Soulseek o queue pra baixar alguma coisa desse japa está em 747.
Postado por: marquito em junho 16, 2004 9:36 PM
Imagino a concentração oriental. Imagino. Hm, assustador, é.
Mas eu gostei daquele post ali debaixo, até me inspirou um post, que nao tem nada a ver, mas inspirou mesmo assim né.
Entao.
Postado por: Olivia em junho 16, 2004 11:24 PM
Marquito, na rede do edonkey havia vários do Yamashita. Espero que continuem lá. Qualquer coisa volte a me procurar.
Oi, Lívia
Que bom que o anterior te inspirou a expirar um post. Eu, inclusive, li lá no seu blog. Legal. A vida é assim, respiração, inspira e expira, input e output. Alguma coisa também deve ter me inspirado a espirrar o post anterior. Aliás, a gente nunca deve começar uma frase com ´a vida é´, mas, se começar, melhor concluí-la com reticências. Não sei como fui me esquecer disto.
Postado por: Marcelo Rota em junho 16, 2004 11:57 PM
Ah, e ó, viu, te pus lá nos meus blogs favoritos no meu blog, porque tem gente que merece só d'eu ler dois posts (que eu tenho preguiça de ler mais, essa tela arde os olhos) ficar por lá.
Nao, nao espero nada em troca :) Mas é pra ce saber, né?
E meu nome nao tem acento. NAAAAO (assim mesmo, viu, não sem acento). É Olivia. Olívia é esquisito, perde todo o balanço do nome, sacou?
Pois é.
Postado por: Olivia em junho 17, 2004 12:41 AM
O Kazuhito é mesmo fora do sério. Não há outro instrumentista como ele vivo. Tem até aquela história de que ele pegou uma partitura duma peça do Wolfgang Lendle e tocou lendo de primeira, sem errar sequer o andamento. Na Dança Infernal do Rei Katschei ele toca a passagem de escala mais rápida que eu já ouvi na minha vida em uma violão erudito, e ainda por cima em pianíssimo, com consistência perfeita de ataque em todas as notas. É estupidamente impressionante porque ele costuma usar ataques muito mais altos, e é difícilimo ter um bom controle de dinâmicas numa velocidade lenta, quanto mais um controle absoluto (que ele tem) de todas em qualquer velocidade. Ninguém mais tem isso, e ainda por cima, ele toca com limpeza absoluta. No piano, que eu me lembre, só Pollini, Richter (sometimes) e Michelangeli.
E mais do que tudo isso, ele é um PUTA intérprete.
Tem uns vídeos meios bobos dele em uma página aí, mas eu perdi o endereço. Acho que o único cara tão tecnicamente tão monstruoso quanto o Kazuhito nos últimos anos foi o Shawn Lane, guitarrista multiinstrumentista que faleceu ano passado. Mas ele não conta, era um et.
Postado por: Pedro em junho 17, 2004 1:00 AM
Acabei escrevendo um ensaio, desculpa. rs
Postado por: Pedro em junho 17, 2004 1:00 AM
Olivia, então você é uma paroxítona, como ´azeitona´? Que bonitinho.
Ah, e obrigado pelo link. Vou esperar passar um tempo antes de te linkar aqui no meu para que não achem que estamos praticando esta coisa abjeta, que é o comércio de links. ;)
Postado por: Marcelo Rota em junho 17, 2004 1:50 PM
Pedro, achei ótimo o seu ensaio.
Olha só: do Yamashita eu apenas tenho, além da Sinfonia do Novo Mundo, os Estudos do Villa e "Quadros de uma Exposição". Vou ver se acho o Pássaro de Fogo com ele. Fiquei curioso com a escala que você mencionou.
Ah, e já vi esses vídeos dele. Foi em um site coreano, acho.
Postado por: Marcelo Rota em junho 17, 2004 2:00 PM
Oi... Estou desesperado para conseguir o cd do Kazuhito Yamashita intrepretando "Firebird Suite" e Dvorak "Symphony No.09. Como faço para ter uma cópia? Abraços!
Postado por: David van den Brule em setembro 21, 2004 6:36 PM